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Por que O Exorcista merece uma nova sequência?

Por| Editado por Jones Oliveira | 10 de Agosto de 2021 às 22h30

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Divulgação/Warner Bros Pictures
Divulgação/Warner Bros Pictures

Há não muito tempo, a resposta para a pegunta “Qual é o melhor filme de terror?” era bastante óbvia: O Exorcista. Embora algumas listas possam apontar títulos como O Iluminado ou O Bebê de Rosemary, este é o mais comumente aceito como filme de terror mais popular, famoso, amaldiçoado e aterrorizante de todos os tempos. É importante notar, no entanto, que tudo muda e, para um público acostumado a ver sangue e violência, pouco a pouco o clássico começa a parecer mais inofensivo.

Lá nos primórdios do cinema, podíamos imaginar como O Solar do Diabo (1896), de Georges Méliès, poderia soar assustador. Para nós, no entanto, o filme parece cômico pelo artesanato da montagem rudimentar e pela pantomima que dominava as atuações da época. Em 1973, apesar de o mundo vivenciar momentos como a Guerra do Vietnã, O Exorcista foi um filme extremamente chocante.

Apenas 13 anos antes, em 1960, Alfred Hitchcock havia lançado Psicose em preto e branco para não chocar a audiência com o vermelho do sangue. Quando O Exorcista chegou, o american way of life ainda estava em alta e a bolha social do estadunidense suburbano ainda não tinha sido invadida pelas desgraças do mundo, o que de certa forma também é mostrado no filme como um sintoma da época: o mundo da atriz Chris MacNeil desaba quando começa a notar que sua filha está com atitudes completamente fora do normal. O que fazer? A quem recorrer? Ela vai descobrir que o dinheiro não pode resolver tudo.

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Apesar do contexto histórico e social, é a questão religiosa que chama a atenção em O Exorcista e, até hoje, soa como bastante herética a cena em que a Regan possuída se flagela sexualmente com um crucifixo. O filme de William Friedkin foi recebido como uma afronta por muitos religiosos e a temática ajudou a moldar o imaginário de várias gerações, com sintomas que foram vistos com certa intensidade também no Brasil. Duvida?

Em 1974, o nosso icônico padre cético chegou a surfar na moda e apareceu na capa da Revista Manchete para dizer que nada daquilo "ecziste", como nos indica a chamada: “Praticando a levitação: o Padre Quevedo explica os fenômenos do filme O Exorcista". Sim, Quevedo foi para o terror da época mais ou menos como Mr. M foi para a mágica, mas mesmo sabendo que dá para levitar pessoas com um truque, O Exorcista continuou assustando.

Precisamos lembrar também que, nos anos 1970, as TVs não eram tão populares como hoje, e mesmo os cinemas não tinham tanto alcance. Muito de O Exorcista foi construído pelo boca-a-boca e, cada vez mais, o filme se parecia com a fita de O Chamado, com pessoas chegando a relatar que foram amaldiçoadas pelo filme. Embora haja sempre quem leve essas lendas urbanas a sério, essas histórias funcionam muito mais para criar memórias afetivas.

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Mas por que um novo?

Não temos como saber o que motivou a produção a sentir que estava na hora de mexer no vespeiro, mas a decisão já foi tomada e, ao invés de rejeitar a evolução dos tempos, podemos pensar quais pontos de O Exorcista já não fazem mais sentido para a sociedade contemporânea. Aqui no Brasil, a mística do filme chegou àqueles que eram curiosos o suficiente para esperar os horários “mais restritos” da TV aberta: os anos 1990 foram selvagens. Mas não mais selvagens que agora.

Enquanto muitos continuam achando O Exorcista muito radical e traumatizante, o jovem com acesso ilimitado à internet está vendo coisas muito mais bizarras: o que é aquela make da Regan diante dos fatalities de Mortal Kombat, das armadilhas de Jogos Mortais ou mesmo diante do tão criticado remake A Morte do Demônio?

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Gostemos ou não, O Exorcista é uma obra histórica, praticamente peça de museu, e só faz parte do universo da cultura pop pelas constantes referências, que mantiveram o filme vivo por mais de 50 anos conforme personagens viravam a cabeça 180º, vomitavam verde ou levitavam da cama, para citar apenas algumas das sequências mais reproduzidas do clássico.

Hoje é mais fácil notarmos como detalhes bastante pequenos de O Exorcista se tornaram as marcas da direção de outros clássicos como Halloween: A Noite do Terror (John Carpenter) e Pânico (Wes Craven), mostrando que o legado maior do título não é exatamente o body horror, mas a construção do terror e da atmosfera de medo. Prestes a receber seu retcon, o medalhão se torna cada vez mais uma obra cultuada por sua importância histórica, enquanto vê seu poder de causar pesadelos se esvanecer.

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Isso não significa, no entanto, que a história não tenha algo para nos dizer. Ao revisitar O Exorcista, é possível ver espaço para muitas atualizações. Se tivéssemos um remake, Regan provavelmente teria uma personalidade completamente diferente, haveria muito mais sangue, o body horror seria bem mais chocante e, muito provavelmente, teríamos uma discussão muito mais séria sobre o papel da Igreja, que hoje enfrenta uma descrença muito maior do que nos anos 1970.

Isso significa que O Exorcista não assusta mais? Você vai precisar assistir para saber. E é justamente isso que uma nova sequência nos convida a fazer.

2023

O legado de Friedkin não pode nem deve ser apagado com facilidade, mas é nítido que O Exorcista já não dialoga muito bem com as novas gerações. O anúncio de uma nova sequência corrige a vergonha-alheia das antigas empreitadas, que também sofreram nas mãos de uma indústria sedenta por dinheiro. Quando William Peter Blatty adaptou seu outro romance, Legion, para o cinema, a história nada tinha a ver com o filme do Pazuzu, mas o estúdio achou de bom-tom chamar a produção de 1990 de O Exorcista 3.

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Com o tempo, muitas outras produções usaram o sucesso do primeiro filme como muleta e, como resultado, conseguiram ajudar a desgastar o subgênero de filmes de exorcismo com trabalhos que nunca chegaram perto de provar um pouquinho da fama de O Exorcista. Há, também, uma sensação constante de que todos os filmes de exorcismo são assombrados pelo trabalho de Friedkin, como se, em alguma medida, fosse possível fazer algo tão bom quanto ou melhor.

É preciso desapegar. Mais do que nunca as produtoras têm revisitado seus clássicos, propondo novas perspectivas e provando que os clichês, quando readaptados, podem perder o gosto amargo, porque apesar de vermos a fórmula se repetir, é a mudança de tudo, de nós e do mundo, que nos permite ver o de sempre de uma forma completamente nova. O que será que o trabalho de David Gordon Green reserva para os antigos e novos fãs?

O Exorcista pode ser assistido no NOW e está disponível para aluguel ou compra no iTunes e na Play Store. No Looke, o título pode ser apenas alugado e, em breve, a HBO Max deve lançar esse clássico Warner Bros em seu catálogo.