Crítica | 365 Dias é um olhar pobre e covarde que romantiza sequestro e estupro

Por Sihan Felix | 16 de Junho de 2020 às 08h51
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Dentro da proposta que tenho, enquanto crítico, de servir meu texto como uma forma de prolongar a experiência de quem assistiu aos filmes, confesso que, às vezes, fico um tanto quanto perdido. Essa sensação geralmente parte de um sentimento ruim sobre a obra, como se prolongar o que vi, além de ser desconfortável para mim, fosse se tornar agressivo para quem for ler o texto. Essa agressividade pode ser mais fácil e ir para o lado do sarcasmo, como quando escrevi as críticas sobre A Ilha da Fantasia (de Jeff Wadlow, 2020) e Rota de Fuga 2: Hades (de Steven C. Miller, 2018) – que escolhi premissas semelhantes para desenvolver a escrita –, mas também pode não encontrar qualquer motivo para rir, como agora enquanto escrevo sobre 365 Dias, filme que estreou recentemente na Netflix.

Atenção! Esta crítica contém spoilers sobre o filme!

O que ela está perdendo

O filme polonês – baseado na obra da escritora também polonesa Blanka Lipinska – começa procurando dar profundidade psicológica aos seus protagonistas. Massimo (Michele Morrone) vê o pai ser baleado e morto em sua frente enquanto Laura (Anna Maria Sieklucka) é profissionalmente menosprezada, além de ser sexualmente rejeitada pelo namorado. Não há perda de tempo na resolução desses pontos: enquanto ele parece se tornar um sujeito implacável após o trauma, ela encontra refúgio em seu vibrador. Apesar de ser bem direto nessas questões, há uma entrelinha que pode ser clara e que introduz o erotismo: ambos procuram descarregar suas tensões por meio do sexo.

Refúgio sexual solitário. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

E não há nada de errado nisso. O sexo, de fato, pode ter um poder enorme no relaxamento da mente e do corpo. Por outro lado, a direção de Barbara Bialowas (de Big Love – filme de 2012) e do debutante Tomasz Mandesmas é confusa (sendo bondoso) na representação dos primeiros atos: ao mesmo tempo em que Laura masturba-se como se posasse para a capa de uma revista masculina, Massimo estupra uma comissária de bordo. Pode ser (por que não?) que a sensualidade da masturbação dela seja verossímil – não há motivos para julgar o ato em si –; a questão é que essa preparação não busca expor a liberdade sexual da personagem (o que seria valioso), mas parece justificar, por antecipação, a necessidade dela por um homem que a satisfaça. Do outro lado, a comissária de bordo chora ao fazer sexo oral em Massimo para, no fim, esboçar um sorriso que parece dizer que gostou de ser estuprada – ou que ser violentada não é nada comparado ao retrogosto celeste do membro e dos fluidos daquele homem.

A comissária chora... (Imagem: Captura de tela: Sihan Felix)
e depois sorri. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

A confusão inicial da direção logo se entrega a um esquema ainda mais sofrível e, com isso, prova que não era exatamente confusão, era falta de noção. Ao unir a história dos protagonistas por meio de um sequestro que, por sua vez, é justificado pela paixão compulsiva de Massimo, o roteiro parece não saber exatamente o que é erotismo e o que é abuso. Há, nesse sentido, uma degradação da força feminina em prol do apetite sexual de um criminoso. Em certo ponto, por exemplo, ele a prende na cama com um instrumento de estupro que poderia lhe dar “acesso a qualquer parte do corpo” dela e, chamando outra mulher, diz algo como “agora eu vou te mostrar o que você está perdendo”.

Se, ingenuamente, pode surgir a crença de que ele fará essa nova personagem gozar por horas nesse ponto para, realmente, mostrar para Laura o que ela está perdendo – sem que isso lhe eximisse de ser sequestrador e estuprador –, o que ele faz é, novamente, receber sexo oral. A menos que seja possível gozar pela boca ou que, de fato, Massimo seja reconhecido por ter gosto de brownie (e sem excluir as mulheres que verdadeiramente gostam), talvez não tenha como imaginar o que Laura, presa e exposta na cama, estava perdendo naquele momento.

"Olha o que você está perdendo!" (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Orgasmo e música

Ainda que os temas da Síndrome de Estocolmo e da supervalorização da masculinidade possam construir pontes para a crueldade do tráfico de mulheres – que, em sua maioria, não se dá como na marginalizada realidade do filme Busca Implacável (de Pierre Morel, 2008) –, existe uma romantização inaceitável desses processos. Essa fantasia sombria, inclusive, tem poder suficiente para ceder armas para homens que não aceitam rejeição e se torna mais perigosa quando mulheres se expõem na defesa do que é mostrado em 365 Dias.

É claro que as cenas de sexo entre Massimo e Laura são esteticamente atraentes – particularmente a sequência no barco –, mas elas mascaram toda a debilidade do filme e também podem esconder a toxicidade para o público mais vulnerável e, de algum modo, carente. E aí está o pior: o filme se aproveita do machismo estrutural e, junto a este, da falta de disponibilidade de parte dos homens para dar prazer (apenas 65% das mulheres chegam ao orgasmo em uma relação heterossexual – de acordo com estudo publicado no periódico Archives os Sexual Behavior) para romantizar o abuso.

Frame da sequência no barco. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

É verdade que Laura, inicialmente, rejeita-o e busca fugir. Até mesmo em seu primeiro passeio, quando Massimo a leva às compras, existe uma tentativa de fuga dela. Mas, quando ela percebe que não tem saída e que o controle dele se estende junto à polícia, 365 Dias passa a se direcionar no sentido da conformação: se não há como sair, há de se aproveitar. Esse é o mote do tráfico de mulheres praticado pelos poderosos – o que é exposto, inclusive, na minissérie documental Jeffrey Epstein: Poder e Perversão (também disponível na Netflix).

Sem saída... (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Tudo o que é construído pela visão de Bialowas e Mandesmas é muito errado. Como se não bastasse o olhar tão irresponsável sobre o tema, as faltas de talento estético e de estilo permanecem expostas durante todo o filme. Enquanto, inicialmente, há uma brincadeira com os tons da fotografia de Bartek Cierlica (de Jak zostalem gangsterem. Historia prawdziwa) – que ilumina as cenas dele de amarelo e as dela de azul, parecendo bem amador ao buscar tonalizar os personagens de maneiras opostas –, a trilha sonora de Mateusz Sarapata e Michal Sarapata transforma o filme em uma sequência quase ininterrupta de clipes musicais. Com uma canção emendada na outra – algumas interpretadas pelo próprio Morrone, que é cantor – durante quase as duas horas de duração, pode ficar claro que não existe a menor intenção de construir algo relevante.

Ele, amarelo. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)
Ela, azul. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

O poder da união entre canções e sexo é tanto que o filme ergue uma barreira que parece dizer para que o espectador releve as atrocidades e aproveite a beleza da dupla e todo o erotismo. Essa abordagem, além de incompetente, é covarde, porque talvez fosse óbvio que existiria público que, não por culpa própria, mas do sistema, procuraria justificar tudo e criar argumentos como: “ela poderia ter ido embora quando teve o celular e o notebook de volta”.

Olhar pobre e covarde

Bialowas e Mandesmas não são, somente, sem talento e sem noção (ou com noção maldosa), eles são igualmente pretensiosos (abalizados pela obra original) ao construir referências óbvias com O Poderoso Chefão (de Francis Ford Coppola, 1972) – também saído da literatura. Ao passo que um personagem da família chamado Alfredo é assassinado pelo próprio Massimo por traição, este (Massimo) foi obrigado a assumir a família após a morte do pai. Além disso, a Sicília é uma locação bem explorada no filme e a personagem de Morrone é, em certo momento, chamada de Don. Além do mais, a silenciosa consternação dele após a última morte (ou provável morte – visto a possibilidade doentia de uma continuação) é, inclusive no plano escolhido, semelhante à última perda enfrentada por Michael Corleone (Al Pacino) em O Poderoso Chefão III.

Don Massimo sentindo a sua perda. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

No final das contas, 365 Dias pode ter cenas de sexo isoladamente bem bacanas e pode ser até excitante para alguns (o que é preocupante em níveis pessoais e sociais), mas isso não justifica sua existência. Não deveria ser sexy um homem que dopa, sequestra, ameaça, diz que não vai tocar (e está se referindo somente ao ato sexual) ao mesmo tempo em que toca pernas e seios e amarra em uma cama com um objeto de estupro. Não deveria ser culpa de uma mulher, construída como carente e com uma família que parece não se importar, as atitudes submissas. A romantização de uma síndrome como a de Estocolmo, do abuso sexual e do estupro é cruel. E é sintomático que a direção de um filme tenha um olhar tão pobre e covarde.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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