Crítica | Greyhound seria outro filme se visto no cinema

Por Beatriz Vaccari | 15 de Julho de 2020 às 19h00
Sony Pictures

Devido ao fácil contágio da COVID-19, a principal recomendação da OMS é simples: ficar em casa e evitar aglomerações. Por conta disso, o mundo se viu num cenário que a maioria das pessoas jamais imaginaria viver: cumprindo quarentena há mais de 100 dias, parte do comércio fechado, eventos sendo cancelados ou adiados e, para a tristeza de muitos, as salas de cinema com as portas trancadas e ainda sem previsão de reabertura.

Por conta disso, acreditava-se que muitos filmes que tinham previsão de estrear este ano não esperariam o fim da pandemia e iriam direto para as plataformas digitais de vídeo sob demanda. Esse movimento resultou na adaptação de uma das mais tradicionais regras do Oscar, permitindo que longas que estrearam diretamente no streaming em 2020 possam concorrer à estatueta na cerimônia de 2021.

Quem entrou nessa roda, por exemplo, foi a animação da Warner Bros, Scooby! O Filme, assim como Trolls World Tour, da Universal. No live-action, Artemis Fowl: O Mundo Secreto também pulou a exibição nos cinemas e foi disponibilizado diretamente no Disney+ e, na última semana, o Apple TV+ recebeu exclusivamente o longa de guerra Greyhound.

Antes de se tornar um título exclusivo Apple TV+, Greyhound seria lançado nos cinemas em junho deste ano (Imagem: Sony Pictures)

O filme é uma adaptação do romance escrito por C.S. Forester, The Good Shepherd, com roteiro assinado por Tom Hanks, que também dá vida ao protagonista Ernest Krause, um inexperiente capitão da Marinha norte-americana que recebe a difícil missão de liderar um comboio com 37 navios aliados pelo Atlântico Norte, que está lotado de submarinos nazistas.

Por mais que o público possa criar expectativas, uma vez que o papel de Hanks como comandante lembra seus trabalhos nos filmes Sully: O Herói do Rio Hudson (2016) e Capitão Phillips (2013), isso sem falar em sua experiência em O Resgate do Soldado Ryan (1998), o longa acaba decepcionando justamente pelo fato de não ter tido uma experiência nas telonas, uma vez que algumas das cenas não são capazes de dar ao espectador a mesma emoção que poderiam ser vividas numa sala de cinema.

Atenção! A partir daqui o texto pode conter spoilers!

Tom Hanks vive o Capitão da Marina dos EUA, Ernest Krause (Imagem: Sony Pictures)

Apesar de já esperado, Tom Hanks entrega um bom trabalho na atuação, por mais que o roteiro não o deixe explorar muito seu personagem e boa parte de suas emoções fiquem difíceis de serem interpretadas. Há cenas em que o espectador consegue não só compreender, como também se envolver com os sentimentos do comandante. Um bom exemplo disso é no início do filme, quando sua namorada rejeita seu pedido de casamento devido ao cenário de guerra mundial e nas cenas em que é mostrada a amizade que Ernest Krause tem com o chefe de cozinha do navio, George Cleveland. Infelizmente, esses poucos momentos acabam sendo superficiais na tentativa de mostrar a personalidade do capitão.

Outra coisa que acaba frustrando não só os fãs do ator, mas também os amantes de filmes baseados na Segunda Guerra Mundial é como os fatos são jogados na tela com esperança do público entender. Há, sim, momentos em que a tradicional tensão e expectativa tomam conta do filme, como as cenas de combate e trabalho em equipe, mas os acontecimentos seguintes acabam deixando a história tão confusa que dificultam a interpretação de como aquilo afetou o protagonista, que mais tarde aparece frustrado e esgotado tanto físico quanto mentalmente com a tentativa de ajudar seu país e fazer um bom trabalho liderando os navios.

Isso pode se dar ao fato de o filme ser uma rara exceção no nicho de produções sobre a Segunda Guerra Mundial. Com apenas 91 minutos de duração, Greyhound descarta firulas e enrolações para ir direto ao ponto e mostrar a equipe logo no início já se preparando para uma de suas primeiras batalhas contra um submarino nazista. Pela correria do filme, falta ao espectador um mínimo de contextualização, o que poderia ser oferecido se a história se alongasse por pelo menos mais uma hora.

Outro fator que pode mais ter atrapalhado do que ajudado na produção foi a escolha do diretor Aaron Schneider. Ela já vinha sendo questionada desde o anúncio do filme, sobretudo porque este é apenas o segundo trabalho dele — e com a responsabilidade de comandar um ator que já possui mais de 60 títulos em sua filmografia.

Leia mais: O que é real e o que é ficção em Greyhound?

Além de estrelar o longa, o ator também assinou o roteiro (Imagem: Sony Pictures)

Apesar disso, o diretor conseguiu trazer alguns detalhes interessantes. Por exemplo: nas transições e textos que aparecem em várias cenas do filme, é utilizada uma tipografia que lembra bastante a das máquinas de escrever, além do jeito como as palavras surgem na tela, como se estivessem sendo digitadas. Por mais que isso possa ser indiferente e até passe despercebido para algumas pessoas, reflete bem não só a época do filme, como também uma das grandes paixões de Tom Hanks, que também atua como roteirista do longa. Colecionador de máquinas de escrever, ele já expressou todo o amor por esse hobbie no documentário California Typewriter (2016) e em seu livro Tipos Incomuns, e decidiu trazer esse aspecto da sua vida para este que é seu terceiro filme como roteirista.

No fim das contas, Greyhound não é um filme dispensável e vale sim a pena ser assistido, principalmente pelos amantes de histórias de guerra. Não é a toa que sua classificação no Rotten Tomatoes acumulava 74% de aprovação antes da estreia no Apple TV+ e até o momento dessa publicação havia alcançado 80% no site. Mas uma coisa é fato: a experiência seria totalmente diferente se ele pudesse ser assistido em uma sala de cinema.

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