Inspiradores | Influencers com paralisia facial se conectam com público

Por Nathan Vieira | 13 de Maio de 2020 às 16h55

Você provavelmente já correu até o Google para ver o que significava aquela dor diferenciada, aquele sintoma fora do convencional que apareceu no seu corpo e te assustou. Acertamos? Acontece que a tecnologia tem sido uma boa aliada da área da saúde, pois proporciona a chance de nos informarmos muito mais rápido a respeito de determinadas doenças. Além de encontrar nos sites especializados e nos mecanismos de busca informações embasadas sobre essas doenças, a internet também possibilita conhecer outras pessoas que têm ou tiveram patologias parecidas, o que enriquece ainda mais a compreensão — algo ideal para se conscientizar antes de, claro, procurar ajuda de um médico.

E para fechar o especial sobre influencers inclusivos e inspiradores, que de alguma forma aproveitaram as redes sociais para utilizá-las como um espaço de informação e rompimento de barreiras, o Canaltech apresenta influencers que têm ou tiveram paralisia facial, e ajudaram o público a entender melhor essa realidade e até gerar identificação/acalmar pessoas que também estão com o rosto paralisado.

No entanto, antes de conhecer os influencers propriamente ditos, é preciso entender clinicamente como é que funciona essa paralisia facial, que também é conhecida como paralisia de Bell ou paralisia facial periférica. Para isso, conversamos com Maraísa Theodoro, fisioterapeuta da DaVita Serviços Médicos. A profissional descreve a afecção, inicialmente, como um distúrbio que causa o enfraquecimento ou paralisia dos músculos de um lado do rosto, o que ocorre por causa da inflamação do nervo facial, que acaba inchado e fica pressionado contra o osso da face, fazendo com que os impulsos elétricos responsáveis por enviar informações para os músculos da mímica facial sejam comprometidos.

"Geralmente os sintomas são a dificuldade dos movimentos de um lado da face, como levantar a sobrancelha, franzir a testa e fechar o olho, além do desvio da boca para o lado bom (a boca desvia para o lado em que o músculo está forte)", explica a fisioterapeuta. "Mas em alguns casos mais graves pode ocorrer o ressecamento do olho (devido à falta de produção de lágrimas e ficar constantemente aberto), diminuição do paladar, produção excessiva de saliva (levando o paciente a babar) e até sensibilidade aos ruídos e dores de cabeça", acrescenta.

De acordo com a fisioterapeuta, coisas simples como soprar, assobiar ou conter líquidos na boca ficam comprometidas na paralisia de Bell, e a fisioterapia acelera o processo de recuperação, ajudando no controle da inflamação e estimulando os músculos do rosto que, como qualquer outro músculo do corpo, depois de um tempo parados, precisam reaprender a se movimentar e coordenar os movimentos.

Maraísa reitera que, no geral, a paralisia de Bell tem um bom prognóstico, ou seja, a chance de recuperação é grande, geralmente a pessoa se recupera completamente entre três semanas e nove meses, dependendo do quanto foi acometida. "Em pouquíssimos casos pode haver sequelas, que geralmente são mais estéticas, como manter um leve desvio na boca, ou dificuldade de levantar a sobrancelha, ou ainda movimentações involuntárias, como desviar a boca ao piscar forte ou levantar a sobrancelha ao sorrir. Na grande maioria dos casos a recuperação é completa", aponta.

Em contrapartida, por se tratar de uma inflamação, quanto antes for diagnosticada, melhor será o tratamento e consequentemente mais rápida será a recuperação. Maraísa relembra que, quanto mais inflamado o nervo, mais inchado ele ficará e, com isso, mais comprimido contra o osso ele vai estar. E quanto maior a compressão, maior será o comprometimento dos músculos e mais trabalhosa será a recuperação.

"A internet é uma ferramenta incrível que pode auxiliar muito para tirar dúvidas e orientar sobre diversos assuntos. Muitos profissionais (inclusive fisioterapeutas) hoje em dia utilizam essa ferramenta para divulgar seu trabalho, mas é preciso ter cuidado. O YouTube pode auxiliar, porém nunca deve ser usado como único tratamento", orienta a fisioterapeuta. "Nada substitui a avaliação de um profissional para direcionar um tratamento personalizado. Na saúde não existe uma receita de bolo, cada indivíduo é único, e reage de forma diferente, por isso o tratamento não pode ser igual para todos", conclui.

Influencers com paralisia

Dito isso, imagine o seguinte: você acorda com o rosto simplesmente paralisado de um lado, corre para o hospital e é diagnosticado com essa paralisia facial periférica, da qual nunca ouviu falar. Entra em pânico, questionando sobre como vai viver com essa paralisia, e joga os termos na internet em busca de alguma informação. O que aparece? Uma safra de influencers que também tiveram ou ainda têm essa doença, mostrando detalhes de seu cotidiano, de sua recuperação, e dizendo que apesar de tudo, não é motivo para se desesperar. Conversamos com o influencer e YouTuber Mauro Nakada, que conta com quase três milhões de inscritos em seu canal, e 1,5 milhão de seguidores em sua conta do Instagram.

Mauro conta que teve um torcicolo numa quarta-feira, sentiu uma dor na nuca, no lado direito, e achou que era por dormir em uma posição errada. No entanto, o torcicolo não passou, e mesmo com ele fazendo movimentos com o pescoço, a dor não mudava. Foi então que ele percebeu que não era uma dor de movimento, era algo mais parecido com uma inflamação. Dois dias depois, começou a se sentir um pouco diferente, e seus amigos chegaram a alertar que meu lábio estava um pouco inchado.

Mauro acordou no sábado com o olho ardendo, e não tinha visto o que tinha acontecido direito. Ao tomar café da manhã, não estava conseguindo beber, e percebeu que o café estava escorrendo completamente. Foi então que, olhando seu reflexo no espelho, o rapaz percebeu que seu rosto estava bem recaído, mole. "Fui para a casa dos meus pais e a gente correu para o hospital, para fazer o diagnóstico com o médico que estava de plantão. Ele disse que eu deveria ter ido urgentemente mesmo, porque tem gente que vai e começa a tomar o medicamento só depois de três dias. O vírus da herpes inflamou o meu tendão, que parou de mandar informação para o músculo", conta o influencer.

Mauro Nakada fez três vídeos no YouTube sobre a paralisia: quando teve, um mês depois e quando voltou a sorrir. Só o primeiro teve mais de três mil visualizações na plataforma. "O YouTube recomenda bastante esses vídeos, porque eu recebo mensagem até hoje, e isso aconteceu vai fazer um ano. Muita gente que apareceu com a paralisia facial e buscou o vídeo querendo informação. Eu quando tive a paralisia facial, segui outras pessoas no Instagram que estavam com o problema para que eu pudesse acompanhar a evolução delas", relembra o influencer.

Faz 11 meses que Mauro teve a paralisia facial, e ele ainda sente algumas sequelas. "Às vezes, o músculo do olho fecha um pouco mais quando eu sorrio, por exemplo". Ele conta que a paralisia foi uma confusão mental, porque de uma hora para outra, acordou sem movimento no rosto, e todos os planos ficaram congelados por tempo indeterminado, já que ninguém sabia dizer quanto tempo levaria para a sua recuperação.

"O meu corpo que ia dizer isso. E aí eu não sabia o que ia ser da minha vida, quanto tempo ia levar até eu mexer o rosto, voltar a sorrir, conversar, piscar, ouvir (porque o ouvido também foi afetado). O lado direito do meu rosto ficou muito sensível. Foi um exercício de paciência, porque eu olhava no espelho todo dia e não sabia quando eu ia ficar bom. Fiquei de abril até setembro esperando", o influencer conta.

De acordo com Mauro, quando teve a paralisia facial, jurava que levaria apenas cinco dias para passar. "Estou até hoje sentindo um pouco no meu rosto. Então meu plano era desaparecer por uma semana e nem falar sobre isso. Passou uma semana, duas, três, e aí eu vi que talvez fosse demorar, e que eu precisava dar um feedback para a galera. E foi a melhor coisa que eu fiz", afirma. "Ainda bem que apareci. E foi a época que eu apareci mais, porque eu fiz o primeiro vídeo avisando que tive a paralisia facial e que estava me recuperando, e o feedback foi interessante, vi que o tempo foi passando e a galera me perguntava como eu estava", relembra.

Mauro revela que estava bem otimista, e se sentia melhor a cada dia, e enquanto isso as pessoas iam acompanhando a evolução nos stories. No entanto, o que lhe cansou foi a espera. "As pessoas só me perguntavam sobre isso, então eu tinha que ficar toda hora falando disso, explicando o que aconteceu. Na primeira vez foi legal explicar. O que eu mais recebia era 'Quando vai ficar bom?', e isso me deixava angustiado porque eu não sabia, nem o médico sabia. Para todo mundo, eu tinha que falar a mesma coisa. Ter que viver com uma coisa aparente em que todo mundo podia comentar e perguntar me deixou exausto, por ter que dar satisfação do meu rosto para todo mundo", desabafa.

Apesar de tudo, Mauro acredita que a paralisia facial foi uma experiência. "A gente pode viajar e ter uma experiência numa viagem. A gente pode conhecer alguém e ter uma experiência com essa pessoa. Eu tive uma experiência com uma doença e mudou muita coisa sobre como eu enxergo o mundo, as outras pessoas, uma doença. Porque eu nunca tinha passado por um momento assim, delicado, na minha vida. Foi a primeira vez. Fiquei muito mais maduro depois da doença, porque eu tive que lidar com várias realidades, entender o processo de cura, como funciona o corpo", conta.

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meu rosto. congelou. mas já ta tudo certo :)

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Além disso, Mauro também associa a doença a um aprendizado. "Acabei aprendendo muita coisa com isso ,então não acho que tenha sido uma experiência negativa. Com certeza me trouxe bagagem. Eu gostaria de passar por isso de novo, nunca, porque foi muito exaustivo. Sinto os reflexos da exaustão até hoje, um pouco... mas valeu a pena. Isso me trouxe bons pensamentos que talvez eu não tivesse. Clareou muita coisa, e me fez dar valor a coisas mais simples, que eu não dava antes. Hoje dou muito valor à minha saúde, ao meu bem estar. Está tudo relacionado com a forma como a gente vive", afirma.

Mauro afirma que, para quem teve ou vai ter paralisia facial um dia, ou qualquer outra doença: é preciso, primeiro de tudo, entender o processo de recuperação. "Enquanto eu não entendia o processo de recuperação, ficava muito confuso na minha cabeça o porquê de ter acontecido e como isso se resolveria. Com o tempo fui aprendendo como o rosto funciona, o porquê de cada remédio, o porquê de cada exercício, o porquê de cada estímulo", conta.

O influencer reitera que, entendendo o processo de recuperação, ficou tudo mais claro, e então viu que dependia só de si mesmo, de fazer exercícios todos os dias, cuidar de sua cabeça, entender que ia levar um tempo mesmo porque o músculo do rosto é muito frágil. "E sabendo disso, não coloquei a culpa em ninguém, porque às vezes a gente não entende e coloca a culpa em alguém, no médico, por exemplo, mas cada corpo é um corpo, e a gente tem que entender o processo e tentar ficar bem. A gente quer ficar bem. Tudo o que eu queria era ficar bem física e psicologicamente", aponta. "O abalo psicológico foi tão grande quanto o abalo físico. Então minha missão sempre foi tentar encontrar o conforto, entender a ordem das coisas. Foi bem cansativo, mas ganhei bastante coisa com isso, sim", conclui o rapaz.

Outra digital influencer que está com paralisia facial é Dainara Pariz, que conta com mais de três milhões de seguidores em seu perfil do Instagram, e também tem um canal no YouTube. A criadora de conteúdo traz à tona diversos detalhes de seu cotidiano e de como lida com a paralisia.

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Simm! Eu to sorrindo eu to tão feliz ✨😍😭 isso è tao importante para mim

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Bru Soato, também criadora de conteúdo, teve a paralisia de Bell em 2017 e já se curou. Em seu canal do YouTube e em sua página do Instagram, a garota conta direitinho como foi o processo de recuperação, e também ajuda o público a entender melhor como lidar com a paralisia no dia a dia, contando suas histórias e passando a sua experiência.

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