Crítica King Richard: Criando Campeãs │ Dois Filhos de Francisco gringo

Crítica King Richard: Criando Campeãs │ Dois Filhos de Francisco gringo

Por Durval Ramos | Editado por Jones Oliveira | 24 de Março de 2022 às 19h00
Warner Bros

Ao longo das quase 2h30, o personagem de Will Smith fala sobre o “plano”: um projeto que Richard Williams traçou para fazer com que suas filhas, Venus e Serena, se tornassem os maiores nomes do tênis mundial — um planejamento que começou antes mesmo de elas nascerem. E, da mesma forma que esse pai criou um passo a passo para que suas filhas se tornassem realmente vencedores, King Richard: Criando Campeãs é um filme que também segue o tal “plano”, do começo ao fim.

Isso porque ele é tipicamente um “filme para o Oscar”, trazendo tudo aquilo que a Academia gosta de ver. Ele é um grande apanhado de temáticas, abordagens, interpretações e mensagens que sempre funcionam muito bem entre os jurados que votam na maior premiação do cinema mundial de forma que ele parece ter sido montado inteiramente para conquistar uma estatueta.

Ele é inspirador, biográfico, com uma história de superação e que aborda questões sociais e raciais mais do que importantes e atuais e traz ainda um ator de renome e carisma que passou por uma enorme transformação para viver um personagem real. É quase o bingo completo do Oscar em uma única película.

E que fique claro: isso não desmerece em nada o filme e muito menos a história que é contada, que é realmente incrível. Apesar de jogar com o regulamento embaixo do braço, como se fala no jargão esportivo, King Richard: Criando Campeãs é um filmão. Só que, justamente pelo fato de ele seguir uma cartilha tão bem conhecida, perde muito do seu impacto.

Um pai que faz de tudo para levar as filhas ao estrelato: você já viu esse filme com uma trilha sonora sertaneja (Imagem: Divulgação/Warner Bros)

O longa opta tanto por essa segurança de repetir uma fórmula que outros filmes já adotaram no passado que ele se torna bastante comum, quase protocolar. Afinal, trata-se de uma estrutura narrativa que a gente conhece tão bem que, mesmo a trajetória das irmãs Venus e Serena Williams sendo maravilhosa, tudo soa comum e familiar.

No fim das contas, King Richard é só uma versão gringa do brasileiro Dois Filhos de Francisco.

No dia em que eu saí de casa

Deixemos de lado qualquer eventual comparação fora das telas entre as irmãs Williams e Zezé di Camargo e Luciano. Em termos de filme, estamos falando praticamente da mesma história e da forma como isso é contada: a trajetória de dois filhos a partir da perspectiva de um pai fez de tudo para que eles chegassem ao ponto mais alto — onde ele jamais pôde estar —, mesmo que isso represente passar dos limites em alguns momentos.

Jogou no seguro: história do filme é muito boa, mas peca em uma montagem comum (Imagem: Divulgação/Warner Bros)

E toda a narrativa focada nos perrengues e na persistência desse pai até conseguir provar o valor e o talento de seus filhos é exatamente a mesma. E isso não faz com que King Richard seja uma cópia de Dois Filhos de Francisco e nem que um filme seja melhor ou pior que o outro. O que quero dizer é apenas o quanto a estrutura campeã montada pelo novo longa de Will Smith é comum.

E é isso que tira o impacto do que Criando Campeãs tem a oferecer. Afinal, quantas vezes você já não viu essa história sendo contada com outros personagens? Isso faz com que King Richard seja apenas mais um entre tantos filmes desse quase gênero tão específico que são as histórias inspiradoras que influenciadores de LinkedIn tanto gostam. Ele não é inventivo nem mesmo dentro desse nicho.

Mensagem de valor

Só que isso não apaga o verdadeiro valor do filme. Afinal, se a estrutura e a própria narrativa do longa nada mais são do que um apanhado de coisas que já vimos antes, o que King Richard: Criando Campeãs tem a ponto de ser indicado a Melhor Filme no Oscar? Sem sombra de dúvidas, a sua mensagem.

A mensagem por trás da jornada de Richard Williams é o que Criando Campeãs tem de melhor (Imagem: Divulgação/Warner Bros)

É nesse aspecto que o longa se difere de todos esses filmes motivacionais sobre vitórias, derrotas e persistência. Mais do que ser uma produção para coaches, o grande ponto abordado na trama é sobre ir além de onde os outros acreditam que você deve e merece estar.

Ainda no começo do filme, Richard Williams fala que o mundo nunca teve respeito por ele, mas que teriam por suas filhas. E, nesse ponto, a gente passa a acompanhar a obstinação desse pai não apenas para que as duas jovens se tornassem grandes tenistas, mas que conquistassem esse respeito para que fossem muito mais do que a lógica determinista do racismo americano permitia.

Destaque para John Bernthal, que está quase irreconhecível (Imagem: Divulgação/Warner Bros)

É nessa mensagem que King Richard é inspirador — porque, por trás do próprio longa, a história das irmãs Williams é realmente inspiradora, abrindo as portas de um esporte elitista e majoritariamente branco para a comunidade negra. A última cena do filme deixa isso bem claro, mas essa preocupação do protagonista de Will Smith de que elas sejam grandes para além do esporte é algo que é pontuado ao longo de todo o roteiro.

Não por acaso, não estamos falando de um filme de esporte e há somente uma única partida de tênis sendo mostrada nessas quase 2h30 de história.

Jogo certo

É nesse equilíbrio entre uma mensagem realmente muito interessante envelopada em uma estrutura para lá de comum é que King Richard: Criando Campeãs se mantém. É um filme muito bom, mas que se perde em meio a tantos por ser comum demais.

A atriz que vive a jovem Venus Williams e surpreendentemente carismática (Imagem: Divulgação/Warner Bros)

Mas isso não tira dele seu valor. Além da mensagem realmente muito boa por trás do relato biográfico, há todo um trabalho de atuação que está muito bom. O grande destaque fica na jovem Saniyya Sidney, que vive a jovem Venus Williams e que é tão carismática quanto a atleta a ponto de sempre roubar a cena — sobretudo na segunda metade da história.

Quem também brilha bastante é Aunjanue Ellis, que vive a matriarca da família Williams. Ainda que sua personagem seja bastante apagada na trama, aparecendo pontualmente aqui e ali sendo muito mais esse suporte que sustenta o sonho de Richard, a atriz é muito boa e traz uma força incrível em cada cena que participa.

Apesar da maquiagem, você vê muito mais Will Smith do que Richard Williams em cena (Imagem: Divulgação/Warner Bros)

Por outro lado, é curioso ver a indicação de Will Smith como o personagem-título. Não que o astro esteja ruim, mas ele parece ter dificuldades de deixar o Will que a gente conhece para se tornar o Richard e, apesar das mudanças corporais e gestuais para viver o treinador, ele parece nunca chegar lá de verdade. E a decisão de colocarem imagens reais do personagem nos créditos finais não colabora em nada com isso, pois mostra o quanto a versão do cinema ficou diferente.

Só que, mais uma vez, não é isso que tira o valor de King Richard: Criando Campeãs. Ainda que a estratégia de seguir o tal plano não tenha sido a mais acertada, não há como negar que a história de um pai que tenta realizar seus sonhos através dos filhos é algo universal e que funciona muito bem — seja com as maiores tenistas do mundo ou com Zezé di Camargo e Luciano.

King Richard: Criando Campeãs pode ser assistido no catálogo da HBO Max.

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