Crítica | Matrix continua um primor mais de 20 anos após o seu lançamento

Por Douglas Ciriaco | 30 de Agosto de 2020 às 15h30
Reprodução/Warner Bros.

O ano de 1999 foi ímpar não apenas porque terminava em 9 (desculpe por isso), mas também porque abrigou a estreia de diversos clássicos do cinema recente, como Clube da Luta, Beleza Americana, Toy Story 2, O Sexto Sentido e, claro, Matrix.

O primeiro capítulo da trilogia das irmãs Wachowski chegou quase que literalmente com o pé no peito do mundo e mudou para sempre o jeito de se fazer filmes de ação, ao menos em Hollywood. As cenas de lutas extremamente coreografadas e muito bem inspiradas em diversos clássicos dos filmes chineses de artes marciais, por exemplo, são, talvez, a parte mais notável desse aspecto.

Mas podemos incluir nesse rol de acertos precisos de Matrix fatores como uso inteligente e coerente da câmera lenta, o efeito Bullet Time e o design de som absurdo e imersivo que complementa a experiência e também acabaram influenciando o cinema de ação.

Filosofia e ficção científica

Assistir a Matrix sem ser tocado pelo aspecto filosófico é difícil mesmo para quem, como eu, tem pouca leitura nessa área do conhecimento. Duas décadas depois, estão ainda mais evidentes as referências a pensadores como o grego Platão e seu “Mito da Caverna” (no despertar de Neo) e o francês René Descartes e seu “Penso, logo existo” (quando o protagonista se vê diante de questões que colocam em xeque a sua noção de realidade).

A grande referência teórica, porém, parece mesmo vir do sociólogo e filósofo francês Jean Baudrillard. Sua obra clássica Simulacro e Simulação, aliás, aparece como easter egg no filme e é justamente ela que norteia parte do roteiro das irmãs Wachowski: a ideia de que as simulações da realidade se tornam cada vez mais sedutoras do que a realidade em si é levada ao extremo em Matrix.

Apesar de o filme não abordar de forma clara e aprofundada esses temas, ele foi e continua sendo uma forma inteligente de discuti-los, uma espécie de porta de entrada para questionamentos que parecem ainda mais relevantes em um mundo dominado pela tecnologia e pelas redes sociais nem sempre de forma saudável e cidadã.

A escolha e suas consequências (Imagem: Reprodução/Warner Bros.)

Nesse sentido, portanto, a interseção entre filosofia e ficção científica acaba sendo um dos aspectos mais legais de Matrix. Clássicos da literatura de ficção científica como o marco cyberpunk Neuromancer, do estadunidense William Gibson e de onde as Wachowski tiraram o termo “matrix”, e O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick, também pincelam a narrativa de Trinity, Morpheus e companhia.

A questão de realidades paralelas, de vida simulada e conectada a um computador que tais obras representam, são exatamente o pano de fundo no qual é travada a luta entre humanos e máquinas dentro de Matrix. Aqui, aliás, vale citar a possível referência (que alguns acusam de plágio) da série em quadrinhos Os Invisíveis, do britânico Grant Morrison — não vou me aprofundar aqui para não desviar o foco, mas esse é um tema que vale ser abordado em outro momento.

De qualquer maneira, a distopia que coloca lado a lado tecnologias ultra-avançadas com miséria e precariedade das condições humanas também dá o tom de filme. Como quase sempre acontece em grandes obras distópicas, a ficção científica aqui também ganha um tom mais crítico e até angustiante em alguns momentos, mesmo que repleto de metáforas e simbologias.

A perfeição dos detalhes

Matrix é uma obra grandiosa, um “arrasa quarteirões” que custou US$ 63 milhões em 1999 — corrigido, esse valor atualmente bateria próximo da casa dos US$ 100 milhões. Apesar de uma quantia inimaginável para a maioria dos seres humanos, a obra-prima das Wachowski pode ser considerada uma bagatela perto, por exemplo, de Star Wars: Episódio 1 - A Ameaça Fantasma.

Também lançado em 1999, a controversa obra de George Lucas custou US$ 115 milhões à época, quase o dobro do orçamento de Matrix. Mesmo assim, os críticos, o público e a história foram muito mais gentis com o filme estrelado por Keanu Reeves do que com o início da segunda trilogia Star Wars, o que sugere um emprego muito mais apropriado das verbas liberadas pelo estúdio.

A produção do filme não se destaca apenas pelos retoques visuais computadorizados, mas também por detalhes que passam quase despercebidos a olhos e ouvidos menos atentos. Assim, se o apelo visual da obra, com seus efeitos, coreografias e figurinos, é mais do que conhecido do grande público, o detalhe da composição sonora desta película é uma belíssima cereja nesse bolo delicioso.

Matrix foi talhado nos mínimos detalhes (Imagem: Reprodução/Warner Bros.)

A cargo de Dane Davis, a edição de som do filme ajuda a focar nos detalhes, com direito a “som em câmera lenta” que por vezes reforça a noção de velocidade dos movimentos dos personagens, por exemplo. Em meio a tiroteios, como na cena em que Neo e Trinity invadem um prédio para resgatar Morpheus, a barulheira da troca de tiros em diversos momentos dá lugar a um “foco sonoro”, com barulhos sutis de cápsulas caindo ao chão ou de um disparo certeiro, por exemplo. Isso tudo guia a atenção do espectador para o que realmente importa no quadro.

Adicione como complemento desse trabalho primoroso uma trilha sonora com faixas que embalam, como uma cantiga de ninar perfeita, o enredo político e cyberpunk de Matrix e temos aí um combo multimídia irretocável — algo que seria expandido ainda mais com as sequências Reloaded e Revolutions.

Uma história redonda

Hoje sabemos o que veio depois do primeiro Matrix e nem todo mundo gosta das continuações. Mas, em 1999, aquela história que finaliza com Neo voando pelos ares após ameaçar o sistema parecia se encerrar em si mesma.

Seja pelo subtexto com uma referência a pessoas trans, seja por abraçar esse mundo “informático” e conectado mesmo quando a internet ainda dava seus primeiros passos, Matrix reúne elementos distintos como filosofia, artes marciais e tecnologia avançada para contar uma história sobre liberdade, escolhas, destino e redenção.

A clara metáfora do salvador, algo que será aprofundado e terá tons religiosos ainda mais fortes nos filmes seguintes, passa longe de ser enfadonha nesta trama. Neo é um personagem carismático, repleto de dúvidas e que se vê obrigado a crescer em torno das próprias desconfianças para, de forma distraída, tornar-se o Messias que todos esperavam que ele fosse.

A jornada do herói, aqui, ainda tem como coajduvantes personagens tão intrigantes e excêntricos quanto ele mesmo. Quando somos levados ao mundo real, com uma nave cheia de gambiarras e uma tripulação maltrapilha, a impressão é de uma espécie de Armada Brancaleone high-tech na luta contra um inimigo poderoso e onipresente.

E é essa mistura de tantas coisas incríveis, tantos detalhes pensados com atenção e uma história muito bem escrita que faz de Matrix um filme capaz de vencer o tempo. Ele envelheceu muito bem nesses mais de 20 anos e tranquilamente figura entre os grandes clássicos da história do cinema mundial.

E aqui vai uma dica: se você curte Matrix e quer saber mais sobre as referências presentes no filme, o vídeo abaixo foi feito para você:

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