Crítica | Warrior Nun demora para empolgar, mas faz promessas de grandes eventos

Por Laísa Trojaike | 11 de Julho de 2020 às 08h30
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O bom das séries, se comparadas aos filmes, é que elas possuem mais tempo para desenvolver os personagens, contar a história com calma e até inserir momentos mais prosaicos, sem se preocupar em chegar ao ápice da trama em apenas alguns minutos. Por outro lado, é preciso que o roteiro seja realmente muito bom para prender os espectadores pelas horas que a temporada exige.

Warrior Nun (disponível na Netflix) entende o tempo da série, mas não tem um roteiro tão bem desenvolvido que nos faça despertar uma paixão instantânea pela série. É ousada a decisão de optar por mostrar a indecisão da personagem central, Ava (Alba Baptista), dando tempo para ela ir e vir, pensar na sua própria condição. Embora isso faça com que os personagens cresçam ao longo dos episódios, adicionando camadas às suas personalidades, o tempo que isso toma pode ser demais para a paciência de alguns espectadores.

O roteiro parece excitante também ao tratar o catolicismo como uma mitologia, da mesma forma que vemos personagens como Thor e Loki, por exemplo: divindades transformadas em personagens de ação e aventura, reduzidas a puro entretenimento, sem um mínimo de devoção. Há muito espaço para isso a partir de um livro como a Bíblia, com o adicional de que é uma religião muito mais próxima da nossa cultura e, portanto, somos capazes de identificar os detalhes com mais facilidade. O respeito é importante, dado o número de fiéis da religião, mas existem formas de demonstrar esse respeito mesmo impondo juízos de valor sobre certas atitudes da igreja. Warrior Nun é uma série que parece um pouco indecisa com a sua proposta, não indo a fundo em assuntos que o próprio roteiro invoca, o que acaba sendo prejudicial para a sua qualidade.

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Nunsploitation

Adotar as crenças da igreja católica como mitologia da série é uma excelente ideia e, nesse contexto, colocar as freiras como guerreiras de uma organização ultrassecreta, desconhecida inclusive por alguns membros do clérigo é uma proposta poderosa. O trabalho da figurinista Cristina Sopeña é essencial para atualizar o hábito, que não perde sua austeridade, mas ganha uma aparência que lembra muito os assassinos de Assassin’s Creed e afasta as personagens do conceito estético do exploitation dos quadrinhos nos quais a série é baseada.

Imagem: Netflix

Aliás, a atualização do exploitation é sempre complicada: os filmes desse subgênero e com freiras como tema eram os nunsploitation e geralmente eram carregados de críticas à Igreja Católica e à repressão sexual, o que ainda são temas bastante frutíferos. O conteúdo dos nunsploitation aparece em Warrior Nun, mas de uma forma sutil demais para uma história que se dispõe a mexer com esse tema. A atualização do figurino é excelente, mas o subtexto lésbico é apenas levemente tangenciado e a relação entre Shotgun Mary (Toya Turner) e Shannon (Melina Matthews) grita amizade, abafando as entrelinhas que indicam algo mais, o que é uma tremenda perda para a série, já que esses temas podem ser abordados com muito mais facilidade diante do público contemporâneo.

A parte do exploitation que diz respeito à crítica à igreja está em Warrior Nun, mas a primeira temporada ainda não se posiciona sobre o assunto. Embora boa parte dos episódios exaltem histórias católicas de cunho duvidoso e cheguem a mostrar como heroicos momentos históricos terríveis como foram as Cruzadas, o final da temporada dá vislumbres de que esses pontos podem ser aprofundados em um futuro próximo, sobretudo porque Ava não é uma personagem calada, mas, ao contrário, alguém que fala tudo o que vem à mente e não perde uma oportunidade de questionar o status quo que lhe é imposto.

Imagem: Netflix

Futuro

O núcleo de freiras guerreiras demora a ganhar espaço na trama para aprofundar as personagens, mas quando isso acontece, a probabilidade de ser cativado por elas é enorme e até mesmo a Madre Superiora pode ganhar a nossa afeição. As personagens femininas ganham força ao longo da trama, o que inclui a cientista Jillian Salvius (Thekla Reuten), e dispensam os discursos mais artificiais de Ava quando esta entra em contato com a Organização no princípio da série. Os personagens masculinos, por outro lado, dividem-se principalmente entre duas formas de mal: a maldade pura dos demônios através do Padre Vincent (Tristán Ulloa) e a maldade do uso da religião como política através do Cardeal Duretti (Joaquim de Almeida).

Há um terceiro personagem masculino que acaba sumindo com o desenvolvimento da história, mas que parece ser um provável grande personagem para as temporadas futuras. Não conhecemos o nome de JC (Emilio Sakraya), somente as iniciais que, nesse contexto, remetem automaticamente a Jesus Cristo (inclusive em inglês). Além de ser o salvador de Ava, JC tem um posicionamento contra o sistema que pode voltar amadurecido no futuro. Tendo aparecido logo nos primeiros episódios, a insinuação do nome levanta expectativas sobre o personagem e o seu desaparecimento é um gancho excelente para as próximas temporadas.

Imagem: Netflix

Entre um episódio e outro, Warrior Nun não aposta em ganchos para segurar o espectador, precisando contar com a paciência e com a confiança de quem assiste. Há muito a ser melhorado, mas a série é interessante e a luta contra os demônios empolga justamente por parecer não ter mostrado a verdadeira potência do Inferno. Além disso, a presença do mal parece ser mais intensa que a do bem e, até o fim da temporada, Deus deu menos provas do seu poder.

Há um espaço tremendo para o desenvolvimento de Ava, das freiras, de Jillian e seu filho. Há muito a ser explicado sobre o halo e sobre o metal Divinium (cuja discussão se assemelha muito à de Pantera Negra sobre o Vibranium). Grandes séries começaram com temporadas mais lentas e aparentemente mais fracas. Se a Netflix resolver levar adiante, o que acredito que valha muito a pena, Warrior Nun tem potência para ser uma série de ação excelente, mas vamos precisar esperar para ver.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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