Nuvem de lixo espacial cruza com a ISS e astronautas se abrigam nas espaçonaves

Nuvem de lixo espacial cruza com a ISS e astronautas se abrigam nas espaçonaves

Por Daniele Cavalcante | Editado por Patrícia Gnipper | 15 de Novembro de 2021 às 15h23
NASA

Se o estranho objeto visto pelos astronautas da missão Crew-3 era um pedaço de lixo espacial (e provavelmente era), aquele foi apenas o primeiro de muitos detritos a passarem perto da Estação Espacial Internacional (ISS) desde a chegada da nova tripulação. É que agora uma nuvem de destroços orbitais obrigou os astronautas a se recolherem nas naves Crew Dragon e Soyuz por algumas horas, começando na manhã desta segunda-feira (15).

As passagens de lixo espacial começaram na madrugada da segunda-feira e a ISS continuou a se aproximar de destroços a cada 90 minutos, de acordo com os técnicos que monitoram a situação. O cenário deve permanecer o mesmo na terça-feira (16), de acordo com o comunicado do controle da missão à tripulação, mas eles já foram instruídos a deixar as cápsulas e retornar às instalações da estação. A previsão é que as passagens por campos de destroços continuem até dia 16.

E por que a tripulação precisou se abrigar nas naves espaciais acopladas à ISS? É que quando astronautas a bordo da estação enfrentam qualquer situação que possa representar algum perigo, o procedimento padrão é que eles se tranquem em seus veículos espaciais (Crew Dragon e Soyuz, os mesmos que levam os astronautas à estação orbital e ficam acoplados lá até o retorno à Terra), com as escotilhas fechadas. Caso seja necessário, eles já estarão prontos para acionar os motores e iniciar um retorno emergencial para o planeta — uma espécie de botes salva-vidas espacial.

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(Imagem: Reprodução/NASA)

NASA, Roscosmos e seus parceiros monitoram regularmente um perímetro de segurança que corresponde a cerca de 25 km ao redor da ISS e 0,75 km acima e abaixo. À medida que detritos “invadem” essa zona, os oficiais movem a estação espacial para evitar uma possível colisão. Na semana passada, por exemplo, os destroços de um teste anti-satélite chinês de 2013 passaram perto da estação, que precisou realizar uma manobra de desvio. Apesar da possibilidade de manobrar a ISS para mantê-la em segurança, essas operações levam tempo para serem planejadas, e por isso as equipes de solo às vezes instruem a tripulação a se proteger em suas naves.

De acordo com relatórios preliminares, os astronautas receberam uma instrução final antes de encerrarem seu dia de trabalho. O plano é manter muitas das escotilhas entre os módulos da ISS fechadas até terça-feira, enquanto o trabalho de rastrear o campo de destroços continua. A tripulação já deixou as naves Crew Dragon e Soyuz, mas os astronautas estão limitados a apenas alguns módulos da estação. "É uma maneira maluca de começar uma missão", disse o pessoal do controle da Crew-3, que chegou lá há poucos dias.

Com as escotilhas fechadas, as atividades que deveriam acontecer com o braço robótico da estação foram canceladas temporariamente, e outras mudanças significativas no cronograma devem acontecer. Após as instruções, a equipe de suporte em terra cessou a comunicação para que a tripulação dormisse. O próximo trânsito com o lixo espacial terá duração de oito minutos e acontecerá às 10h55 da terça-feira (horário de Brasília). 

EUA acusam Rússia

O porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Ned Price, acusou a Rússia de ter causado o problema. "A Federação Russa conduziu imprudentemente um teste com um míssil antissatélite contra um de seus próprios satélites. O teste gerou até agora mais de 1.500 fragmentos orbitais rastreáveis e centenas de milhares de fragmentos menores, que agora ameaçam os interesses de todas as nações", declarou. 

A Rússia ainda não confirmou (ou negou) tal teste, mas tudo indica que o satélite destruído é o Kosmos 1408, lançado em 1982 e já "aposentado". Pesando cerca de 2 mil quilos, o satélite parece ter se partido entre o fim do domingo (14) e o início desta segunda (15), de acordo com dados de rastreamento do governo. Na última vez que o Kosmos 1408 foi rastreado, ele estava a uma órbita de cerca de 485 km de altitude — e a ISS fica a 408 km.

Além do rastreamento do governo, quem também acompanha o caso é a LeoLabs, empresa que justamente atua no rastreamento de objetos orbitais no combate ao lixo espacial. Dan Ceperley, executivo-chefe da companhia, disse que "onde costumava haver um satélite, agora vemos seis detecções de radar, que podem ser destroços". Tal declaração foi dada algumas horas antes do comunicado do Departamento de Estado dos EUA.

Em uma análise inicial, divulgada no tweet acima, a LeoLabs informava já ter detectado pelo menos 30 objetos próximos da localização esperada do Kosmos 1408. Para Ned Price, "o comportamento perigoso e irresponsável da Rússia põe em risco a sustentabilidade de longo prazo do espaço sideral e demonstra claramente que as alegações da Rússia de se opor à armamentização do espaço são falsas e hipócritas". Vale ressaltar que, até a publicação desta notícia, a Rússia ainda não havia se manifestado publicamente sobre o assunto.

Fonte: Spaceflight Now, Space.com, Space News

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