O que é real e o que é ficção em Greyhound?

Por Beatriz Vaccari | 22 de Julho de 2020 às 11h02
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A figura de Tom Hanks em produções de guerra já é algo que soa familiar para o público: o ator deu vida ao Capitão Miller no longa dirigido por Steven Spielberg, O Resgate do Soldado Ryan (1998), performance que chegou a render uma indicação ao Oscar no ano seguinte; além do mais, a amizade com o diretor também resultou em uma das mais premiadas minisséries do Emmy, Band of Brothers (2001), e na sequência The Pacific (2010), ambas dirigidas pela dupla e que podem ser assistidas pelo serviço de streaming da HBO.

Recentemente, o Apple TV+ disponibilizou Greyhound no catálogo com o selo de conteúdo original do serviço de streaming. O longa, a princípio, estrearia nos cinemas brasileiros em junho, mas por conta da pandemia do novo coronavírus, acabou perdendo a data de lançamento e sendo vendido pela Sony Pictures para a plataforma de streaming da Apple.

Com o público ansioso para ver Hanks mais uma vez em uma história ambientada na Segunda Guerra Mundial, o filme chegou a liderar a procura em sites piratas, além de ser considerado um dos principais lançamentos no streaming.

Greyhound é uma adaptação do romance de 1955 escrito por C.S. Forester, The Good Shepherd (O Bom Pastor, em inglês), com roteiro assinado por Tom Hanks, que também interpreta o protagonista Ernest Krause, um inexperiente capitão da Marinha dos Estados Unidos que recebe a difícil missão de liderar um comboio com 37 navios aliados durante a Batalha do Atlântico, no inverno de 1942. De acordo com o ator, o livro foi um presente de Nora Ephron, diretora que chegou a trabalhar com ele nos filmes Sintonia de Amor (1993), Mensagem para Você (1998) e no último trabalho dela antes de vir a falecer, Lucky Guy, peça que estreou Hanks na Broadway.

Como toda adaptação baseada tanto na Primeira quanto na Segunda Guerra Mundial, existem alguns detalhes que foram criados para dar mais emoção à história ou ajudar o espectador a entender o contexto em que ela se aplica. Com Greyhound, não é diferente. Pensando nisso, o Canaltech analisou o que é fato e o que é ficção no filme para você. Confira a lista:

Greyhound está disponível no catálogo do Apple TV+ (Imagem: Sony Pictures)

1. Capitão Ernest

O personagem vivido por Tom Hanks não é baseado em um verdadeiro comandante. Na verdade, Ernest Krause é um personagem fictício baseado no comandante George Krause do livro. O primeiro nome do personagem foi alterado para o filme.

2. Duração da batalha

Embora no filme fique bem claro que o combate entre o comboio norte-americano e os submarinos alemães tenha durado cinco dias, a Batalha do Atlântico durou quase toda a guerra, começando em 3 de setembro de 1939 e terminando apenas em 8 de maio de 1945. É a batalha mais longa e contínua da história do confronto.

3. O Greyhound realmente existiu?

Não. O USS Keeling, navio apresentado no filme como um destróier naval da Marinha (que leva o codinome Greyhound) é fictício. Uma grande parte do filme foi gravada a bordo do USS Kidd, um verdadeiro navio da Marinha norte-americana pertencente à Classe Fletcher. Ele foi o primeiro a ser batizado com o nome do contra-almirante Isaac C. Kidd, que perdeu a vida na ponte do USS Arizona durante o ataque japonês a Pearl Harbor em 1941.

Atualmente, o USS Kidd é uma atração turística de Baton Rouge, na Louisiana. Para o filme, ele foi escolhido justamente por ser um dos poucos sobreviventes da Segunda Guerra Mundial que ainda mantém suas configurações de batalha. Além disso, o USS Kidd não foi utilizado na Batalha do Atlântico: seu primeiro lançamento foi no fim de fevereiro de 1943, meses após os eventos retratados em Greyhound.

Foto histórica do USS Kidd, que foi utilizado em Greyhound (Imagem: Wikipedia)

4. Ameaças no rádio

No filme, os nazistas ameaçam a equipe de Ernest Krause interferindo na frequência de transmissão dos alto-falantes instalados em todo o navio. Isso foi criado para dar mais emoção à adaptação e nunca aconteceu na vida real. Os submarinos alemães raramente conseguiam ouvir as mensagens que a equipe norte-americana trocava entre si após tropeçarem na frequência de transmissão dos navios do comboio, porém jamais conseguiram invadir sua comunicação.

5. A quase colisão de embarcações

Em uma das cenas de Greyhound, o espectador se vê segurando a respiração com uma quase colisão entre o navio comandado pelo Capitão Krause e um dos submarinos da Alemanha nazista. Embora isso fosse raro de acontecer em alto mar, os destróieres quase se chocaram na vida real. Esse incidente também foi retratado no livro que serviu de inspiração para o filme e foi inspirado no ocorrido de 1º de novembro de 1943 entre o USS Borie e o submarino U-boat U-405, numa tentativa do navio norte-americano atropelar o inimigo.

A colisão frontal acabou não ocorrendo (assim como mostrada no filme), mas uma onda fez o arco do USS Borie cair em cima do submarino e acabar prendendo-o. Pela aproximação do inimigo com as armas norte-americanas, os membros da tripulação abriram fogo contra o U-boat U-405, eliminando todo o exército nazista do submarino. Porém, a tripulação do USS Borie acabou morrendo no dia seguinte, quando o navio afundou devido aos danos do confronto.

Navio e submarino próximos um do outro no filme (Imagem: Captura de tela/Canaltech)

6. Patrulhas contínuas

No filme, fica claro como a equipe de navios dos Estados Unidos raramente dormia ou comia em alto mar. De acordo com Frank Blazich, o principal curador da história militar do Smithsonian's National Museum of American History, a Batalha do Atlântico foi um evento que "exigiu uma quantidade enorme de coordenação, novas tecnologias e armas". O filme retrata isso muito bem mostrando ao espectador as horas de "plantão" que a equipe fazia para não perder nenhum submarino alemão passando despercebido e os funcionários da cozinha do navio comentando mais de uma vez como o Capitão Krause está há horas sem comer.

A equipe cumpria patrulhas longas e contínuas no ambiente frio e úmido (Imagem: Sony Pictures)

7. Frio e cansaço

Complementando um pouco o tópico anterior, a Segunda Guerra Mundial no mar era desgastante e, se retratada fielmente, se tornaria entediante ao espectador. Isso porque a probabilidade de uma equipe precisar patrulhar durante um longo tempo sem ter um combate sequer era mais comum do que parece. No filme, os personagens mostram várias vezes como Greyhound está congelante e como era necessário levar agasalhos muito pesados para o navio. Além disso, a equipe raramente comia alimentos quentes, como também é retratado na adaptação.

O cansaço também é muito bem retratado no filme principalmente na cena final, após longas e contínuas patrulhas no frio, em ambiente úmido e exposto ao interminável jato de sal do Atlântico Norte. Na cena, vemos os pés do Capitão Krause sangrando por conta de seus sapatos, ficar de pé e andar dentro do navio por horas a fio.

Greyhound está disponível no Apple TV+.

*Com informações do History vs. Hollywood e Screenrant

Fonte: History vs. Hollywood, Screenrant

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