Inspiradores | Influencers cegos mostram os detalhes de sua realidade

Por Nathan Vieira | 13 de Agosto de 2020 às 13h20
Arquivo pessoal/Marcos Lima

Uma positividade em relação às redes sociais é que elas podem dar voz às pessoas que normalmente não têm muito espaço para se expressar em outros lugares. Com isso, enquanto influencers e YouTubers compartilham seu estilo de vida e geram conteúdo para os usuários dessas plataformas, minorias embarcam nesse mesmo segmento, com o objetivo inclusive de gerar identificação e exibir detalhes de sua realidade que nem sempre ficam tão claros assim. E foi com isso em mente que o Canaltech deu início à série Inspiradores, falando justamente dessa área dos influenciadores digitais. Nesse caso, que é o último da série, falamos sobre influencers cegos. Confira os outros episódios:

Primeiro conversamos com Leon Grupenmacher, oftalmologista e professor da Escola de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), que nos esclareceu sobre as diferenças entre a deficiência visual e a cegueira (sim! Tem diferença). O especialista nos esxplica que a deficiência é medida percentualmente em relação à visão ideal, já a cegueira existe quando não há correção dessa deficiência. Ou seja, a deficiência pode ser corrigida total ou parcialmente, já a cegueira não tem correção.

Leon acrescenta: "A cegueira mais comum é a adquirida por acidente, seja por doença, sendo a mais comum a diabetes. Existe também a cegueira de nascença, sendo a mais comum causada por toxoplasmose. As crianças que nascem cegas aprendem desde muito cedo a lidarem com isto, aprendendo a serem independente, estudando, praticando esportes etc". E prova dessa independência é justamente o número cada vez mais crescente de cegos como digital influencers. Entrevistamos dois deles: Marcos Lima, do canal Histórias de cego, e Ana Claudia Souto, do canal Cegamente Incrível.

Histórias de cego

Existe vida após a cegueira. Essa é a frase mais utilizada pelo palestrante Marcos Lima, que possui o canal Histórias de cego desde 2016. Atualmente, seu canal ostenta 178 mil inscritos e mais de 4 milhões de visualizações. "Eu me tornei YouTuber como uma continuidade do meu trabalho. Dou palestra há muitos anos, mas nas palestras falo para 50 pessoas no máximo. Quando faço um vídeo, posso falar para muita gente. Tanto que meu canal tem mais de quatro milhões de visualizações, o que eu não teria numa palestra de jeito nenhum. Então o canal acaba servindo para isso, para expandir e mostrar meu trabalho", explica.

Em seu canal, Marcos aborda principalmente como é a rotina de uma pessoa cega. "O meu canal não é voltado para pessoas com deficiência visual. O objetivo do meu canal é informar, tirar as dúvidas das pessoas que enxergam e que não têm contato com pessoas cegas. Tanto é que grande parte dos meus vídeos é respondendo questões que as pessoas cegas já sabem a resposta, do tipo 'como os cegos sabem que estão acordados', 'como cegos usam celular', 'como cegos se orientam nas ruas', etc", conta o influencer.

Marcos conta que o YouTube facilita muito para poder falar com as pessoas, uma vez que aborda os aspectos positivos da pessoa com deficiência. "As pessoas pensam que, por ser cego, você é uma pessoa triste, sempre chorando, buscando a cura o tempo todo, e acho que o YouTube é uma forma maravilhosa de você desmitificar tudo isso. Então para mim, o mais importante do canal é isso, poder desmitificar", relata.

No entanto, o canal em questão não é focado unicamente no público que não é cego, e acaba também gerando identificações. "Mas claro, o canal acaba sim atingindo pessoas cegas. Já recebi comentários, muitos inclusive, já encontrei pessoas. Por exemplo: uma menina que estava perdendo a visão e veio falar que assistia ao meu canal e que ajudou muito, e meu canal mostrou que existe vida após a cegueira, que é uma frase que eu falo muito no canal", conta. Então acho que as redes sociais e o YouTube proporcionam muito isso, que as pessoas consigam encontrar algum conforto para o que elas estão buscando", opina o influenciador.

De qualquer forma, Marcos deixa claro que o objetivo principal do canal é romper os preconceitos. "O maior objetivo é isso, mostrar que nós, cegos, somos pessoas normais, que a deficiência não nos define enquanto pessoas. O canal serve para isso, para mostrar a minha vida e como que uma pessoa cega pode ter diversos outros interesses que não a deficiência. É claro que tem comentários preconceituosos, tem haters, mas faz parte. E na verdade eu penso o seguinte: se não tivesse preconceito, por que teria o canal? Então sinceramente eu acho que as redes sociais têm muitas coisas ruins mas você também pode fazer muitas coisas boas com elas".

Cegamente Incrível

O canal começou em 2015, três anos depois que Ana perdeu a visão, situação que ela descreve como divisora de águas em sua vida. Ana acompanhava alguns canais de música, depois foi descobrindo que as pessoas que estavam lá cantando pra divulgar o trabalho também gravavam seu dia-a-dia. Sempre apaixonada por fotografia e música, resolveu unir suas paixões sem nenhuma pretensão. "Eu tinha um propósito que era mostrar para minha família e amigos que a deficiência era apenas um detalhe. Perder a visão em 2012 foi um divisor de águas. Provavelmente, eu não estaria criando meus vídeos hoje e alcançando tantos corações se isso não tivesse acontecido", conta a YouTuber, que já acumula mais de um milhão de visualizações em seu canal, cujo conteúdo hospedado já ultrapassa os 300 vídeos.

"Quando eu comecei no YouTube, encontrei poucos canais de cegos mostrando a rotina. Eram vídeos mais apenas falados sobre tecnologia. Então, por que não eu? Me arrisquei. Conquistei primeiro as pessoas que enxergam. Depois fui ganhando confiança entre os cegos. Quando eles descobriram que ser YouTuber era possível, muitos entraram em contato", conta a influenciadora e YouTuber. Questionada diante desse público, Ana afirma: "Hoje, são centenas de pessoas cegas mostrando seu valor. Sinto muito orgulho por cada uma delas. Cada um que hoje está na plataforma é merecedor. Cada um com seu carisma".

Sobre o feedback das pessoas em relação ao seu conteúdo, Ana conta: "Tem um vídeo meu com quase um milhão de visializações com o título 'como fiquei cega em 2 segundos'. Esse vídeo foi o salto para o crescimento do canal. Recebi muitos comentários dizendo que eu estava mentindo. Outros disseram que eu levei oito mundos pra contar que eu perdi a visão em dois segundos. Vem piada. Vem de tudo. Eu acho graça. Vou lá e respondo sempre com educação".

Ana também investe numa frase de efeito: a cegueira é apenas um detalhe. "Nunca deixei que quem eu sou se resumisse em apenas ser cega. Eu sou a Ana que perdeu a visão, sim, mas que faz mil coisas: estuda, dança, canta, fotografa, é casada e, por último, é cega", explica. A influencer conta que numa época sem esse acesso ao YouTube, as informações chegavam muito devagar não só para ela, mas que agora as pessoas cegas, além da rotina em casa, trazem informações sobre educação, cultura, direitos... "E somando com a divulgação nas redes sociais, isso nos faz ainda mais existentes na sociedade", aponta.

Questionada diante da importância de romper os tabus e de mostrar para as pessoas que a cegueira é apenas um detalhe, Ana conta que, na verdade, é um desafio. "Existem muitos detalhes que eu ainda não conheço, que eu ainda não aprendi. Entretanto, mostrar quem eu sou e como eu vivo é libertador. Todas as noites, eu coloco a cabeça no travesseiro e posso dizer pra mim que foi sim cansativo, mas que eu venci mais um dia. É essa experiência, essa sensação que eu desejo que todas as pessoas, seja qual for sua deficiência, consigam vivenciar. A limitação está em nossa mente. Então, alimente-a com possibilidades".

Ana conclui: "Todos nós temos uma história de superação. É importante que a gente compartilhe para inspirar os demais. Existem milhões de pessoas que precisam te ouvir que existe uma esperança, que é possível recomeçar".

Outros influencers

Além de Marcos e Ana, há vários outros influencers cegos que também cumprem esse papel de gerar identificação e de tirar dúvidas das pessoas em relação a como é essa realidade. É o caso, por exemplo, da carioca Nathalia Santos, de 24 anos, cujo canal se chama "Como assim cega?". A estudante de jornalismo já chegou a participar de alguns programas de televisão e em 2016 foi convidada a posar ao lado de Naomi Campbell, no editorial de aniversário da revista Vogue. Em seu Instagram, ela já acumula mais de 45 mil seguidores, e seus vídeos no YouTube juntam mais de 280 mil visualizações.

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Somos no mundo 1 bilhão de pessoas com deficiência e no Brasil cerca de 46 milhões. Fico me perguntando: como pode tanta gente assim com tanta invisibilidade e ignorada da maneira que somos? Hoje; “Dia mundial da Pessoa com Deficiência”, queria estar comemorando alguns avanços, mas não posso deixar de falar sobre o retrocesso que vai acontecer caso a PL 6159 passe, pois ela põe abaixo todos os direitos que temos com a lei de cotas. Dentre tantos absurdos essa proposta diz, por exemplo, que se uma empresa não cumprir a lei de cotas ela pode pagar o equivalente a 2 salários mínimos e tá ótimo... A verdade é, que esse ano, muitos direitos alcançados com a LBI (lei brasileira de inclusão), estão sendo arrancados aos poucos e na calada da noite. Gostaria de saber que proteção é essa que a Senhora Michele Bolsonaro disse que nós PCDs (pessoas com deficiência) teríamos - no seu primeiro discurso como primeira dama - que teve até interprete de libras (língua brasileira de sinais). Não sei se é porque sou cega e não to vendo as coisas acontecerem ou se realmente não tá rolando, e ainda pior, o que já tínhamos está desaparecendo... aonde vamos parar? . #PraCegoVer: Nat posa para a foto na Avenida Paulista. Ela sorri para a câmera segurando a sua bengala, usando um vestido branco, justinho - até o joelho, de manga longa.

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A YouTuber Vanessa Bruna também compartilha o seu dia a dia na plataforma de vídeos em seu canal chamado Cego em ação, com um conteúdo voltado tanto para pessoas cegas, como também para aqueles que desejam entender um pouco mais de sua rotina: "Conhecer, desmitificar, quebrar barreiras e reaprender. Aqui é o lugar. Eu aprendi muito depois que perdi a visão", consta a descrição do canal.

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