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Cientista pisa em mais de 100 jararacas para estudar suas picadas

Por| Editado por Luciana Zaramela | 22 de Maio de 2024 às 14h27

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João Miguel Alves-Nunes/Science
João Miguel Alves-Nunes/Science

Para saber mais sobre as picadas de cobras da América do Sul, um biólogo do Instituto Butantan se submeteu a um curioso experimento: andar em meio às serpentes e pisar nelas para testar as condições sob as quais elas mais tentariam mordê-lo. Não se preocupe: as cobras e o cientista passam bem.

O pesquisador em questão é João Miguel Alves-Nunes, que usou botas de couro reforçadas com isopor para interagir com 116 jararacas (Bothrops jararaca), nas quais pisou 30 vezes em cada. Foram 40.480 pisadas, mas ele garantiu, em entrevista à revista científica Science, que executou a ação com cuidado, sem machucar as serpentes. O biólogo descobriu, assim, informações importantes sobre as cobras.

Quando as cobras picam?

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Segundo Alves-Nunes, o campo de estudo do comportamento das cobras é bastante negligenciado, especialmente no Brasil. Quando estudamos malária, exemplificou ele, é possível estudar o parasita que causa a doença, mas, sem estudar o mosquito portador, o problema segue sem resolução. Com as cobras venenosas, a lógica também se aplica.

A suposição popular era de que as cobras, no geral, só picariam quando tocadas ou, pelo menos, ameaçadas. Como Alves-Nunes testou empiricamente a questão, pôde descobrir a verdadeira tendência natural do animal — entre os achados, está o fato de que as chances de mordida são inversamente proporcionais ao tamanho da jararaca. Quanto menor, mais provável é que uma picada ocorra.

Além disso, as jararacas fêmeas picam mais do que os machos, sendo mais agressivas durante o dia e quando ainda são cobras jovens. O calor também foi um fator determinante: répteis são animais de sangue frio, então sua maior atividade e disposição energética ocorre quando o clima está quente. O toque na cabeça ainda gera mais picadas do que no corpo ou na cauda.

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As importantes descobertas ajudarão médicos de todo o Brasil, já que será possível prever melhor as condições nas quais as cobras poderão picar mais e distribuir soro antiofídico com maior eficiência. Locais mais quentes e com mais serpentes fêmeas, por exemplo, deverão ter prioridade no combate ao efeito das picadas.

Mostrando-se feliz com os resultados, Alves-Nunes relatou à Science ter se sentido seguro durante os experimentos, já que a proteção acolchoada ia até acima do joelho. Apesar das jararacas não terem conseguido perfurar o couro, um incidente com uma cobra cascavel (Crotalus spp.) mostrou que a proteção não foi suficiente, já que a serpente conseguiu ultrapassar a bota e picou o cientista.

Ele mesmo afirma ter a sorte de estar no Instituto Butantan, o melhor lugar possível para um incidente do tipo — o biólogo recebeu tratamento hospitalar e antiofídico imediatamente.

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O problema é que ele descobriu não apenas uma alergia à toxina das serpentes, mas também ao soro antiofídico, o que trouxe complicações e levou a uma licença médica de 15 dias.

Apesar disso, Alves-Nunes não se deixou abalar — ele se voltou ao design do experimento e análise dos dados e deixou o trabalho experimental aos técnicos de laboratório, mas tirou uma boa ideia do incidente: comparar a força da mordida das duas cobras e a resistência de materiais usados para sapatos às picadas.

Fonte: Science, Nature Scientific Reports