Crítica | Mentiras Perigosas: o cinema da TV ao streaming

Por Laísa Trojaike | 06 de Maio de 2020 às 09h38
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Em 1991, o jornalista e crítico John J. O'Connor escreveu sobre filmes feitos para a TV em um artigo publicado no The New York Times: “Poucos artefatos da cultura popular convidam mais à condescendência do que o filme feito para a televisão. Existem algumas exceções notáveis, geralmente aquelas produções mais ambiciosas inevitavelmente nomeadas para o Emmy Awards, mas a maioria dos filmes de televisão parece perfeitamente satisfeita por ser, na melhor das hipóteses, medíocre”.

Com isso, O’Connor endossa um preconceito com o qual não quero corroborar, mas, ao mesmo tempo, convida-nos a refletir sobre alguns pontos, sobretudo em tempos de streaming. O diretor de Mentiras Perigosas, Michael M. Scott, assim como o roteirista, David Golden, têm uma extensa carreira com títulos classificados como telefilmes, ou seja, filmes que têm sua estreia diretamente na televisão, em contraposição às produções que são feitas para serem lançadas no cinema.

Senta que lá vem história

Historicamente, os telefilmes precisavam se adequar a um tempo específico para se encaixar na grade de programação dos canais, o que começou com filmes de uma hora e meia e, posteriormente, estendeu-se para 2 horas no máximo. Dentro disso, roteiristas precisavam criar estruturas narrativas que se adequassem às pausas para comerciais, com ganchos que segurassem os espectadores, além de, eventualmente, criar histórias que fossem adequadas à proposta de conteúdo do canal que contratou o serviço. É justamente nesse contexto que surgem muitos dos filmes temáticos de datas comemorativas como Dia das Mães, Dia dos Pais e Natal, ou mesmo romantizações de crimes que estivessem gerando grande audiência através dos telejornais.

Imagem: Netflix

Ao contrário de filmes pensados para cinema, que poderiam contar com o valor das bilheterias, os telefilmes dependiam exclusivamente da audiência e, portanto, tendem a ser produções de baixo orçamento, com equipes muitas vezes inexperientes e reduzidas. Apesar da carreira construída com telefilmes, Scott e Golden realizaram Mentiras Perigosas na Netflix, uma plataforma de streaming que, por sua própria natureza, parece posicionar-se como igualmente distante do cinema e da TV. Os primeiros títulos de sucesso da Netflix, inclusive, causaram uma grande repercussão com relação a serem dignas ou não de Oscar, como se produções que não passassem pelas salas de cinema fossem menos dignas em sua essência.

Particularmente, não entendo como o meio de propagação de um filme pode contribuir para que a obra seja taxada como maior ou menor, e tampouco é difícil encontrar exemplos de filmes que foram lançados nos cinemas e são qualitativamente inferiores a telefilmes ou filmes que estrearam em plataformas de streaming, de modo que minha conclusão é de que isso tudo não passa de preconceito. Por outro lado, dadas as limitações impostas pelos canais televisivos enquanto produtores cinematográficos, é perceptível que maneirismos surgiram e se impregnaram no modo de fazer de alguns cineastas.

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Modos de ver

Sem intervalos e sem precisar se adequar à grade de um canal, Mentiras Perigosas é melhor analisado pelos sintomas que apresenta do que pela sua estrutura técnica. De início, o filme mimetiza a fotografia neon e os planos-sequência que parecem estar na moda depois de ações como Atômica, Em Ritmo de Fuga e os filmes da franquia John Wick. Fisgar o espectador logo de cara funciona muito bem em qualquer veículo: cinema, TV ou streaming. O que vem depois disso, no entanto, me fez compreender melhor o que difere cada um desses meios.

Imagem: Netflix

No cinema há a noção de que o espectador está em um ambiente ideal, em que som e imagem devem estar devidamente calibrados e no qual as distrações são reduzidas ao mínimo, além de que o espectador não tem controle algum sobre o movimento do filme, sendo impossível pausar, voltar ou parar a projeção. Na TV, embora o espectador não tenha controle sobre a exibição, há consciência de que haverá pausas e, estando no conforto do próprio lar, o espectador está exposto a toda sorte de distrações. O streaming amplia a liberdade do espectador, que tem, no mesmo ambiente em que via telefilmes, a oportunidade de controle absoluto da exibição. Nada disso é bom ou ruim em si, mas são experiências completamente distintas que afetam diretamente a experiência que temos da absorção da narrativa.

Se no roteiro de telefilme o escritor precisa ficar atento aos momentos de corte, no streaming isso não acontece, o que aproxima estes filmes daqueles exibidos no cinema. Enquanto o roteiro de cinema pressupõe a atenção completa do espectador, o roteiro do telefilme evita complexidades e apela para recursos como flashbacks para não perder o espectador que se deixou levar pelas distrações caseiras ou que pegou o filme já em andamento. O streaming explora um modo de exibição que quimeriza as duas outras formas de ver cinema.

Imagem: Netflix

Mentiras Perigosas tem uma estrutura narrativa que funciona perfeitamente na forma parcelada que a TV nos oferece cinema, mas, visto continuamente como nas grandes telas, o filme tem suas características expostas como uma fratura: os diálogos que retomam acontecimentos passados deixam de auxiliar o espectador para se tornaram exposições repetitivas ou mesmo descartáveis dos acontecimentos, transbordando inclusive para os atores que, ao precisarem proferir essas linhas, acabam tendo seu trabalho afetado: a verossimilhança parece repelida quando, por exemplo, Katie (Camila Mendes) retoma os acontecimentos do assalto ao café em meio à sua primeira discussão com Adam (Jessie T. Usher).

Desventuras em série

Se Mentiras Perigosas fosse exibido na TV, com comerciais e idas à geladeira interrompendo a narrativa, a série de acontecimentos que envolvem o jovem casal protagonista seria mais facilmente aceita pelo público. A possibilidade de assistir sem interrupções, no entanto, quase transforma o drama em outra coisa: são tantos acontecimentos absurdos, tantas mortes no mesmo local, ao redor da mesma pessoa, que faltou apenas o elemento sobrenatural para que Katie vivesse uma história digna do gênero terror.

Visto sem pausas, os acontecimentos são no mínimo estranhos. Os protagonistas, por sua vez, parecem estúpidos por suas decisões e comentários, de modo que, se estivessem nas mãos dos irmãos Coen, poderiam pertencer ao universo da comédia de erros que é Fargo, mas como não se trata de uma comédia de humor negro, os acontecimentos soam apenas como artificiais demais para propor uma imersão para o espectador.

Imagem: Netflix

Se na TV Mentiras Perigosas seria um bom entretenimento de segunda-feira à noite para uma mente já cansada com o retorno das atividades laborais semanais, no streaming o filme pode encontrar um ambiente de exibição que o aproxima do ideal, o que funciona como se pudéssemos colocá-lo sob o microscópio para um olhar mais atento, deixando todos os seus defeitos gritantes ainda mais notáveis.

Se o cinema controla o ambiente e exige que o filme seja minimamente bem feito para que conquiste a atenção do público, a TV faz o contrário e não só permite, como também ensina que é possível gostar de algo que nem é tão bom assim ou que seja até mesmo ruim. Bons ou ruins, todos os filmes são cinema e merecem ser vistos, porque sempre é possível extrair algo de qualquer obra. O sintoma que Mentiras Perigosas traz à tona, no entanto, é provavelmente um dos maiores sintomas do streaming: quem controla a experiência, agora, é o espectador. Você já pensou sobre qual é o seu ambiente ideal para ver cinema?

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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