Crítica | Parque do Inferno ou o Olho da Providência da maldade

Por Sihan Felix | 29 de Agosto de 2019 às 21h20
Paris Filmes

O cinema costuma ser o reflexo da realidade. Quando não o é, normalmente parte de princípios básicos para criar toda uma gama de expectativas e formas de causar identificação. Ou seja: há tanto da realidade na construção de uma ficção que tudo acaba se misturando. Tanto que, geralmente, os melhores filmes de gênero são metáforas da sociedade em si ou de, pelo menos, parte dela.

Cuidado! Daqui em diante a crítica pode conter spoilers!

Uma torta extremamente doce

Parque do Inferno (disponível no Telecine Play) parte dessa premissa e se estabelece em uma situação pronta: um parque de diversões onde os sustos e as situações assustadoras são os elementos fundamentais. Ao mesmo tempo em que é uma opção bastante interessante, podendo causar uma imersão enorme, é, também, uma maneira de amenizar e até silenciar alguns fundamentos do terror adolescente. Nesse sentido cada jump scare provocado por um monstro funcionário do parque alimenta uma bola de neve que acaba por quase silenciar o medo real. O assassino, então, passa a ser uma figura quase que espiritual: do início ao fim, seu rosto permanece oculto, ele persegue somente caminhando o grupo de amigos que corre e sua máscara dificilmente permitiria alguém enxergar com os dois olhos – transformando-o numa espécie de Olho da Providência da maldade.

"Sua máscara dificilmente permitiria alguém enxergar com os dois olhos." (Imagem: Paris Filmes)

É interessante perceber, igualmente, o quanto o filme tenta referenciar alguns clássicos do slasher, em particular Halloween: A Noite do Terror (de John Carpenter, 1978). Se, naquele da década de 1970, Michael Myers é a personificação do mal – o que fica sedimentado em Halloween (de David Gordon Green, 2018) –, em Parque do Inferno o tratamento recebido pelo mascarado é de uma pretensão que, infelizmente, tudo o que é demonstrado antes da última cena não suporta.

Isso porque os últimos segundos antes dos créditos finais seriam de uma riqueza enorme caso a quase totalidade do filme não fosse um arremedo de clichês, os montes de quase sustos e protagonistas apáticos. Se clichês podem funcionar de algum modo e, às vezes, são necessários para sedimentar o gênero e o subgênero inclusive, as cansativas e repetitivas tentativas de sustos interferem em qualquer investida na imersão do medo. Assim, ao passo que Natalie (Amy Forsyth) é provocada por um terror real crescente – que se inicia quando ela vê outra jovem ser assassinada –, a utilização do parque como meio imersivo para o público pode naufragar. A cada susto, a possível sensação pretendida pela direção de Gregory Plotkin (de Atividade Paranormal: Dimensão Fantasma, 2015) tende a diminuir. É como comer uma fatia gigante de uma torta extremamente doce: pode até ser bem gostosa no início, mas, antes de comer um terço, enjoa... e esse enjoo, a depender da pessoa, pode ter consequências catastróficas.

Paixonites

Por outro lado, os mesmos segundos finais dão uma relevância que Parque do Inferno não teria. Ao tratar o assassino como um visivelmente bom pai, o roteiro de Seth M. Sherwood, Blair Butler e Akela Cooper (de Massacre no Texas, Morte Instantânea e de alguns episódios da série Luke Cage respectivamente) cedem profundidade àquele homem. Isso faz com que o filme ganhe outras interpretações, como se quisesse dizer que o mal pode estar onde menos se espera.

O problema é que é tão surpreendentemente aleatório, é tão solto, que as referências à criação de Carpenter tornam-se igualmente arbitrárias ou, de repente, irresponsáveis. A noite de halloween, a máscara semi-humana com algum grau de deformidade, uma cena no banheiro que em muito lembra uma do filme que traz Myers de volta em 2018 (mesmo ano desse em questão) e, acima de tudo, uma corrente de assassinato que jamais atinge a mocinha são citações diretas ou coincidências muito próximas, que pode plantar uma dúvida quanto à criatividade dos roteiristas e do diretor.

Por exemplo: Se, aqui, a personagem poupada é vivida por Forsyth, naquele era Jamie Lee Curtis. Aparentemente, ambos os antagonistas desenvolvem uma paixonite por suas protagonistas e matam primeiramente por ciúme. A diferença é que Myers é a personificação do mal, alguém, de fato, sozinho, com uma mente completamente encoberta pela névoa do desconhecido – e algo essencial ao medo causado pelo terror é o oculto, o inexplorado, o mistério – e, quando nesse filme de Plotkin, descobre-se parte da psique do meliante, o que resta é forçadamente interpretar o significado e desfazer toda a boa incompreensão construída previamente.

"Aqui, a personagem poupada é vivida por Forsyth." (Imagem: Paris Filmes)

Resta somente...

Parque do Inferno, no final das contas, tenta emular não somente um mestre como John Carpenter, mas dá indícios de buscar a juventude e leveza proposta por Wes Craven com o filme que renovou os slashers na década de 1990: Pânico (que é de 1996). Sem a mesma pegada dinâmica de Craven, Plotkin acaba por ficar no limbo entre a elegância de Carpenter e a agilidade de Craven (que também é o criador de Freddy Krueger, em A Hora do Pesadelo – outro slasher clássico –, de 1984).

Felizmente, o visual, vez ou outra, é inspirado. Especialmente em suas sequências finais, quando a locação é o labirinto em que Natalie e a amiga Brooke (Reign Edwards) estão, a direção de fotografia de José David Montero (do ótimo Borboleta Negra) e a direção de arte de Mark Dillon (de Deus Não Está Morto: Uma Luz na Escuridão) trabalham em uma harmonia que remete justamente à irrealidade que o filme tanto demonstrava precisar.

"Nas sequências finais, os diretores de fotografia e de arte trabalham em harmonia." (Imagem: Paris Filmes)

Há, ainda, a tentativa válida de subverter regras do subgênero, principalmente na ordem das mortes. Se, claramente, a primeira pessoa a morrer não é promíscua (para os moldes de uma sociedade que julga negativamente atitudes que poderiam ser tratadas sem tabu), a segunda, já parte do grupo, também não o é. É uma tentativa de, ao menos, tornar o filme imprevisível... a ponto de, na resolução, o próprio roteiro se esquecer da quantidade de mortos e contabilizar somente os corpos do grupo principal – esquecendo-se da primeira moça que, lá no primeiro ato, é vista por Natalie (que, para mim, é quase uma gêmea perdida da Larissa Manoela) sendo morta .

"Esquecendo-se da primeira moça que é morta no primeiro ato." (Imagem: Paris Filmes)

Que os melhores filmes de gênero continuem sendo metáforas da sociedade em si ou de, pelo menos, parte dela, mas que esses símbolos que buscam a discussão possam causar, de fato, alguma identificação. Não que um filme tenha a obrigação de ser culto, inteligente ou o que quer que seja, mas acredito que ser coerente dentro do seu próprio universo é algo necessário. Do contrário, resta somente o entretenimento e, no caso de Parque do Inferno, por pouco nem isso.

Parque do Inferno pode ser assistido pelos assinantes do Telecine Play.

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