Crítica | A Casa do Terror é como rastejar de vergonha

Por Sihan Felix | 10 de Outubro de 2020 às 22h00
Broken Road Productions

No início do século, os filmes-tortura (subgênero no qual se encaixa A Casa do Terror) tiveram um certo boom no cinema comercial. Filmes como Jogos Mortais (de James Wan, 2004) e O Albergue (de Eli Roth, 2005) se tornaram marcos por não somente ser exemplares eficientes do terror, mas por suas cenas fortes que impactavam a história. Ambos os filmes citados constroem a tensão ao redor das possíveis cenas perturbadoras.

Pouco tempo antes, o diretor japonês Takashi Miike havia lançado um dos marcos do gênero: Audição. O filme de 1999 tem um grau de aflição como muitos de sua carreira grotescamente autoral. O incômodo proporcionado por Miike não é facilmente digerível, mas ele tem a forma como aliada, a consciência de que não é o acontecimento em si que choca mais, é como ele é mostrado e, mais ainda, como chegar até ali.

Atenção! Esta crítica contém spoilers sobre o filme!

Engolindo um forcado

A Casa do Terror (disponível no Amazon Prime Video), que tem produção de Roth, tem uma premissa interessante, que parte de uma situação pronta, explicitada no título nacional. A tal casa não é uma metáfora e, sim, um fato por se tratar de um local construído como uma espécie de trem fantasma no qual os corajosos embarcam a pés e se veem interagindo com atores treinados para causar medo e dar sustos. É uma atração real que, por exemplo, existiu no extinto parque de diversões Playcenter (em São Paulo/SP e Olinda/PE) como Castelo dos Horrores.

Acontece que o filme, por mais que embarque nesse conceito pré-cozido, parece tentar fugir a todo custo das verossimilhanças. Não que uma obra de ficção precise ser um retrato da realidade, mas ela precisa respeitar o seu universo próprio. Ou melhor: antes de tudo, é preciso criar esse universo para que o espectador consiga engolir e aceitar o que presenciará.

Nesse sentido, Haunt (título original) pode dar a entender que pouco (ou nada) se importa com seu conteúdo. Parece muito mais que a ideia é chocar, causar o terror, com as cenas explícitas do que construir qualquer tensão sentida pelo grupo de amigos aprisionados. Um exemplo que talvez seja mais claro desse fato é um momento em que Harper (Katie Stevens) vê o assassinato de uma amiga: a câmera subjetiva (simulando a visão dela — de Harper) presencia a tal morte de um ângulo que é impossível ver o forcado do assassino atingindo a vítima. Então, a montagem de Terel Gibson (de Casamento Sangrento) corta exatamente para a ferramenta fincada na cabeça da pessoa: está feito o choque pelo choque, sem qualquer coerência de forma ou apego com a narrativa imagética.

Câmera subjetiva de Harper. (Imagem: Reprodução/Amazon Prime Video)

Rastejando...

A direção de Scott Beck e Bryan Woods (ambos do desastroso Nightlight — filme de 2016) segue essa linha indigesta ininterruptamente, transformando um filme que nascera, como dito, pré-cozido, em uma massa congelada. Isso porque o primeiro ingrediente, o roteiro, quase não se decide se os personagens têm alguma inteligência ou se são completamente imbecis. Até que, no terceiro ato, quando Harper se encaminha para a fuga, a segunda opção é a escolhida em definitivo.

Presa em um quarto à la jogos de escape, a moça é tratada como uma toupeira, desde pequenas frases escritas de traz para frente que ela precisa de um espelho para decifrar até o momento em que, para alcançar um objeto embaixo da cama, ela resolve ir... para debaixo da cama. Tudo isso, claro, é regado por uma tentativa praticamente risível de criar apreensão até tudo desmoronar de vez, o que não demora a acontecer: logo na sequência, a moça leva um tiro no ombro e passa a rastejar — apoiada pelos... ombros — como se as pernas estivessem afetadas. Obviamente, é um rastejamento para encaixar a morte do se atual agressor.

O que será que está escrito na parede? (Imagem: Reprodução/Amazon Prime Video)
Um tiro no ombro depois... (Imagem: Reprodução/Amazon Prime Video) 

É tanta pataquada no último terço de A Casa do Terror que alguns personagens que ficaram para trás podem se tornar totalmente esquecíveis. Mallory (Schuyler Helford), a primeira da trupe a ter um fim trágico, deve funcionar somente como a protagonista inconsciente da primeira virada de ato. Essa impessoalidade do trabalho de Beck e Woods deixa cada sujeito como mero artifício para que o filme siga. A construção de uma ligação ou de qualquer simples identificação com o público é praticamente nula, o que faz as mortes servirem justamente e somente para o impacto visual.

Aliás, é tudo tão incoerente que Sam (Samuel Hunt), mesmo sendo apresentado como o namorado agressor de Harper, recebe ares de herói e, logo, de mártir, por percorrer quilômetros com o intuito de ajudar após uma mensagem de celular pedindo por socorro. Mas existe uma coerência em sua atitude: o mesmo método-toupeira usado para desenhar a inteligência do grupo inicial é utilizado para formatar o cérebro dele (de Sam), que não pensa em nenhum momento em comunicar o chamamento para a polícia.

Sam prestes a virar mártir. (Imagem: Reprodução/Amazon Prime Video)

No final das contas, A Casa do Terror tem mortes chocantes sim; tem cenas fortes sim; e pode divertir caso exista disposição para embarcar em uma história sem qualquer consistência ou verossimilhança. Mas é tão esquecível quanto a coitada da Mallory e, se for colocado ao lado de Jogos Mortais, O Albergue e Audição, ele (se tivesse vida) se sentiria como ao levar um tiro no ombro e sairia de fininho, rastejando... de vergonha.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

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