Dia Nacional da Astronomia — conheça o nosso legado para a ciência

Dia Nacional da Astronomia — conheça o nosso legado para a ciência

Por Daniele Cavalcante | 02 de Dezembro de 2020 às 10h45
Yuting Gao

Nesta quarta-feira, 2 de dezembro, celebra-se no Brasil uma das áreas do conhecimento humano que mais influenciou nossa relação com o mundo e o universo. Estamos falando, é claro, da astronomia, a ciência natural mais antiga do nosso planeta.

O Dia Nacional da Astronomia é uma data recente e surgiu em homenagem ao imperador Pedro de Alcântara, Dom Pedro II, que era um astrônomo amador e acabou recebendo o título de patrono da astronomia brasileira. Sua dedicação a esta ciência era tanta que financiou missões de observação astronômica mesmo sob protestos do Parlamento e da imprensa da época. Um pioneiro, de fato.

O imperador também equipou e organizou o Observatório Nacional, criado por seu pai, Dom Pedro I, em 1827. Ali começou a história da astronomia no Brasil. O objetivo principal da instalação era manter a hora oficial para orientar a navegação, marcando o meio-dia com um tiro de canhão e mais tarde com o lançamento de balões (ainda hoje o Observatório Nacional é encarregado da hora oficial brasileira, além de desenvolver pesquisas, ministrar cursos de graduação e pós-graduação, entre outros serviços relacionados à astronomia).

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Imagem do Imperial Observatório em 1871, uma das instituições científicas mais antigas do país, criado por Dom Pedro I, e renomeado várias vezes até se tornar o Observatório Nacional (Imagem: Reprodução/Acervo Observatório Nacional)

Há muito o que falar sobre as contribuições de D. Pedro II para a ciência no Brasil, mas vamos resumir dizendo que foram o suficiente para que a Sociedade Brasileira de Astronomia, fundada em 1947, escolheu a data de 2 de dezembro, dia do nascimento do imperador, como Dia Nacional da Astronomia. A escolha veio logo após a decisão de conceder a Pedro o título póstumo de Patrono da Astronomia Brasileira, em uma reunião durante o 2º Encontro de Astronomia do Nordeste, em Recife, no ano de 1978. Entretanto, só recentemente a data foi oficializada pela União.

É importante não confundir esta data com o Dia Mundial da Astronomia, que ocorre em 8 de abril. Pois é, temos duas datas comemorativas no Brasil. O Dia Mundial não é exatamente parte do calendário internacional, mas ainda é celebrada pelos astrônomos brasileiros todos os anos. Em outras partes do globo, o Dia Mundial acontece em 10 de abril, data que surgiu nos Estados Unidos.

Quão importante é a astronomia?

Desde a pré-história, a humanidade observa o céu na tentativa de compreender a existência de tudo ao seu redor. Há 50 mil anos, nossos antepassados já gravavam em pedras desenhos que representam agrupamentos estelares como as Plêiades e algumas constelações. Um pouco mais tarde, o cosmos se tornou uma ferramenta para entender os mecanismos do nosso próprio mundo, como a passagem dos dias, as estações do ano, e muito mais.

Já parou para pensar nisso? Normalmente, quando falamos em astronomia, logo nos vem à mente galáxias, estrelas muito distante, telescópios, e coisas mais complexas como buracos negros e quasares. Talvez a astronomia moderna até seja um pouco inacessível para nós, com tanta coisa complicada sendo descoberta a cada dia, e parece que não há muita utilidade prática para todas essas pesquisas no dia a dia. Mas ao longo da história, astronomia influenciou tanto a nossa sociedade que é difícil imaginar o mundo sem os conhecimentos que ela proporcionou.

Imagine só um mundo sem a “lei das estrelas” (significado da palavra astronomia)! Não teríamos satélites de comunicação, não haveria calendários, não saberíamos prever o clima, seríamos péssimos agricultores. Nossos antepassados jamais teriam aprendido a se localizar na selva e, portanto, provavelmente não iriam muito longe de suas moradas. Não teríamos dominado a navegação. Talvez nunca teríamos saído das cavernas.

O astrônomo Galileu Galilei, considerado o pai da ciência moderna, realiza a famosa experiência da queda dos corpos na Torre de Pisa, em pintura de Luigi Catani, datada de 1816. O experimento provou que dois corpos de massas diferentes sempre cairão na mesma velocidade. O princípio da gravidade é fundamental na astronomia.

Essa ciência sempre contribuiu com nossa história, nossa evolução enquanto espécie. Mesmo quando astronomia e astrologia eram uma só, o conhecimento dos astros já auxiliavam os navegantes a conquistar novas e desconhecidas terras. A astronomia sempre revolucionou o nosso pensamento e nossa maneira de encarar o universo e buscar nosso lugar perante o todo. Se no passado a astronomia nos ajudou a descobrir como medir o tempo, marcar as estações do ano e navegar nos oceanos, no futuro ela nos ajudará a encontrar novos caminhos para a humanidade — neste ou em outros planetas.

Não é um exagero poético. É graças a astronomia que hoje entendemos cada vez mais as mudanças climáticas e os efeitos dela em nosso planeta. E também graças à “lei das estrelas” que podemos hoje enviar satélites para monitorar todas essas mudanças e planejar meios de reduzir as consequências negativas. E, até mesmo — por que não? —, nos ajudará também a partir deste planeta para povoar outros mundos, assim como ajudou antigos povos a deixarem pequenas terras para construir impérios.

Então, neste Dia Nacional da Astronomia, lembre-se daqueles que dedicaram suas vidas a esta ciência. Sem eles, não teríamos computadores e celulares, muito menos internet. Ou painéis solares, scanners de ressonância magnética, micro laser e muitas outras tecnologias.

5 astrônomos brasileiros que fizeram história

E por falar em agradecer aos astrônomos, não poderíamos deixar de lembrar alguns nomes brasileiros importantes. Afinal, é o nosso Dia Nacional da Astronomia, e grandes mestres caminharam e ainda caminham entre nós. Longe de pretender criar uma lista completa, selecionamos alguns dos mais importantes divulgadores científicos, pesquisadores e professores da área, incluindo até mesmo um artesão dedicado à fabricação de telescópios.

Abrahão de Moraes

(Imagem: Reprodução/Acervo IFUSP)

Nascido em 17 de novembro de 1917 e falecido em 11 de dezembro de 1970, Abrahão de Moraes é considerado o fundador da astronomia moderna brasileira. Ocupou cargos como o de diretor do Instituto Astronômico e Geofísico (atualmente Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo) e chefe do Departamento de Física e professor do Instituto de Física.

Foi um dos fundadores e diretor da Associação de Amadores de Astronomia de São Paulo, e escreveu o capítulo “A Astronomia no Brasil”, do livro “As ciências no Brasil”, de Fernando de Azevedo. No mesmo ano, foi indicado para a direção do Instituto Astronômico e Geofísico. Recebeu diversas homenagens por sua atuação na astronomia e ciências espaciais no Brasil, e recebeu homenagens póstumas — uma das crateras de impacto da Lua leva seu nome; a cratera De Moraes.

Marcelo Gleiser

(Imagem: Reprodução/Acervo Fronteiras do Pensamento)

Físico, astrônomo, professor, escritor e roteirista brasileiro, Marcelo Gleiser coleciona premiações e títulos. Dedicou-se ao ensino e à divulgação científica durante toda a vida e atualmente é pesquisador e professor da Faculdade de Dartmouth, nos Estados Unidos, país onde se tornou conhecido nos Estados Unidos por suas aulas e pesquisas. Inclusive, recebeu do presidente norte-americano Bill Clinton o prêmio Presidential Faculty Fellows Award, em 1994, por seu trabalho de pesquisa em cosmologia.

No Brasil, é conhecido por suas colunas de divulgação científica no jornal Folha de S.Paulo e pela publicação do livro A Dança do Universo. Não parou por aí — escreveu oito livros e publicou três coletâneas de artigos. Participou de programas de televisão dos Estados Unidos, da Inglaterra e do Brasil. Recebeu prêmios como o Jabuti em 1998 e o Prêmio Templeton em 2019. Apresentou também duas séries no programa Fantástico: “Poeira das Estrelas” e “Mundos Invisíveis”. Inúmeras famílias brasileiras foram introduzidas ao mundo da astronomia através de Gleiser.

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

(Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons)

Nascido em 25 de maio de 1935 e falecido em 25 de julho de 2014, Ronaldo Rogério de Freitas Mourão foi o fundador do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), na cidade do Rio de Janeiro, além de pesquisador e sócio titular do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IGHB). Embora seus estudos tenham se concentrado nas estrelas duplas e em corpos afastados no Sistema Solar, também se destacou pela descoberta de uma série de asteroides.

Sua contribuição foi bastante prolífica. Publicou artigos de divulgação científica na revista Ciência Popular em 1952, produziu a série “O Céu do Brasil” para o rádio, elaborou todos os verbetes sobre astronomia e astronáutica do Novo Dicionário da Língua Portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda, e ganhou prêmios como o Jabuti, e títulos como o “Suprema Honra ao Mérito” da Universidade Soka, Tóquio, em reconhecimento "aos notáveis empreendimentos realizados, em prol da ciência, educação e do bem estar da humanidade, do verdadeiro testemunho de uma vida exemplar dedicada às causas públicas e humanitárias".

Bernardo Riedel

(Imagem: Reprodução/Leandro Couri/Em/D.A Press)

O professor aposentado e antigo astrônomo do Observatório Astronômico Frei Rosário é conhecido pela comunidade de astrônomos amadores do país como “Professor Pardal brasileiro”. É que ele se especializou não apenas em construir telescópios, mas em criar suas próprias técnicas para produzir instrumentos de observação e cúpulas astronômicas. Riedel estima que mais de 1.500 telescópios já saíram de seu galpão localizado em Belo Horizonte. Existem mais de 15 observatórios construídos por ele em todo o país.

Irineu Gomes Varella

(Imagem: Reprodução)

Astrônomo, professor e divulgador científico, Irineu Gomes Varella foi referência para muitos estudantes e pesquisadores brasileiros. Teve uma longa e prolífica carreira, com mais de 250 cursos ministrados e centenas de palestras sobre astronomia realizadas. Em 1980 foi escolhido pelo próprio Prof. Aristóteles Orsini, fundador da Associação de Amadores de Astronomia de São Paulo e idealizador do Planetário do Ibirapuera e da Escola Municipal de Astrofísica, para sucedê-lo na direção da instituição, ocupando o cargo por 22 anos.

Promoveu cerca de 10 mil apresentações do Planetário, criou e implementou o projeto do segundo Planetário para a cidade de São Paulo e apareceu como verbete no Dicionário de Astronomia e Astrofísica do Prof. Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, em 1992. Entre suas muitas contribuições para a astronomia no país, contribuiu com o Anuário Astronômico do Instituto Astronômico e Geofísico da USP durante 21 anos e escreveu centenas de textos de divulgação e ensino de astronomia publicados pelo Planetário de São Paulo e por diversos jornais, revistas e outros periódicos. Varella faleceu em agosto de 2020.

Fonte: Senado 

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