Entenda o cinema a fundo: Parte 3

Por Sihan Felix | 08 de Junho de 2020 às 10h00
Reprodução

Cá estamos para a terceira e última matéria de uma exposição resumida sobre o cinema e suas partes. A ideia é que essas explanações possam, de algum modo, provocar reflexões e, de repente, fazer o cinema ser visto de maneira não-exata, sem qualquer verdade absoluta. No final das contas, o conhecimento de linguagem do cinema – que supostamente tem um crítico, por exemplo –, é, como dito na Parte 1, um complemento que não altera e talvez nem deva alterar o gosto pessoal.

Isso porque a crítica de cinema é, na junção de tudo, nada mais do que a racionalização do gosto. Porque gosto se discute, sim, e o crítico é um espectador-que-escreve, nada mais. Claro que, quanto mais conhecimento sobre cinema o profissional detiver, com mais propriedade poderá argumentar sobre sua experiência frente a um filme. Mas a verdade é que, se o crítico é um espectador-que-escreve, todos nós somos críticos ou, pelo menos, temos potencial para cruzar a linha imaginária que separa o cinema como mero entretenimento do cinema como objeto artístico.

E, nesse ponto, já vale a entrada no único tópico dessa nossa última matéria da série.

O caminho sem volta do cinema

1. Ciência: o início de tudo, a invenção das imagens em movimento – com Auguste e Louis Lumière, Thomas Edinson, Louis Le Prince, William Kennedy Dickson etc. no final do século XIX.

2. Entretenimento: a utilização prática da ciência com fins públicos não-científicos e com a criatividade norteando o todo – logo na sequência, ainda no final do século XIX, com, principalmente, Alice Guy-Blaché e Georges Méliès.

3. Arte: logo que o efeito além-entretenimento é percebido, após passar pela formação de uma linguagem e iniciar um desenvolvimento provavelmente permanente dela. D. W. Griffith é o maior e mais reconhecido expoente, mas seu operador de câmera, Billy Bitzer, merece créditos, além da atriz Lillian Gish.

Hoje, então, independente de como se pensa o cinema, ele é arte por si só. Pode ter raízes científicas no que diz respeito à invenção de novos equipamentos, a novas formas de captação e de experienciar uma ferramentalização das partes, como alguns projetos de James Cameron (como Avatar, de 2009); ou pode buscar uma nova interação com elementos já muito familiares, como Ang Lee e sua capacidade de lidar tão bem com os efeitos visuais (como em As Aventuras de Pi, de 2012) – inserindo-os como necessários ao filme e não como supérfluos – ou de se arriscar em uma nova experiência, como no mais recente Projeto Gemini, de 2019. Não deixa de ser arte.

Por outro lado, o cinema também pode querer ser somente entretenimento ou, ao menos, direcionar-se para isso, como muito dos filmes de super-heróis, algumas das comédias produzidas e protagonizadas por Adam Sandler e tantos mais. Não deixa de ser arte. Isso porque, no final de tudo, por ter chegado ao status de arte, o cinema pode ser o que quiser: pode ser voltado para a ciência, pode querer ser entretenimento do mais puro e, mesmo assim, vai continuar sendo arte.

Nesse sentido específico, não adianta muito debater o que é mais ou menos arte. Cinderela Baiana (de Conrado Sanchez, 1998) e The Room (de Tommy Wiseau, 2003) são arte assim como 2001: Uma Odisseia no Espaço (de Stanley Kubrick, 1968) e Stalker (de Andrei Tarkovsky , 1979) também o são. A questão passa a ser qualitativa e isso, por sua vez, é – novamente – subjetivo.

Pessoalmente, especialmente como professor, penso que o pior caminho para uma compreensão e vinculação definitiva do cinema enquanto arte por parte de todos nós é a comparação que menospreza uma obra em detrimento de outra. Por mais que queiramos que exista um direcionamento qualitativo, sempre estaremos mais propensos ao mais fácil, além de a questão qualitativa não encontrar fundamentos exatos. Depois de um dia de trabalho pesado, de solucionar transtornos profissionais e pessoais e de encher a cabeça com novos problemas, dificilmente estaremos dispostos a passar pela experiência de assistir ao O Tango de Satã (de Béla Tarr, 1994) ou mesmo por um documentário de Eduardo Coutinho.

A questão é: até que ponto estamos dispostos a baixar a guarda e buscar a compreensão de que está tudo bem assistir a um filme que foi realizado como mero entretenimento ou que parece pouco se importar com todos os elementos que vimos nessa sequência de três matérias? Ou, do outro lado da mesma moeda: por que não dar chance para que um filme no qual aparentemente (e à primeira vista) pouco ou nada acontece possa dizer uma infinidade de coisas por meio desses elementos, de sua linguagem? Descobrir esses caminhos pode nos fazer, no fim de tudo, sair com total vantagem: estar aberto a todos os universos possíveis.

Como escrevi na primeira matéria desta série: "Quem se posiciona como detentor da verdade sobre o cinema ou sobre qualquer filme talvez esteja sendo somente arrogante. Ou pior: está limitando o potencial da própria arte de ser múltipla e atingir cada pessoa de maneiras distintas". Mas, se conseguimos compreender e ver o melhor de todos os lados do cinema, acabamos por gostar de muito mais filmes do que quem se limita e finda limitando a própria arte – limitando-se e sendo refém de si mesmo... refém do gosto, que é subjetivo e carente de razão.

E não é que tenhamos que gostar de tudo ou que seja melhor que isso aconteça. O objetivo é que possamos pensar o cinema; argumentar com nosso conhecimento; sabermos que conhecimento se adquire e que existe a possibilidade de deixarmos de gostar de algo quando passamos a conhecê-lo melhor ou que comecemos a gostar daquilo que não gostávamos. Quanto mais aprendemos sobre arte, mais perdemos a noção (que nem existe) de razão objetiva, e isso é fundamental.

Foi um prazer escrever, mesmo que bem resumidamente, essa série de três matérias. É tudo subjetivo, mas, ao mesmo tempo, existem muitas considerações que podem nos dar um norte, um caminho para pensar. O ideal é que cada um de nós alcance a emancipação intelectual, que consigamos pensar e tirar as nossas conclusões sobre arte e, especificamente, sobre cinema sem que exista a necessidade do atestado de, por exemplo, um crítico (como eu). A crítica, para mim, não é uma bula ou uma indicação; não tem a função de ser taxativa em dizer o que é bom ou ruim — e quando diz, jamais é acreditando em uma verdade absoluta. Em mais uma síntese, mas desta vez de André Bazin, “a função do crítico não é trazer em uma bandeja de prata uma verdade que não existe, mas prolongar o máximo possível, na inteligência e na sensibilidade dos que o leem, o impacto da obra de arte”.

É isso. Continuarei por aqui pelo Canaltech (como estou há mais de dois anos) escrevendo minhas críticas (o que faço há 12 anos), matérias e listas, tentando prolongar a experiência de quem assiste aos filmes e sempre à disposição para responder comentários com dúvidas, broncas e o que quer que seja – algo que também posso fazer em minhas redes sociais (Instagram, Facebook e Twitter).

Abraços para todos! E bons e ruins filmes para nós!

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