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Esta é a recriação facial do Homem de Piltdown, ancestral humano falso

Por| Editado por Luciana Zaramela | 09 de Janeiro de 2024 às 17h47

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Moraes et al./OrtogOnlineMag/CC-BY-4.0
Moraes et al./OrtogOnlineMag/CC-BY-4.0

O artista 3D brasileiro Cícero Moraes elaborou mais uma de suas reconstruções faciais, mas desta vez o alvo é mais curioso do que o normal — é o Homem de Piltdown, talvez a fraude arqueológica mais marcante de todos os tempos. Ele foi o fóssil de um hominídeo passado como verdadeiro por décadas, uma espécie de elo perdido que misturava características de humanos e primatas e, no final das contas, não passava de uma combinação de ossos manipulados.

O responsável pelo engodo foi o advogado e geólogo amador Charles Dawson, que contatou o Museu de História Natural de Londres em 1912 com a história de que teria uma evidência do elo perdido na evolução dos primatas até os humanos. Ele tinha consigo fragmentos de crânio, mandíbula e dentes que afirmava ter escavado em Piltdown, cidade no sul da Inglaterra, e conseguiu convencer o curador de geologia da instituição, Arthur Smith Woodward, de que seriam itens legítimos.

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Com base na coloração dos supostos restos de hominídeo, Woodward conclui que eles estariam mineralizando por cerca de meio milhão de anos. Junto a Dawson, ele apresentou o Homem de Piltdown em um encontro da Sociedade Geológica em dezembro de 1912, dando-lhe o nome científico Eoanthropus dawsoni, latim para “Homem da alvorada de Dawson”.

Descobrindo a farsa de Piltdown

Com a apresentação, Dawson e Woodward ganharam renome, mas muitos paleontólogos já desconfiavam de alguma coisa desde o início, vendo semelhanças dos ossos com restos de chimpanzés, por exemplo. Apesar das dúvidas, o espécime seguiu sendo majoritariamente aceito até 1953, quando um artigo da revista Time provou a farsa ao mostrar que o crânio seria uma mistura envolvendo fragmentos de caveiras humanas, mandíbula de orangotango e dentes de chimpanzé.

Charles Dawson já havia falecido décadas antes, em 1916, mas acredita-se que a motivação do farsante tenha sido sua vontade de se tornar entrar na Royal Society, sociedade científica renomada do Reino Unido, já que seus esforços anteriores não renderam bons resultados.

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Décadas depois, em 2016, cientistas retomaram o estudo da falsificação, descobrindo como Dawson modificou os componentes do crânio fabricado para que não fosse descoberto à primeira vista. Os ossos foram, por exemplo, manchados com uma solução ferrosa para parecerem mais velhos do que eram.

Recriando o Homem de Piltdown

Após análises, Cícero Moraes e sua equipe — que já fez recriações como a da face de Tutancâmon e inclui especialistas forenses — recriaram a aparência do Homem de Piltdown — ou melhor, como ele seria se houvesse sido um ancestral real dos humanos modernos. Para isso, foram usados escaneamentos digitais dos crânios de humanos, orangotangos-de-bornéu (Pongo pygmaeus, a espécie usada na farsa) e chimpanzés (Pan troglodytes).

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Marcadores de tecido mole humano foram distorcidos e adaptados para combinar com as proporções cranianas do E. dawsoni, e, como de praxe, foram geradas duas versões da recriação facial — uma em preto-e-branco, com a aparência “cientificamente precisa” do espécime, e uma com a licença artística de Moraes que inclui tom de pele, cabelos, barba e expressão. Agora, sabemos como é a curiosa face de uma espécie de homem-macaco inexistente, vivendo em um mundo fantasioso de 500.000 anos atrás.

Fonte: Ortog Online, Royal Society Open Science