Os 10 melhores filmes brasileiros da década

Por Sihan Felix | 20 de Janeiro de 2020 às 17h52
Vitrine Filmes

Essa é a terceira e última lista com os melhores da década passada (de 2010 a 2019). E é a vez dos filmes nacionais! Na primeira lista, sobre os melhores do circuito mais comercial, iniciei comentando sobre como lido com esses períodos de 10 anos e sobre a óbvia incapacidade de se assistir a todos os filmes lançados para que a tudo fique pessoalmente mais completo. Aqui, como na lista do circuito mais restrito (a segunda), tudo piora. Se no dito circuito mais comercial, que abrange os filmes lançados na maioria dos cinemas e cidades brasileiros e nas plataformas de streaming mais acessadas, já existe a impossibilidade de se ter assistido a todos os lançamentos do início de 2010 ao final de 2019, assistir a todos os filmes brasileiros por aqui é uma barreira praticamente intransponível. Mas, de todas as listas, foi a que me deu mais prazer. Inclusive de correr atrás para assistir a tudo que acabei perdendo (e foi muita coisa – que felizmente consegui atualizar).

Vale sempre ressaltar que o cinema, como arte que é, é subjetivo e taxar um filme de melhor que outro vai muito além de técnica e conhecimento: são questões pessoais que nos fazem construir alguma relação mais íntima com determinados filmes. E são justamente esses pontos que garantem as posições em uma lista. Acredito que, somente dessa forma – reconhecendo a impossibilidade objetiva –, uma lista pode ser sincera de fato.

Pensando nisso, procurei, ao menos, listar um filme lançado de forma mais abrangente e comercial (lista 1), um que foi visto em um circuito mais reduzido (aqui) e, nesta mais abaixo, um brasileiro para cada ano. Listei outros como menções honrosas, sabendo que poderiam estar na lista principal, nem estar por aqui... e ciente de que faltam outros tantos porque não assisti a todos os filmes (nem acredito que existe como) e, claro, porque estou ciente de que a avaliação de uma arte estará sempre ligada à identificação, o que é particular e intransferível acima de tudo.

Um dos pontos interessantes que percebi assistindo aos filmes e escrevendo esta lista foi o aumento considerável de mulheres na direção de acordo com o passar dos anos. Isso é um fato que merece ser exaltado. Outro ponto é: Nosso cinema é lindo! Como disse o historiador e crítico Paulo Emílio Sales Gomes: "Até o pior filme brasileiro nos diz mais que o melhor filme estrangeiro." Concordando ou não, é uma afirmação para refletir muito além de sua interpretação mais supeficial.

Mas enfim... vamos à lista:

10. Terra Deu, Terra Come (de Rodrigo Siqueira), 2010

Jogando as últimas gotas de cachaça sobre o corpo na cova, Pedro diz: "O que você queria taí! Nós não bebeu ela não, a sua taí. Vai e não volta pra me atentar por causa disso não. Faz sua viagem em paz". Em Terra Deu, Terra Come, realidade e ficção se misturam. O documentário dirigido por Rodrigo Siqueira é, na verdade um híbrido – assim como o seu mais recente Orestes (de 2015). E vai além: Nessa miscigenação de gêneros, o filme acaba por revelar as origens mestiças do nosso povo, debatendo nas entrelinhas o que é africano e o que é brasileiro... Ou, no final das contas, o que é ser ambos para ser um só. 

9. As Canções (de Eduardo Coutinho), 2011

Cinema é identificação, um jogo de causa e efeito entre a obra e o espectador. As Canções é, nesse sentido, um dos filmes brasileiros que mais ecoam em minha memória. Tanto que a ideia para a construção do meu primeiro documentário (o curta-metragem Nada Foi em Vão) partiu justamente das lembranças dessa obra-prima de Eduardo Coutinho. Nela, ao passo que as revelações parecem blindadas por sentimentos nobres, vai se descortinando um tratado sobre amor, traição e morte. As escolhas das canções cedem tanta unidade para o filme que, a certo ponto, uma ou outra pode ilustrar sonoramente o desejo de matar um amante e dolorida sensação de que o romantismo – que parecia ser único – era compartilhado com outra pessoa. Um filme íntimo, simples e intenso, doce e amargo, sobre gente.

8. O Som ao Redor (de Kleber Mendonça Filho), 2012

O tempo é fulminante, o que fazemos com ele também é. Despontando como um dos diretores a serem acompanhados para sempre, Kleber Mendonça Filho faz de O Som ao Redor uma ode ao passado e ao quanto as atitudes influenciam o presente e, consequentemente, o futuro. De uma beleza desconcertante, o filme não cansa de provar a sua retumbância até o fim da última cena. Uma obra para que não esqueçamos o valor do silêncio, do que nos cerca e das pequenas atitudes.

7. O Lobo Atrás da Porta (de Fernando Coimbra), 2013

Partindo da premissa básica de que o pior inimigo pode ser aquele de quem se menos desconfia, Fernando Coimbra (roteirista e diretor) traça um panorama mais do que eficiente sobre omissões, sobre o quanto fazer nada pode resultar em fatos indesejados. O Lobo Atrás da Porta apresenta uma narrativa crescente quase sufocante. É um thriller com atuações em profunda sincronia com a proposta da direção e com alguns planos-sequências mais do que orgânicos. Um filmaço.

6. Sinfonia da Necrópole (de Juliana Rojas), 2014

Sinfonia da Necrópole talvez seja um dos filmes mais subestimados de nossa filmografia recente. O jovem aprendiz de coveiro (interpretado por Eduardo Gomes), aqui, parece ser uma alusão à sempre constante briga do bem contra o mal – disfarçados de pessimismo versus otimismo. Isso porque Deodato (Gomes) busca respiro e vida justamente em uma profissão que lida diretamente com os mortos. Juliana Rojas (que escreveu e dirigiu o filme) é habilidosa na condução desse equilíbrio, cedendo dor ao protagonista ao mesmo tempo em que tende a ressuscitá-lo com a vivacidade dos planos e, especialmente, dos inusitados números musicais. Um filme que precisa ser (re)descoberto com urgência.

5. Última Conversas (de Eduardo Coutinho), 2015

Da lista, é o último que assisti; o único que faltava para eu finalizar a filmografia de Eduardo Coutinho. E foi impossível não colocá-lo como o melhor de 2015 – posto que estava ocupado por Que Horas Ela Volta?. Refletindo sobre a relevância pública do cinema, Coutinho acaba por se mostrar desencantado, à beira da descrença. “Ter fé é difícil. Recuperar a fé é muito difícil.” Finalizado por João Moreira Salles e Jordana Berg, Últimas Conversas é a obra póstuma de quem foi (e é), provavelmente, o maior nome do cinema brasileiro. Sendo uma espécie de versão mais simples de Mashgh-e Shab (de Abbas Kiarostami), o documentário de Coutinho acaba por se revelar, na verdade e lá no fundo, otimista por meio de suas conversas com alguns tantos jovens. Se Kiarostami é mais sofisticado e, de algum modo, interroga os seus, Coutinho conversa, dialoga de uma maneira muito acolhedora... No final das contas, a cadeira vazia vai ecoar para sempre na evocação da ausência física do homem e na permanência eterna de sua obra.

4. O Silêncio do Céu (de Marco Dutra), 2016

Um estupro de difícil digestão para o espectador. Uma agonia intensa surgida a partir de então. Uma força de superação que surge. O silêncio da protagonista (interpretada com uma monstruosa e silenciosa competência por Carolina Dieckmann) é mais real do que deveria e acaba por paralisar também o espectador que, tão imóvel quanto Mario (Leonardo Sbaraglia) sofre com alguma culpa até conseguir descobrir o que virá. Em um ano de filmes como Aquarius, Era o Hotel Cambridge e Cinema Novo, O Silêncio do Céu é uma opção arriscada como o melhor. É uma escolha que se dá pela abordagem pesada do diretor Marco Dutra, que conduz tudo com uma consciência de unidade perturbadora. E é uma opção subjetiva afinal, ainda mais em se tratando de filmes tão diferentes.

3. Como Nossos Pais (de Laís Bodanzky), 2017

Outra escolha arriscada em um ano fortíssimo para o nosso cinema... Mas Rosa (Maria Ribeiro) e a direção sensibilíssima de Laís Bodanzky acabaram por me corroer. É interessante perceber como Bodanzky trabalha com as imagens no intuito de, esteticamente, corroborar as sensações da sua protagonista e passar, consequentemente, todo sentimento para o público. Nesse sentido, uma leiteira com leite fervendo, um rosto visto através do box de um banheiro e Belchior tocado ao piano são metáforas pontuais que dão liga a um estudo de personagem escrito por Bodanzky e Luiz Bolognesi. Um filme lindíssimo do nosso cinema.

2. Tinta Bruta (de Felipe Matzembacher e Marcio Reolom), 2018

De estrutura aparentemente solta, Tinta Bruta é um filme emblemático. Tanto porque seu formato é, na prática, uma metalinguagem para a vida de alguém LGBT+ – em um caminho de vida pública mais incerto – quanto pela elegância da condução de Felipe Matzembacher e Marcio Reolom. Paul O’Callaghan, um dos críticos americanos mais influentes da atualidade, comparou o filme gaúcho a dois petardos da filmografia mundial recente: O Reino de Deus (de Francis Lee) e Uma Mulher Fantástica (de Sebastián Lelio) – este que foi vencedor do Oscar 2018 de Melhor Filme Estrangeiro. O final repentinamente otimista de Tinta Bruta é tratado com tanto carinho pelos diretores que, enfim, parece desagradável negar felicidade a quem passou por uma jornada tão pesada... Temos direito de negar felicidade a alguém? 

1. Bacurau (de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles), 2019

Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles demonstram a importância de manter todos os passados existentes vivos, mas expõem também que, às vezes, somente um merece a luz do sol. O enterro final é a metáfora ideal de que é necessário se ter conhecimento de toda maldade do passado para jamais trazê-la de volta à tona. E a melhor forma de fazer isso é a mantendo-a por perto, enterrada bem debaixo dos nossos pés. Ou, com os pés na realidade, bem ao nosso alcance: nos livros.

Menções honrosas:

As menções honrosas também seguem os anos (agora ascendentes) e, dentro deles, estão em ordem alfabética. Como a lista principal, não está em nenhuma ordem de preferência. Lá vão:

2010:

  • 5x Favela, Agora por Nós Mesmos (de Cacau Amaral, Cadu Barcelos, Luciana Bezerra, Manaira Carneiro, Rodrigo Felha, Wagner Novais e Luciano Vidigal);
  • Estrada para Ythaca (de Pedro Diogenes, Guto Parente, Luiz Pretti e Ricardo Pretti);
  • As Melhores Coisas do Mundo (de Laís Bodanzky);
  • Uma Noite em 67 (de Ricardo Calil e Renato Terra).
  • Riscado (de Gustavo Pizzi);
  • Transeunte (de Eryk Rocha);
  • Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro (de José Padilha)

2011:

  • Corações Sujos (de Vicente Amorim);
  • Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios (De Beto Brant e Renato Ciasca);
  • Heleno: O Príncipe Maldito (de José Henrique Fonseca);
  • Histórias que Só Existem Quando Lembradas (de Júlia Murat);
  • Os Monstros (de Pedro Diogenes, Guto Parente, Luiz Pretti e Ricardo Pretti);
  • O Palhaço (de Selton Mello);
  • Vou Rifar Meu Coração (de Ana Rieper).

2012:

  • 2 Coelhos (de Afonso Poyart);
  • À Beira do Caminho (de Breno Silveira);
  • Antonio Conselheiro: O Taumaturgo dos Sertões (de José Walter Lima);
  • A Busca (de Luciano Moura);
  • Cine Holliúdy (de Halder Gomes);
  • Os Dias com Ele (de Maria Clara Escobar);
  • Doméstica (de Gabriel Mascaro);
  • Elena (de Petra Costa);
  • Entre Vales (de Philippe Barcinski);
  • Nervo Craniano Zero (de Paulo Biscaia Filho);
  • Paraísos Artificiais (de Marcos Prado).

2013:

  • Dossiê Jango (de Paulo Henrique Fontenelle);
  • Faroeste Caboclo (de René Sampaio);
  • Flores Raras (de Bruno Barreto);
  • O Menino e o Mundo (de Alê Abreu);
  • Minha Mãe é uma Peça: O Filme (de André Pellenz);
  • Serra Pelada (de Heitor Dhalia);
  • Tim Lopes – Histórias de Arcanjo (de Guilherme Azevedo).

2014:

  • Cássia Eller (de Paulo Henrique Fontenelle);
  • A História da Eternidade (de Camilo Cavalcante);Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (de Daniel Ribeiro);
  • A Luneta do Tempo (de Alceu Valença);
  • O Mercado de Notícias (de Jorge Furtado);
  • Praia do Futuro (de Karim Aïnouz);
  • Quando Eu Era Vivo (de Marco Dutra);
  • O Sal da Terra (de Juliano Ribeiro Salgado, Wim Wenders);
  • A Vida Privada dos Hipopótamos (de Maíra Bühler, Matias Mariani).

2015:

  • Boi Neon (de Gabriel Mascaro);
  • Califórnia (de Marina Person);
  • A Floresta Que Se Move (de Vinicius Coimbra);
  • Mate-me Por Favor (de Anita Rocha da Silveira);
  • Orestes (de Rodrigo Siqueira);
  • Para Minha Amada Morta (de Aly Muritiba);
  • Que Horas Ela Volta? (de Anna Muylaert).

2016:

  • Aquarius (de Kleber Mendonça Filho);
  • Cinema Novo (De Eryk Rocha);
  • Divinas Divas (de Leandra Leal);
  • Era o Hotel Cambridge (de Eliane Caffé);
  • Lampião da Esquina (de Lívia Perez e Noel Carvalho);
  • Mãe Só Há Uma (de Anna Muylaert);
  • Mulher do Pai (de Cristiane Oliveira);
  • Ponto Zero (de José Pedro Goulart);
  • O Shaolin do Sertão (de Halder Gomes).

2017:

  • O Animal Cordial (de Gabriela Amaral);
  • Arábia (de João Dumans e Affonso Uchoa);
  • Baronesa (de Juliana Antunes);
  • Bingo: O Rei das Manhãs (de Daniel Rezende);
  • Corpo Elétrico (de Marcelo Caetano);
  • As Duas Irenes (de Fabio Meira);
  • Gabriel e a Montanha (de Fellipe Barbosa);
  • No Intenso Agora (de João Moreira Salles).

2018:

  • Benzinho (de Gustavo Pizzi);
  • As Boas Maneiras (de Marco Dutra e Juliana Rojas);
  • Ferrugem (de Aly Muritiba);
  • Paraíso Perdido (de Monique Gardenberg);
  • O Processo (de Maria Ramos);
  • Rasga Coração (de Jorge Furtado);
  • Sócrates (de Alexandre Moratto);
  • A Sombra do Pai (de Gabriela Amaral);
  • Temporada (de André Novais Oliveira).

2019:

  • Carta Para Além dos Muros (de André Canto);
  • Greta (De Armando Praça);
  • No Coração do Mundo (de Gabriel Martins e Maurílio Martins);
  • Torre das Donzelas (de Susanna Lira);
  • Turma da Mônica: Laços (de Daniel Rezende);
  • A Vida Invisível (de Karim Aïnouz).

Agora, ficam aí os comentários. Foi difícil fazer uma lista tão subjetiva, mas tenho certeza que vocês podem complementar e enriquecer tudo. Ficaram muitos filmes de fora, então vamos conversando, debatendo... de repente, aumentando a lista.

Convido vocês para as duas listas anteriores:

Bons e ruins filmes para nós!

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