Crítica | Turma da Mônica: Laços de saudade

Por Sihan Felix | 28 de Junho de 2019 às 15h08
Paris Filmes e Downtown Filmes

A saudade, sentimento tão sensível e mutável, pode nascer de várias formas: do distanciamento físico ou geográfico, da mudança de costumes, do tempo (quando se transforma em elemento nostálgico). A verdade é que ninguém a vê. Seja porque embaça os olhos querendo se tornar concreta, seja porque é tão abstrata, a saudade é silenciosa. A dor que nasce dela deveria ter outro nome, já que é resultado de uma lembrança boa. E dor não é algo bom.

É falando sobre saudade que Turma da Mônica: Laços começa a fazer ainda mais sentido para mim (peço licença para trazer a crítica para a primeira pessoa). Isso porque, como professor, sempre tive a oportunidade de levar muito de minha própria infância para as crianças (e para os adultos também). Penso que amadurecer é fruto do que conseguimos entender de tudo o que passamos e, ao repassar esse aprendizado mais íntimo, estamos compartilhando saberes e, acima de tudo, confiança; estamos abrindo mão de ter algo só nosso e disseminando um pedacinho de quem somos. No final das contas, acabamos por ter sementes espalhadas em primeiro, segundo, terceiro grau... e nos tornamos muitos, uma malha social cheia de empatia.

Cuidado! A partir daqui esta crítica pode conter spoilers!

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Acima de qualquer mal

O diretor Daniel Rezende (de Bingo: O Rei das Manhãs, 2017) demonstra entender a função e a força de um filme como Turma da Mônica: Laços justamente ao apostar na simplicidade. Há tanto nas entrelinhas e em tudo que cerca a turminha que a história infantil de resgate de um cachorrinho roubado (Floquinho) pode chegar ao público como uma bomba de emoções. Se o roteiro de Thiago Dottori (de La Vingança), baseado em uma graphic novel de 2013, já era acertadamente descomplicado, Rezende, em momento algum, tenta deixar o filme complexo. Ele vai na direção oposta, a de ressaltar a beleza da simplicidade.

É uma escolha que rima com a própria infância e com o que nos tornamos com o passar dos anos. E essa rima já é absolutamente complexa. Enquanto as crianças são a materialização das dúvidas, da curiosidade, da investigação, nós – adultos – tornamo-nos donos de respostas. Não é uma questão de generalização, mas um fato. Acabamos aprendendo a ter respostas para tantos porquês. Mas por que precisamos ter tantas respostas prontas e programadas? Para nos sentirmos... adultos?

Turma da Mônica: Laços parece partir desse princípio, no qual toda a pressuposta simplicidade da infância revela-se exatamente mais intrincada do que qualquer idade mais vivida. Assim os personagens são apresentados, sendo primeiramente simplórios e ganhando dimensões em direção ao ato final.

Nesse sentido, Cebolinha (Kevin Vechiatto), o mentor dos “planos infalíveis”, personifica um pouco a arrogância, especialmente ao se chamar de gênio; Cascão (Gabriel Moreira), com sua aversão à água, mostra-se como o medo (de água, de apanhar após tantos planos infalíveis fracassados); Magali (Laura Rauseo) é, claro, a gula; e Mônica (Giulia Benitte), além de sua imposição através da força, carrega um pouco de egoísmo ao renegar o coelhinho Sansão até o último momento.

(Imagem: Paris Filmes e Downtown Filmes)

Desse início, começa a ser desenvolvida uma desconstrução, algo que é tão gradual que mantém um certo caráter ingênuo, tão peculiar às crianças. Essa escolha conduz o filme, que se entrega como infantil em suas camadas superiores, e faz com que as crianças espectadoras acompanhem os passos da turminha sem perderem o foco. Aliás, Rezende é imprescindível nessa condução, visto que consegue guiar cada aspecto com uma importância quase mágica. Alguns closes nos rostos das crianças, que parecem durar mais do que o ritmo já definido pedia, evocam um poder dramático que causa uma necessária ligação entre público e personagens. É como se Rezende e os editores Marcelo Junqueira e Sabrina Wilkins dissessem para repararmos no que realmente importa, para percebermos que, acima de tudo, são crianças comuns, com as quais se pode criar identificação e, como tais, precisam estar acima de qualquer mal.

O sonhos das almas inquietas

Rezende também é sensível ao demonstrar com muita sensibilidade como surgem os primeiros sentimentos de amor romântico, imerso nas criações de Mauricio de Sousa (que se revela o Stan Lee brasileiro). Se alguns mais velhos, como Titi (Cauã Martins), já conseguem externar completamente (e até demais) o que sentem – típico de adolescentes –, Cebolinha o faz com o incômodo. A cada chateação que ele causa a Mônica, há sempre uma mudança de plano que aproxima ambos, jamais afastando-os ou sedimentando uma relação de bullying ainda mais problemática. O máximo dessa abordagem se dá em uma discussão ferrenha, na qual ele (Cebolinha) se deixa transbordar (com seus olhos ficando afogados) e ela (Mônica) desiste de o acertar com o Sansão.

Como se não bastasse a sensibilidade nesse desenvolvimento, Rezende investe em uma sequência que une Cebolinha e Mônica da forma mais positivamente ingênua possível e, acima de tudo, em formato de sonho, fugindo de macular a infância com uma paixão adulta. Logo após um encontro surreal e tecnicamente primoroso de Cebolinha com Louco (Rodrigo Santoro) –, dormindo (o que talvez o próprio Cebolinha já estivesse fazendo ao conhecer a personagem de Santoro), um toque de mãos é das passagens mais significativas e bonitas do filme. E não só: seguido de closes em pequenos sorrisos de ambos (em sono profundo), esse toque é de extrema importância no posicionamento da infância como infância que é. Nele está o que de mais sincero e verdadeiro pode haver. Dormindo e sonhando, aquele toque parece amansar almas inquietas e dar força para o que viria a seguir.

(Imagem: Paris Filmes e Downtown Filmes)

E é a partir de então que tudo ganha muito mais corpo. À procura de Floquinho, a turma da Mônica (ou do Cebolinha?) encara principalmente o espelho. O Homem do Saco (Ravel Cabral) parece longe de ser o vilão mais difícil para os quatro. Ao mesmo tempo em que Magali luta contra sua gula ao optar entre o objetivo (um molho de chaves) e uma linda fatia de melancia, Cascão enfrenta bravamente seu medo de água. Não, ele (Cascão) não chega a se molhar, mas o seu problema não é a água em si, mas o medo dela – e este acaba sendo superado com muita coragem. Já Mônica consegue, enfim – e após algum sacrifício – entender que ceder o coelhinho para o bem maior não a faria ser menos Mônica. E Cebolinha livra-se da carapuça da arrogância e insere a todos em seu mais novo e infalível (esse sim, pela união de todos) plano.

Porque fomos as crianças de ontem

Em meio a tanto, a trilha sonora musical de Fabio Góes (de Detetives do Prédio Azul: O Filme) é dos trabalhos mais fantásticos dos últimos anos para o cinema nacional. Não é tão difícil ter a impressão de que o compositor teve uma infância regada pelos quadrinhos da turma, visto o grau de comunhão entre cada trecho e suas cenas. E não é só: Góes utiliza uma técnica chamada de Mickey Mousing em algumas cenas, técnica que consiste em fazer a música soar unida aos acontecimentos que são vistos. Ele (Góes) não somente contorna os sentimentos e cede mais camadas de emoções ao espectador, ele solidifica o que se vê em tela e ainda consegue dar uma certa sensação cartunesca ao filme (a citada cena do Louco é um absurdo muito bem-vindo nessa lógica).

Mas é no ato final, quando a sensação de suspense toma conta, que Rezende e Góes tocam as mãos e o que estava sendo construído chega à sua forma completa. Se o diretor é de muita competência ao traçar quase todas as cenas na casa do Homem do Saco intermediadas por planos detalhes – intensificando o suspense à la Hitchcock –, Góes eleva essa sensação à última potência quando une o som do alarme de uma caminhonete à sua música e causa a mesma estranheza dissonante, justamente, de uma das cenas mais icônicas dos filmes do diretor inglês: o assassinato em Psicose (de 1960).

(Imagem: Paris Filmes e Downtown Filmes)

É de uma precisão assustadora essa relação do diretor com a equipe e, tudo, sem se esquecer nem da graphic novel e nem do primeiro material originário (como na cena em que todos, menos Cebolinha, perdem os tênis) e de que o tratamento que estava sendo realizado era para um filme infantil. Com as crianças agindo com muita naturalidade – Rauseo (a Magali) é de um carisma veterano e Benitte (a Mônica) consegue transitar com imensa fofura entre a fúria e o brilho nos olhos de sua última cena –, Turma da Mônica: Laços chega ao fim como não somente um filme, como dito, infantil. Trata-se de um filme da saudade. E não da saudade dos personagens, porque esses são eternos e permanecerão acessíveis. A saudade que fica é a da infância... e é aí que o filme toca os adultos.

E o laço indispensável que fica é o da saudade invisível e silenciosa, embaçando os olhos e querendo se tornar concreta. Um sentimento de dor que não é de dor exatamente, que vem da nostalgia, que nasce de lembranças de uma infância que, fisicamente (e talvez geograficamente), não volta mais. Mas a sensação de que somos os adultos de hoje porque fomos as crianças de ontem – e porque tivemos a oportunidade de sermos crianças (algo que muitos não têm) – é o que Turma da Mônica: Laços cede com capricho e olhando nos nossos olhos – como o faz Cebolinha ao quebrar a quarta parede e se despedir.

O lei da lua que, com seu pijama com temática de viagens espaciais, mostla que tudo é mais plofundo quando se olha com calinho pala os detalhes e pala os outlos.

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