Um Clássico Filme de Terror | 10 easter eggs e referências que você não notou

Um Clássico Filme de Terror | 10 easter eggs e referências que você não notou

Por Laísa Trojaike | Editado por Jones Oliveira | 20 de Julho de 2021 às 21h30
Netflix

Quando a Netflix divulgou o terror italiano Um Clássico Filme de Terror, ela foi sincera e, realmente, a sensação é de que você já viu esse filme antes. Não importa se você pegou ou não as referências do trailer, o desafio é o mesmo: encontrar os símbolos e ligar os pontos. Ao invés de simplesmente tentar se passar por original, o filme deixa o pastiche sair de controle e insere diversos easter eggs e referências para os espectadores brincarem com sua própria biblioteca de conhecimentos.

Abaixo, listamos algumas 10 das principais conexões realizadas pelos diretor e roteiristas Roberto De Feo e Paolo Strippoli (que assinam o roteiro ao lado de Lucio Besana), mas muitas outras podem ser encontradas, referências que extrapolam o terror e misturam gêneros. Assim, a Netflix tem criado novamente uma forma de conexão entre o público e os assinantes da plataforma parecem cada vez mais conectados através de elementos que se repetem, mas sempre significam alguma coisa diferente, porque os contextos são completamente distintos.

Atenção, este texto está repleto de spoilers!

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10. Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio

A primeira imagem que vemos em Um Clássico Filme de Terror é justamente o cervo na parede (Imagem: Captura de Tela/Netflix)

Esta talvez seja a maior referência de Um Clássico Filme de Terror. O cervo na parede é um discreto spoiler indicativo dos possíveis rumos do filme justamente por ser um dos grandes símbolos de Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio, também amplamente conhecido pelo título original Evil Dead. Este é, provavelmente, o easter egg mais óbvio do filme, sobretudo depois que Fabrizio (Francesco Russo) cita diretamente o diretor Sam Raimi, até hoje um dos mais cultuados diretores do gênero.

Enquanto a versão italiana é inanimada, o cervo de Evil Dead é uma das coisas inanimadas que acabam se manifestando no que se tornou uma das sequências mais icônicas do filme.

A produção da Netflix mistura, na parte macroscópica do roteiro, pelo menos três grandes filmes. O primeiro deles é justamente Evil Dead, por reciclar a fórmula que o clássico de 1981 lançou: a cabana na floresta (geralmente com um grupo de cinco pessoas que fazem tudo o que o espectador jura que não faria). Este também é um dos filmes que tira o slasher das mãos de um assassino com uma faca de açougueiro e coloca em entidades aparentemente incombatíveis. No meio disso tudo, um legado também para o body horror, gênero cujo entretenimento está nas imagens gráficas de violação do corpo humano em situações aterrorizantes.

9. Catolicismo

São Francisco de Assis mostrando suas chagas em Um Clássico Filme de Terror (Imagem: Captura de Tela/Netflix)

Não podemos esquecer que Um Clássico Filme de Terror é um filme italiano, ou seja, é a criação de um artista que vive em uma cultura profundamente influenciada pelo imaginário da Igreja Católica e, pela proximidade com o Vaticano, essa atmosfera é ainda mais intensa. Se é assim hoje, imagine na Idade Média ou na Idade Moderna, quando a instituição se firmava ao longo de séculos. Antes dos slashers, antes de todos os filmes de terror, existiu a literatura de terror. E, antes de tudo isso, sempre existiram os mitos. Nas esferas em que não havia liberdade de pensamento, as imagens bíblicas serviam como as obras de terror da sua época.

Os diretores Roberto De Feo e Paolo Strippoli trabalham muito bem essa questão e vemos essa critica ao catolicismo tranbordar de forma sutil, sobretudo em pinturas, como a das chagas de São Francis de Assis (acima) que antecipam as mãos pregadas de Elisa (Matilda Anna Ingrid Lutz), então sentada em um café, ainda no início do filme e alheia ao seu futuro.

Imagem: Captura de Tela/Netflix

Nesta outra imagem, também podemos ver como Um Clássico Filme de Terror ressaltou esse terror religioso ao trazer os supostamente lendários Osso, Mastrosso e Carcagnosso em pinturas que lembram as de Giotto di Bondone, Hieronymus Bosch e outros. Assim, o filme insere a igreja e o renascentismo nesse culto bizarro ligado à máfia, o que de forma alguma é uma conexão non sense. Para além da criação de Mario Puzo, autor de O Poderoso Chefão e Os Bórgias, as relações entre a máfia e a igreja católica sempre foram um escândalo real da igreja.

7. Midsommar: O Mal Não Espera a Noite

Imagem: Captura de Tela/Netflix
Midsommar (Imagem: Reprodução/A24)

Há, principalmente na segunda metade do filme, diversas referências à Midsommar, que já é um clássico contemporâneo, com sua estética aparecendo em diversos filmes, geralmente sob o signo das flores coloridas que renderam um dos figurinos de cinema que entraram para a história da moda como um todo. O que Um Clássico Filme de Terror faz, no entanto, é trazer os signos para um contexto italiano, onde eles começam a ser ressignificados.

Enquanto Midsommar traz uma seita com ares de cultura exótica, Um Clássico Filme de Terror insere a máfia italiana como metáfora e, apesar dos planos serem literalmente copiados do outro filme, os significados são completamente diferentes, porque as culturas são diferentes. Enquanto o garoto com uma deficiência física é um profeta em Midsommar, este mesmo símbolo se torna uma metáfora trash sobre a desfiguração da sociedade através da hipocrisia da máfia, como nos explica o vídeo oficial da Netflix Italia, infelizmente sem legendas.

6. O Segredo da Cabana

Imagem: Captura de Tela/Netflix

Junto com Evil Dead, este é o segundo pilar do roteiro de Um Clássico Filme de Terror e quem deu valor para o close no olho cristalino do cervo, antecipou o plot twist de que se tratava de uma câmera, gravando um filme que é o snuff de um sacrifício que faz parte de algo muito maior. Inclusive, este é outra sutil referência, já que os filmes snuff são aqueles em que as mortes são reais e não uma ilusão da ficção, algo que o diretor Ruggero Deodato precisou provar não ter feito nas gravações de Holocausto Canibal (1980), outro clássico italiano do terror.

O filme da Netflix também pega a ideia da viagem no trailer, que pode ser um spoiler ainda mais antecipado para quem lembra os detalhes do filme estrelado por Chris Hemsworth. Em O Segredo da Cabana, o clichê dos filmes de terror é um ritual que se repete e, com isso, o filme consegue fazer referências às diferentes fórmulas que diferentes culturas encontram para “salvar o mundo” através da arte. Tudo de uma forma bem trash, claro, para garantir um pouco de risadas depois dos primeiros sustos.

5. Jogos Mortais

Imagem: Reprodução/Netflix

Com as misturas das misturas dos pastiches, é possível cruzar referências. Aqui, a tortura de Jogos Mortais, um novo tipo de slasher em si mesmo, encontra a tortura dos registros históricos, que ligam a Igreja Católica às mortes de diversas pessoas inocentes, como os desavisados protagonistas, que sequer sabem porque estão morrendo.

4. Faroeste Espaguete

Imagem: Captura de Tela/Netflix

Spaghetti western, que, em português, também é chamado de Faroeste Espaguete, Faroeste Macarrônico ou Bang-bang à italiana, é o termo que se refere aos filmes do gênero produzidos na Itália entre os anos 1960 e 1970, mesma época em que cresciam as raízes do giallo no país. Uma pequena, mas significativa, homenagem é feita ao movimento através da trilha sonora faroesteira que toca quando o grupo encontra o cemitério de carros e parece que está entrando em uma cidade deserta nos moldes dos filmes de zumbi.

Se Um Clássico Filme de Terror ganhar sequências, a ideia de máfia inserida no filme e expandida no featurette italiano (que liga três máfias às figuras de Osso, Mastrosso e Carcagnosso) pode trazer um pastiche que brinque ainda mais com o faroeste espaguete, que está sendo revisitado pela série O Mandaloriano do Disney+ e pela futura produção "Star Wars" de Zack Snyder.

3. O Homem de Palha 

Imagem: Reprodução/Netflix

No meio do monte de referências que têm surgido nas produções pop, alguns ícones, como o sempre citado Pânico, se repetem. Outros clássicos estão passando um pouco despercebidos pelas reciclagens, mostrando que existem infinitas obras para serem "copiadas". Um dos clássicos meio esquecidos é justamente O Homem de Palha, de 1973, que a cada ano se distancia dos espectadores contemporâneos e até agora não ganhou um remake interessante, embora Midsommar tenha reciclado o tema "seita exótica". As referências a homem de palha estão no mistério que envolve o culto e no casulo de palha criado para o sacrifício de fogo, que também lembra o filme de Ari Aster.

2. Bacurau

Imagem: Captura de Tela/Netflix

Qual foi a última vez que você assistiu a um filme e viu uma referência a um filme brasileiro? Bacurau teve uma repercussão tão grande que se tornou ícone internacional e o impacto do tiro que Damiano (Carlos Francisco) dá na cara do gringo invasor é reproduzido de uma forma um pouco mais sutil pela direção e pela montagem de Um Clássico Filme de Terror, mas uma série de fatores reunidos contribuem para o impacto.

Enquanto Bacurau pega os intrusos completamente de surpresa e choca o espectador desavisado com o gore de uma cabeça aberta, o filme da Netflix aposta no clichê de mostrar a arma com pouca profundidade de campo, de modo que nosso olhar é conduzido até o momento em que, supostamente, veremos a ponta do cano em foco. Nesse ponto, geralmente há um corte para algum dos personagens, que inicia um diálogo cuja tensão se volta para a arma, que está prestes a atirar em alguém. Aqui, o impacto é causado pelo corte que não chega ao foco "final" que esperávamos, disparando um tiro fatal em uma criança, outro clichê quebrado com sucesso.

1. Pânico

Imagem: Captura de Tela/Netflix

O assassino é o diretor e o nerd dos filmes de terror, ao mesmo tempo, misturando mais de um filme Pânico em um único personagem. Eis o terceiro pilar do roteiro e, assim, o filme brinca com toda forma de metalinguagem trabalhada pela icônica franquia, criando aquele humor estilo Deadpool que, no final do filme, consegue ganhar bons ares de tensão e terror. É tudo uma mistura de tudo o tempo todo, um movimento de pastiche que, antes, era muito mais entendido como uma "originalidade" de Quentin Tarantino, mas que, na verdade, têm raiz nos movimentos pop, punk e hip-hop que surgem nos anos 1970 e 1980.

Está tudo misturado e você já viu tudo isso antes. Você já viu e vai ver de novo. E vai ser incrível. É a morte do spoiler e a era do ouro das referências. A teia de conexões possíveis ficam tão fora de controle, que Um Clássico Filme de Terror tem mais coisas em comum com Duda Beat, Leonardo Da Vinci, Andy Warhol, Pussy Riot, Kool Herc do que você pode imaginar — o filme faz suas próprias teias de referências e nos convoca a fazer as nossas. Um excelente exercício, não?

Um Clássico Filme de Terror está disponível no catálogo da Netflix para todos os assinantes.

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