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Como povos do passado lidavam com traumas de guerra?

Por| Editado por Luciana Zaramela | 22 de Dezembro de 2023 às 08h22

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The Crusader Bible/The Morgan Library & Museum
The Crusader Bible/The Morgan Library & Museum

A guerra é uma atividade humana presente há milênios — a primeira da qual temos registro histórico aconteceu na Mesopotâmia, em 2.700 a.C., entre as extintas civilizações da Suméria e de Elam. Desde então, é seguro afirmar que nunca paramos, com períodos curtos de paz bastante relativa, já que conflitos menores ocorrem o tempo todo. Assim como hoje, nossos antepassados também tinham que lidar com traumas de guerra, como estresse pós-traumático. Como eles faziam para superar esses traumas?

Sem medicamentos ou tratamentos psicológicos modernos, restava aos humanos antigos utilizar rituais de purificação, justificativas religiosas e até mesmo peças de teatro para acalmar sintomas e aprender a conviver com os horrores pelos quais passaram durante embates sangrentos. Por mais que tenhamos tecnologias e métodos avançados, há algo que podemos aprender com os mecanismos antigos desenvolvidos para lidar com os traumas de guerra.

Roma Antiga e seus gladiadores

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Para os romanos, não era apenas o banho de sangue que podia gerar estresse psicológico antes e depois das batalhas, mas também seu relacionamento com os deuses. Uma situação curiosa ocorreu em 264 a.C., no porto de Drepana, cidade na ilha da Sicília. Os romanos estavam prestes a zarpar para combater os cartagineses, seus arqui-inimigos das Guerras Púnicas, e o comandante da frota realizava rituais para verificar se os deuses estavam do lado de seus marinheiros.

O procedimento consistia em liberar galinhas sagradas de suas gaiolas e lhes dar grãos para comer — quanto mais ingerissem, melhor era o apoio dos deuses e a previsão para a batalha. Na pressa, ao invés de fazer isso em terra, o comandante insistiu em levar os galináceos a bordo dos navios, onde os bichos se recusaram a comer.

Enraivecido, o líder atirou as penosas mar afora, e, nas horas seguintes, perdeu a batalha. Soldados costumam ser profissionais supersticiosos, e os romanos, especialmente crentes em suas divindades, perderam muito de sua confiança com o ritual mal sucedido e podem ter ficado mais traumatizados do que o normal após o combate.

Como uma civilização obediente, os romanos sempre pediam permissão aos deuses antes de lutar, e só consideravam aceitável uma guerra com objetivo de defesa, o que era aprovado por sacerdotes especiais, os feciais. Mesmo as grandes campanhas de conquista, ironicamente, foram consideradas defensivas por esses oficiais.

Os combates romanos eram bastante sangrentos, e, em sua época mais avançada, os soldados usavam o gládio, tipo de espada curta com lâmina dupla de ataque corpo-a-corpo muito próximo, o que não escondia os horrores das mutilações. Havia tanto sangue, contam relatos, que o risco de escorregar era alto. Uma das formas de combater o trauma eram os jogos dos gladiadores, onde jovens homens realizavam um violentíssimo esporte nos coliseus, que eram assistidos por multidões entusiasmadas.

Há lembrancinhas de jogos de gladiadores preservadas por todo o território que era do Império Romano, e arte de rua dos fãs do esporte pode ser vista em Pompeia. Havia até mesmo crianças entusiastas, o que se acredita pela altura em que os desenhos e escritos estão nas ruínas preservadas.

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O problema é que nem sempre a tática de se acostumar com a violência funcionava — estudiosos lembram que há muitas advertências da época, como “não fuja do combate”, mostrando que muitos combatentes tentavam escapar, já que era aterrorizante ir à guerra.

Europa Medieval e rituais religiosos

A Inglaterra foi invadida pelos normandos em 1066 d.C., com Guilherme, o Conquistador, se tornando monarca dos reinos da ilha. Um ano após a conquista, um grupo de bispos criou a Penitência de Ermenfredo, uma série de instruções para quem participou da carnificina expiar os pecados cometidos. Eram ações de arrependimento, voltadas a quem matou outros seres humanos, feriu, estuprou ou não sabia quantos havia matado. Para assassinato, por exemplo, a expiação era um ano de penitência.

Hoje, historiadores acreditam que o guia era um esforço para absolver os soldados normandos dos “danos morais” sofridos, ou seja, as consequências de ir contra seus valores morais, já que, teoricamente, seguiam o mandamento cristão “Não Matarás”, mas ainda assim, matavam — especialmente outros cristãos. Ir contra as próprias convicções morais deixa marcas perturbadores, e os combatentes medievais sabiam que traumas de guerra eram bastante reais.

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Nos combates da época, podiam morrer milhares de pessoas em um só dia. Não sabemos muito sobre o impacto psicológico dos banhos de sangue medievais, já que as histórias costumam ser mais heroicas ou factuais, com relatos de primeira mão por combatentes sendo raros, e praticamente não existindo reflexões sobre os atos.

Há algumas pistas, como o Livro da Cavalaria, escrito durante a Guerra dos Cem Anos  (1337 d.C. – 1453 d.C.) e que contém técnicas de batalha e avisos sobre os tipos de coisa que chamamos hoje de traumas de guerra. Uma das coisas citadas são os “grandes terrores”, um tipo de aflição ou alerta mesmo quando o cavaleiro não está em batalha, uma espécie de estresse pós-traumático. Sintomas específicos como medo, vergonha ou sentimento de traição também são descritos.

Havia expectativas sobre o que deveria acontecer em guerras, como a tomada de reféns para cobrar resgates, e quando as regras eram transgredidas, os danos morais surgiam, como surgem nos dias de hoje. A religião era o principal modo das pessoas da Idade Média lidarem com esses traumas, com orações e bênçãos de sacerdotes sendo feitas antes das batalhas e penitências para absolver veteranos de atrocidades cometidas em combate.

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Em tempos posteriores, durante as Cruzadas, os europeus medievais ouviram da igreja que ir para a guerra contra os infiéis era um ato santo, que poderia até mesmo redimir pecados do passado. Era uma das formas de lidar com o trauma — desumanizar o inimigo.

Grécia Antiga e o teatro

Temos vários relatos interessantes dessa época, já que os gregos eram bastante afeitos à arte e escrita. Ésquilo (524 a.C. – 456 a.C.), por exemplo, foi um dramaturgo e veterano das Guerras Médicas, entre gregos e persas, e escreveu 90 peças de teatro. Delas, apenas sete sobreviveram, e muitas delas falam sobre os resultados das batalhas pelas quais passou, incluindo traumas psicológicos.

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Cientistas acreditam que os antigos helênicos usavam peças dramáticas como uma forma de catarse, um meio dos veteranos processarem suas experiências. Há uma tradição, por sinal, de encarar o poema épico A Odisséia, de Homero, como um livro sobre neurose de guerra.

Na peça de Ésquilo Os Persas, escrita após a Batalha de Salamina, em 480 d.C., ele mostra empatia pelo inimigo. Descrições traumáticas da época, que teve guerras ocorrendo uma atrás da outra, incluem relatos de soldados tendo que abandonar os feridos na correria para recuar, algo pesado que afeta os sobreviventes por anos.

A sociedade da Grécia Antiga era bastante ritualizada, com sacrifícios feitos antes de batalhas, e as peças teatrais eram parte importante dessa cultura. Experiência imersiva realizada em palcos ao ar livre, elas geralmente continham narrativas mitológicas pelas quais os espectadores eram bastante afetados. Elas eram escritas por veteranos, atuadas por veteranos e assistidas por veteranos.

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É claro que civis também passavam por esse tipo de trauma quando a guerra chegava até eles, como vemos na Ilíada, também de Homero. Segundo cientistas, o uso de poemas, rituais e peças de teatro eram o modo principal de lidar com o trauma pelos gregos, e há muito que aprender com isso. A experiência coletiva e comunitária através das histórias conecta pessoas e permite as catarses, descargas emocionais que nos abrem ao processo curativo.

Há projetos como o Coro de Guerreiros, do cientista Peter Meineck, da Universidade de Nova York, que usa a literatura para ajudar veteranos a processar seus traumas, pegando obras gregas, que foram escritas por homens que, como eles, combateram e voltaram para contar a história. É preciso, segundo conta Meineck à BBC, ouvir e se comover com a história de outras pessoas — é assim que nos abriremos à possibilidade de curar os traumas do passado.

Fonte: BBC