Crítica | Matrix Reloaded é uma obra subvalorizada

Por Douglas Ciriaco | 06 de Setembro de 2020 às 21h30
Divulgação/Warner Home Video

Matrix causou um impacto gigantesco em 1999, algo tão grande que fez da obra uma das mais relevantes de todos os tempos no cinema. Assim, nada mais justo do que uma expectativa imensa para a sequência do filme original. Porém, em 2003, quando Matrix Reloaded chegou às telonas, houve recepções mistas: a ideia de algo tão impactante quanto o filme de 1999 logo ficou para trás e o que se sobressaiu foi a impressão de que o resultado poderia ter sido melhor.

Contudo, olhando hoje, quase 20 anos depois, parece mais fácil reavaliar e considerar que ele merece, sim, um lugar de maior destaque na história.

Um capítulo do meio

Talvez, quando visto lá no início de 2003, Matrix Reloaded pode ter deixado no ar um gosto de obra inacabada, afinal o filme terminava sem uma conclusão de fato e com mais perguntas do que respostas. O desfecho da história, porém, não demoraria a chegar: Matrix Revolutions foi lançado ainda no fim daquele ano para concluir a saga do Escolhido na luta pela redenção da humanidade.

Aqui, vale mencionar que essa estrutura de um filme dividido em duas partes pode até ter causado alguma estranheza há mais de 15 anos, mas acabou sendo repetida por grandes franquias de Hollywood algum tempo depois — a mesma lógica foi usada nos capítulos finais de franquias como Harry Potter, Jogos Vorazes, O Hobbit e Vingadores.

Diante disso, é importante ressaltar que Matrix Reloaded sempre teve o propósito de fazer a ponte entre o primeiro e o terceiro filme. Na prática, é como se a sequência de Matrix tivesse sido dividida em duas e a primeira delas seria a introdução ao final, portanto, dá para cravar que ela atinge esse objetivo e prepara o terreno para o desfecho da história.

Matrix Reloaded chegou aos cinemas em 2003 (Imagem: Reprodução/Warner Bros.)

Mas o segundo capítulo de trilogia faz mais do que apenas preparar a chegada do episódio final e, para mim, a grande cartada deste filme é dar mais contexto ao universo apresentado em 1999. Em Matrix, por exemplo, sabemos que os humanos restantes vivem em Zion, mas não temos acesso a mais nada além disso. Reloaded não apenas apresenta o local, como nos coloca a par de como vive o restante da humanidade.

O cenário apresentado ali é de uma comunidade diversa não apenas do ponto de vista étnico como também sob uma perspectiva sexual e de gênero. Nesse ponto, fica evidente como a resistência humana é, sobretudo, humana, por mais redundante que isso possa parecer.

Elementos culturais da turma também são evidenciados, como forma de organização comunitária, uma cidade comandada por um conselho de diferentes pessoas e relações bastante horizontais, mesmo com um comando militar reunindo bastante poder. Por fim, a famosa cena da festa na caverna completa o mergulho o espectador em Zion e destaca uma resistência catártica, humanizada e cheia de fluidos contra a constante ameaçada destruição eminente por parte das máquinas.

Cada vez mais Salvador

Outro elemento muito interessante de Matrix Reloaded é que a obra serve de transição também para Neo. Se no primeiro filme já fica claro seu viés messiânico, mesmo que não voluntário, no segundo isso ganha outro verniz e mostra um Escolhido cada vez mais intrigado por seus próprios dilemas;

Neo é um avatar, uma representação divina na Terra, e vira alvo de oferendas e orações de mães desesperadas pelo temor de perder seus filhos na guerra entre humanos e robôs; tal qual Jesus faz com Lázaro, ele traz Trinity do mundo dos mortos — lembrando que ele já havia realizado o milagre da ressurreição no primeiro filme. Esses pequenos elementos vão compondo a trajetória de evolução do personagem.

Também é nesse contexto que começa a se desenhar o grande conflito do herói: o porquê de suas escolhas e o resultado delas.

Destino x Livre arbítrio

Desde a primeira cena de Reloaded, Neo se vê assombrado por uma visão do futuro na qual prenuncia a morte de sua amada Trinity. Ao pedir para que ela não faça parte da missão que visa destruir a fonte da Matrix, ele pensa que havia driblado o destino, mas, na verdade, foi exatamente esse pedido o responsável por levar a número dois na linha de comando da Nabucodonozor ao mundo virtual.

Nesse momento, o dilema de Neo em relação às suas escolhas chega a seu limite e ele precisa tomar parte e decidir se cumprirá o script definido para ele enquanto um programa de computador ou se, aproveitando-se da sua condição de anomalia, conforme revela o Arquiteto, optará por salvar o seu grande amor.

Esse detalhe mostra que a grande dicotomia dentro de Matrix, portanto, se dá entre destino e livre arbítrio. O tema permeia todo o filme e oferece alguns dos diálogos mais interessantes de toda a trilogia — por isso também Reloaded deve ser avaliado com mais carinho e cuidado.

Neo trava o diálogo mais importante da trilogia com o Arquiteto (Imagem: Reprodução/Warner Bros.)

A questão das escolhas aparece com destaque em três conversas definidoras de toda a série Matrix. Primeiro, entre Neo e a Oráculo; logo depois, no diálogo do Escolhido com Smith; por fim, quando o personagem de Reeves se encontra com o Arquiteto.

Ao conversar com o Oráculo, Neo se dá conta de que a sua angústia não é exatamente pela escolha, mas pela razão pela qual ela se dá. A vida de Trinity está em suas mãos e fica evidente a sua compreensão de que não destruir a Matrix quando surgisse a oportunidade também traria consequências graves.

O diálogo com Smith também trata de propósito e escolhas. Quando é destruído, o então agente deveria ir para a “lixeira”, mas se recusa a cumprir seu destino. Após ser “infectado” pelo Escolhido, ele se torna um vírus com a capacidade de se replicar e sobrescrever outros programas, e seu poder cresce tanto que compromete o funcionamento da máquina na qual está instalado.

Por fim, o diálogo com o Arquiteto é provavelmente o mais relevante de toda a trilogia, pois desnuda o verdadeiro caráter da Matrix, do Escolhido e até mesmo da realidade para além dos computadores. É ali que Neo sabe de seus predecessores e de todos os planos que resultaram na criação do simulacro, por exemplo.

Merovingio e Perséfone: duas grandes adições de Matrix Reloaded (Imagem: Reprodução/Warner Bros.)

Somente essas três conversas já colocam Reloaded senão como tão impactante quanto o filme de 1999, ao menos como uma obra bastante relevante por assentar melhor a proposta das Wachowski para aquele universo.

Mas há ainda mais: a conversa de Neo, Morpheus e Trinity com Merovíngio sobre causa e efeito e os eventos que se seguem a isso naquela mansão, por exemplo, deixam brechas imensas para diversas teorias — eu sigo convencido de que Merovíngio foi o primeiro Escolhido, mas isso é papo para outro momento.

Nem tudo são flores

Se do ponto de vista filosófico a coisa segue numa crescente em Matrix Reloaded, o mesmo não pode se dizer do ponto de vista técnico. Apesar de mais novo, o filme envelheceu pior do que Matrix quando se olha para as cenas que abusam desnecessariamente da computação gráfica.

A lendária luta entre Neo e um exército de Smiths poderia ter passado muito bem sem aquele aspecto de animação de algumas tomadas. As lutas com pessoas de verdade seguem o padrão muito bem coreografado da obra e passam credibilidade, mas acabam ofuscadas pelas partes computadorizadas e excessivamente artificiais.

A aposta por cenas grandiosas, como a perseguição de carros na estrada, também empobrece um pouco a trama. Ali, sobram tiros e faltam feridos, afinal é difícil acreditar que ninguém saia machucado de um carro crivado de balas mesmo com o "contrato ficcional" intrínseco a esse tipo de obra.

Esses dois detalhes são o que mais me causam desconforto em Reloaded e deixam um gosto meio agridoce na boca.

Hugo Weaving cresce muito como Smith em Matrix Reloaded (Imagem: Reprodução/Warner Bros.)

É Matrix, afinal de contas

Juntando tudo, não há como negar: Reloaded é extremamente relevante do ponto de vista de cronologia dos fatos dentro de Matrix. É ali que se evidencia o papel de messias de Neo, a dicotomia com Smith — que é excepcionalmente vivido pelo grande Hugo Weaving —, a importância das escolhas e a inevitabilidade de suas consequências.

Esses detalhes nem sempre são lembrados nas análises sobre Matrix Reloaded, e a continuação por vezes é erroneamente apontada como um mero caça-níquel. De onde eu vejo, porém, ela consegue dar um rumo inesperado e muito positivo para a história iniciada quatro anos antes.

Alguns ajustes poderiam refinar o ritmo do filme, há problemas com a artificialidade da computação gráfica em algumas cenas, mas o saldo é totalmente positivo: um grande filme, uma (novamente) excelente trilha sonora e mais um marco das irmãs Wachowski no cinema.

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