Cuba: abertura revela esquema bizarro de acesso a conteúdo na internet

Por Sérgio Oliveira | 26 de Novembro de 2016 às 10h55

Por décadas Cuba foi descrita como uma nação misteriosa e reclusa governada por um ditador alucinado que sequer queria ouvir de capitalismo. Aos poucos, essa realidade está mudando graças a abertura econômica que paulatinamente vem sendo promovida por Raul Castro e cada vez mais o arquipélago caribenho vem se aproximando das grandes nações capitalistas.

Esse processo, claro, tem permitido que os cubanos experimentem várias tecnologias que antes eram deveras proibitivas, seja por restrições do governo local seja pelos preços exorbitantes cobrados por elas. E uma delas é a nossa mais do que conhecida internet, que aos poucos vem sendo oferecida para a população da ilha - em alguns pontos até de forma gratuita.

O mais interessante de tudo é que esse mix de abertura econômica e maior popularidade da internet tem evidenciado situações para lá de bizarras, principalmente no que diz respeito a obtenção de conteúdo que normalmente acessamos com uma simples pesquisa no Google ou YouTube. Explicamos: em Cuba, todo e qualquer tipo de mídia é de propriedade do governo e a população só tem acesso ao que as autoridades permitem. O problema é que a gente sabe que é um tanto quanto difícil controlar as coisas quando estamos falando de internet e computadores. E os cubanos, claro, têm um esquema digno de cartel de drogas para difundir conteúdo multimídia que antes era proibido.

Quem conta como funciona o esquema é a jornalista Sarah Kessler, que há algum tempo relata como os habitantes do país vêm lidando com o acesso à internet. Ela conta que algumas pessoas estão se aproveitando do caro acesso à internet para montar negócios baseados na venda de arquivos. Em locais discretos, essas pessoas geralmente têm apenas um computador repleto de programas, videoclipes, músicas e jogos de videogame, que são vendidos aos clientes em pendrives.

Locais como a
Locais como a "Garag Digital" funcionam como uma espécie de cyber café, só que com apenas um computador controlado pelo proprietário do local. Além de impressões e consertos de computadores, local é "revendedor oficial" do chamado "Le Paquete Semanal". (Imagem: Reprodução / Fast Company)

Não é errado dizer que essas pessoas funcionam como um intermediário entre o grande público e o mundo que conhecemos aqui fora na Internet. É tanto que vários lugares vendem o "El Paquete Semanal", uma espécie de apanhadão de tudo o que bombou na rede tanto na ilha quanto no restante do mundo. Clientes assíduos do tal pacote levam seus pendrives a muquifos tecnológicos, que também oferecem serviços como impressão e manutenção de computadores, toda semana e saem de lá com o que há de mais "moderno" no momento para visualizar offline no computador de casa.

E é assim mesmo, offline, que a maioria dos cubanos sabe o que está rolando de bom na rede. Há um app interessante, chamado Revolico, que funciona como uma espécie de MercadoLivre, onde as pessoas anunciam todo tipo de apetrecho possível, com formas de contato e meios de pagamento para receber ou ir buscar o produto - nada de lances online e pagamento em cartão de crédito.

Adolescentes revendem o conteúdo adquirido nos
Adolescentes revendem o conteúdo adquirido nos pontos de venda "oficiais" do "Le Paquete" em toda sorte de local, até mesmo debaixo de escadas em localidades mais afastadas, num verdadeiro esforço coletivo para acesso à informação (Imagem: Reprodução / Fast Company)

Restaurantes, por sua vez, anunciam seus serviços em outro "app", AlaMesa, que cobra extras para adicionar opções de menu e imagens dos pratos. Artistas também têm seu espaço reservado no Vistar, uma espécie de revista-guia com os melhores artistas locais para a população local e turistas. "Temos muitos bons artistas em Cuba e eles nunca tiveram a oportunidade de divulgar seus trabalhos como o estão fazendo agora", diz Robin Pedraja, diretor criativo do Vistar, que mantém uma equipe de 20 pessoas para elaborar conteúdo para o app.

Como dissemos anteriormente, todo conteúdo de mídia é de propriedade do governo cubano, logo você já deve ter percebido que o "El Paquete" é algo ilegal - e realmente é. Ainda assim, a população não se importa e acredita que esse método obscuro de obter acesso à informação é benéfico para todos. O próprio governo sabe da existência do pacotão, mas aparentemente não encontra meios de impedir sua distribuição já que o local exato de origem do apanhadão semanal é desconhecido.

Apesar de uma aparente natureza amadora, a verdade é que o apanhadão semanal conta com conteúdo de qualidade, como o da revista
Apesar de uma aparente natureza amadora, a verdade é que o apanhadão semanal conta com conteúdo de qualidade, como o da revista "Vistar". Foco da publicação é a divulgação de artistas locais, que "nunca tiveram a chance" de verdadeiramente mostrar seu trabalho (Imagem: Reprodução / Fast Company)

Questionados sobre de onde vem aquilo, ou como ele chega em suas mãos, os distribuidores desconversam e dizem que o local de origem do "El Paquete" é igual a caviar e todo mundo só ouve falar. "É uma lenda", alguns afirmam. Apesar de todo esse mistério, há quem acredite que o sistema que mais parece uma rede de torrents offline começou com um jovem chamado Elio Hector Lopez, de 26 anos.

Em 2008, quando era empregado de um banco em Cuba, Elio começou a usar a internet do local para baixar músicas e montar setlists para tocar na noitada cubana. Vários DJs começaram a procurá-lo e ele começou a cobrar pelas faixas, transformando o hobbie em um negócio. A partir de então, o rapaz começou a baixar outros tipos de conteúdo - jogos de videogame, filmes, videoclipes, séries de TV - e reuniu tudo isso num pacotão inicial de 500 GB e um arquivo de texto com informações para quem quisesse fazer parte do "bolo".

Entrevistado pela jornalista, o "magnata" da internet de Cuba - que na verdade diz ganhar pouquíssimo dinheiro com a empreitada - conta que todo o processo envolve o hackeamento de um satélite de telecomunicação, que fornece acesso à internet a ele seus "comparsas". Além disso, várias pessoas de Cuba e de outros lugares do mundo são pagas pela equipe de Elio para enviar conteúdo em pendrives ou HD externos para ele, seja por carro, embarcação ou avião. A partir dali o conteúdo é repassado para revendedores, que cobram aproximadamente a pequena fortuna de US$ 2 por 16 GB de arquivos num pendrive.

Elio Hector Lopez é considerado o criador do
Elio Hector Lopez é considerado o criador do "El Paquete". Segundo ele, montagem do pacotão envolve o hackeamento de um satélite de comunicação e envio de pendrives até mesmo do exterior (Imagem: Reprodução / Fast Company)

Para maximizar os ganhos, Elio e sua equipe também aceitam encomendas de publicidade, que pode ser inserida no final de músicas e arquivos de vídeo. Segundo ele, graças a essas edições nesses arquivos para inserção da publicidade é que eles conseguem dobrar o faturamento.

A maracutaia, digna de tráfego de drogas em favelas brasileiras, já é tão conhecida no território comunista que até mesmo ex-funcionários do alto escalão do governo a conhecem - e a defendem. "Proibir é estupidez", defende Carlos Alzugaray Treto, que já trabalhou como diplomata para o governo do país. "Não há como fazê-lo. Envolveria o desmantelamento de muitos pequenos negócios, o que torna isso inviável", argumento. Elio vê tudo com outros olhos e acredita que "acabar com isso irá revoltar a população, que acabará se voltando contra o governo".

Com a internet cada vez mais acessível, no entanto, é provável que "El Paquete" acabe por si só. À medida que o acesso for se popularizando, cada vez mais empresas investirão no país, o que acabará minando a atuação de Elio e sua trupe. Ele mesmo tem consciência disso e expõe que a chegada de serviços como Yelp e eBay "fará o apanhadão desaparecer" do mapa e obrigará aqueles que atuam na "internet offline" do país a migrarem para o que conhecemos, de fato, como internet.

Fonte: Fast Company

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