Crítica | Ferrugem corrói até o osso da imaturidade

Por Sihan Felix | 31 de Agosto de 2018 às 21h10
Olhar Distribuição

As artes acompanham a época assim como a época acompanha as artes. São espelhos sem fim, um de frente para o outro. Dessa forma, é muito normal que mais e mais filmes e séries que abordam o bullying e a depressão surjam. Algumas dessas produções podem não valer tanto a pena, seja por não ter uma qualidade geral aceitável, seja por ser desrespeitosa com o seu objeto de estudo ou, até mesmo, por conter gatilhos mentais com o poder de encorajar alguém a cometer suicídio – como foi acusada por psiquiatras e psicólogos a série 13 Reasons Why, produzida pela Netflix e adaptada do livro Thirteen Reasons Why, de Jay Asher.

Pela primeira vez aqui no Canaltech, peço licença para escrever um pouco em primeira pessoa. Acredito que é preciso tornar o tom mais pessoal por se tratar de processos justamente pessoais. Pois bem... Após ter contato com as palavras de profissionais médicos nos quais confio, nunca tive coragem de assistir à citada série. Por ser portador (felizmente hoje controlado) de depressão e já ter atingido um grau perigoso da doença, sempre fico com um pé atrás quando percebo que entrarei em contato com uma obra que toca no assunto.

Recentemente, nesse sentido, os resultados de duas turmas que abri para crianças da minha Oficina de Apreciação e Criação de Cinema me impressionaram. Ambas as turmas, completamente independentes, resolveram escrever e filmar seus curtas-metragens tratando do mesmo tema: o bullying. Uma das turmas apostou na redenção, partindo para o lado da comédia e da amizade com o filme Tolerância.

A outra foi para um lado macabro, de muita qualidade na condução, e criou um terror, como se os colegas de classe da protagonista solitária fossem verdadeiras almas prontas para consumir a sua vida – o que descamba para um final nada otimista. O título do filme: Limbo (ou de quem sofre bullying). São filmes curtos, escritos, dirigidos, fotografados, atuados por crianças de 10... 11 anos de idade, que refletem demais o mundo no qual vivemos e o quanto de consciência há – muitas vezes mais do que em um adulto como eu – na mente de estudantes do Ensino Fundamental I.

Parte 1: As emoções irresponsáveis da adolescência

Ferrugem, então, surge como uma produção imprescindível e óbvia (no que houver de bom sentido nessa palavra) para a atualidade. A partir de um roteiro incomum e sem a divisão comercial de três atos, o filme caminha sem se importar com clarezas absolutas. E isso sendo um elogio, quero dizer que não há qualquer artificialidade para prender o público ao filme. Há uma sensibilidade crua na condução de cada cena.

Cuidado! A partir deste ponto esta crítica pode conter spoilers!

O diretor Aly Muritiba demonstra compreender o universo adolescente e o seu tempo diferenciado. As emoções à flor da pele, os palavrões gratuitos, as implicâncias românticas e a impulsividade são expostas sem nenhum pudor. Pode-se reparar, assim, em como o desenho de produção de Tiago Marques Teixeira é fundamental para a construção desse universo tão particular nas cenas em que a protagonista está no banheiro da escola. Há um mundo visual de obscenidades que reforça a condição da idade. E são detalhes que saltam aos olhos do público sem afetar de forma alguma as personagens – aquilo é natural demais para Tati (Tifanny Dopke) e suas colegas para que seja relevante.

É a partir desse trabalho de Teixeira que Muritiba constrói outro arco bem interessante que acompanha as mentes afetadas demais por hormônios para serem sensatas (eu lembro de minha adolescência): Enquanto os diálogos (que aparentemente são bobos – como geralmente o são) e, em especial, os ditos desenhos nas paredes do banheiro revelam o que há de mais explícito na imaginação da idade, algo que de fato materializa palavras e desenhos é tratado como uma anormalidade, como perversão. Dessa maneira, por mais que se saiba o que é sexo e o que duas (ou mais) pessoas podem fazer a respeito, tudo é exponenciado e tratado como depravação quando exposto publicamente.

(Imagem: Olhar Distribuição)

É através da superexposição dos nervos à qual está fadada quase que todas as pessoas humanas entre seus 15 e 19 anos (uma média que pode ser alongada em qualquer sentido) que a primeira parte do filme se dá. E não somente. Há questões duras mostradas com uma naturalidade assustadora, situações que chocam por serem críveis. Muritiba (que além de dirigir escreveu o roteiro junto a Jessica Candal) compõe uma espécie de retrato da realidade, onde, ao mesmo tempo em que parece que nada está acontecendo, uma profusão de sentimentos toma conta das figuras dramáticas. Muitas dessas, inclusive, são tomadas por emoções irresponsáveis e que dialogam diretamente com a vida adulta atual.

Nessa perspectiva, é possível perceber o quanto a desigualdade entre os gêneros é algo enraizado: enquanto Tati sofre devido à exposição de um vídeo de um momento íntimo, com toda a escola rindo dela, ridicularizando-a e a chamando de tudo – menos de santa –, seu ex-namorado, também protagonista do vídeo, diz a ela que está sofrendo porque seus amigos estão o chamando de “pau pequeno” e, logo em seguida, tenta beijá-la à força, insinuando que pensava que era isso que ela queria.

Não há um só momento em que o bullying é levado com ênfase em direção ao moço. Não importa se ele protagoniza o mesmíssimo vídeo e tem o tal “pau pequeno”. Nesses momentos, a desgraça cai sempre para a menina, para a mulher. É como se o filme denunciasse uma realidade tão explícita, tão na nossa cara, que fica difícil de enxergar. Lembro de uma comédia stand-up que assisti recentemente em que o comediante faz justamente uma piada – de extremo mau gosto – sobre algo semelhante: diz ele que vídeos pornôs só têm graça quando da visão do homem, porque através da visão da mulher só se é possível ver um umbigo (se aproximando e se afastando) ou um travesseiro. Ou ele desconhece os diversos profissionais do pornô feminista (lembrando que feminismo indica igualdade entre os gêneros) ou quis somente fazer uma piada machista (lembrando que machismo pressupõe o homem como superior).

(Imagem: Olhar Distribuição)

É ao final dessa longa apresentação de Tati e da adolescência – uma apresentação cheia de nada (e esse nada bem longe de ser vazio) – que o filme deixa o terreno pronto para sua segunda parte. O baque, nesse ponto, é duro e seco. Com ele, Tati não quer culpar sua classe cheia de colegas idiotas, seu professor sem pulso ou seu crush apático. Ela quer demonstrar para toda a escola, para o mundo e para quem mais tiver acesso o mal que o bullying pode causar, especialmente em uma mente em formação. Já Aly Muritiba quer mostrar para todos os que tiverem a oportunidade de assistir ao seu filme.

Parte 2: Quando a ferrugem é a culpa e a culpa corrói a alma

Na segunda parte, Ferrugem caminha por outros meios. Tudo se torna mais lento. Mas não é por acaso. A lentidão é o reflexo direto da culpa. O peso de carregar um fardo sofrido recai nos ombros de Renet (Giovanni de Lorenzi). A ferida aberta pelo sacrifício de Tati revela o quanto somos capazes de descontar tudo em todos enquanto estamos possuídos por remorso, medo, tristeza. Isso é o que transforma a cada um de nós em seres individuais, sujeitos aos mesmos erros, reféns das nossas emoções.

Para contar essa segunda parte, Muritiba cria cenas simples de grande impacto visual. Em uma conversa dentro de um carro em movimento entre o pai de Renet (o professor sem pulso interpretado por Enrique Diaz) e a mãe (Clarissa Kiste), por exemplo, é possível perceber o quanto o para-brisa permanece embaçado até o momento em que a conversa encontra a verdade escondida pelo pai.

Não há qualquer espaço para demagogia. Muritiba não permite que seu filme seja contaminado por desonestidade intelectual ou qualquer coisa do tipo. Ele é bem claro, por mais que o filme possa parecer vagaroso. Essa lentidão, sendo o espelho da culpabilidade, é fundamental para que cada desdobramento sofrido seja sentido.

É interessante perceber, ainda, que cada discurso moral – por mais que tenham protagonistas femininas (Tati e a mãe de Renet) – passa pela imaturidade de homens. Se o professor rouba o caderno de sua falecida aluna para proteger seu filho, ele (o professor) demonstra uma impulsividade alheia à qualquer moralidade; ao passo que em nenhum momento se discute quem ou o que fez sua mulher se afastar e, muito menos, o fruto que será resultado de uma gravidez tão simbólica.

É como se Raquel (a mãe de Renet) estivesse grávida de uma nova chance, grávida para poder não se transformar no demônio do seu próprio filho; e, por esse caminho, como se Davi (o pai) se materializasse em um demônio da adolescência eterna, incapaz de dominar uma turma, de mostrar ao filho o que é ser homem e incapaz de ter paz com sua ex-mulher, que está pronta e determinada a ter e ser uma nova vida.

Ferrugem é um filme de uma atualidade aterrorizante, que corrói o que pensamos ser enquanto não amadurecemos assim como a maresia corrói o ferro. É por isso que praticamente toda a segunda parte se dá em uma casa à beira-mar: é o tempo em que Renet, enfim, cria coragem e, conscientemente, resolve pender para o lado da moral, como se aquela maresia estivesse corroendo a sua culpa, a sua imaturidade – algo que talvez seja tarde demais para seu pai.

(Imagem: Olhar Distribuição)
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