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A curiosa jornada do pênis amputado de Napoleão Bonaparte

Por| Editado por Luciana Zaramela | 25 de Agosto de 2022 às 19h30

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Jacques-Louis David/Domínio Público
Jacques-Louis David/Domínio Público

A história do pênis de Napoleão é mais longa do que você poderia imaginar — isto é, se o item de colecionador do qual estamos falando realmente pertencer ao falecido imperador francês. Já gasta pelo tempo, ressecada, medindo 3,8 centímetros e guardada o mais secretamente possível pela filha de um urologista estadunidense, a relíquia passou pelas mãos de incontáveis donos.

Napoleão Bonaparte (1769-1821) nasceu na ilha da Córsega pouco tempo após ela ter sido adquirida pela França e faleceu no exílio, provavelmente de câncer, na ilha de Santa Helena. Logo após a sua morte, ele passou por uma autópsia na presença de 29 pessoas, incluindo 8 médicos, duas criadas, um padre e um serviçal.

É relatado que o médico François Carlo Antommarchi teria amputado o pênis do Bonaparte na preparação para o sepultamento do corpo, e o boato é de que foi por vingança: indo até o imperador exilado para lhe prestar cuidados médicos a contragosto, já que uma úlcera estomacal afligia o paciente, Antommarchi era aparentemente destratado, xingado e cuspido ao atendê-lo.

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A jornada do pênis de Napoleão

Tony Perrottet, historiador e jornalista, investigou a história para a confecção de um livro — Napoleon's Privates: 2500 years of History Unzipped — e descobriu que o médico teria vendido o suposto órgão a Ange Paulo Vignali, padre italiano que deu a extrema-unção a Napoleão. Também corso, o homem teria levado a relíquia para sua terra natal. Outras teorias dizem que o padre roubou o item.

O próximo dono ilustre foi o antiquário britânico Maggs Bros, que comprou o ressecado objeto da família do padre e o levou à fama de curiosidade nos anos seguintes. Depois, o pênis conservado chegou às mãos de Abraham Simon Wolf Rosenbach, assíduo frequentador de leilões estadunidense que o arrematou em um lote de antiguidades em 1924.

Só então a peça chega aos Estados Unidos e ganha alguma autenticidade, ao menos alegada: documentações da empresa do colecionador, incluindo um catálogo de 1920, descrevem uma "confirmação" de que o item seria autêntico pela Revue des Deux Mondes, onde memórias póstumas de St. Denis (um criado do ex-monarca) dizem que ele e Vignali levaram "pedaços do corpo" de Bonaparte em meio à autópsia.

Rosenbach guardou o órgão em uma caixinha de couro de Marrocos azul aveludada, onde está até hoje. Em 1927, o suposto pênis foi exibido no Museu de Arte Francesa de Nova York para todo o público. A imprensa da época descreveu "suspiros dos sentimentais" e "risadinhas das mulheres" sendo arrancadas pela vista do objeto, que foi comparado a uma "enguia enrugada".

Depois, o item foi vendido ao bibliófilo Donal Frizell Hyde, cuja viúva o acabou devolvendo aos sucessores de Rosenbach quando ele morreu, e então comprado pelo colecionador Bruce Gilmeson. O colecionador, por sua vez, tentou leiloar os restos de Bonaparte em 1972, mas sem um lance mínimo, acabou guardando-os para si.

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Cinco anos depois, John Kingsley Lattimer, urologista e entusiasta de objetos históricos, adquiriu a peça — e a deixou mais privada do que nunca, mostrando-a apenas a pessoas mais próximas. É calculado que menos de 10 pessoas a tenham visto desde essa época. A teoria da vingança médica na hora da amputação foi propagada por Lattimer, aliás. Quando morreu, o pênis foi passado à sua filha, e com ela está até hoje.

Mais comum do que parece

Louis Etienne Saint-Denis, o St. Denis que escreveu um relato sobre a autópsia, comenta que retirou alguns pedaços da costela de Bonaparte quando os médicos estavam distraídos. Não é tão incomum preservar partes do corpo de figuras históricas: o coração de Dom Pedro I, por exemplo, foi trazido ao Brasil recentemente para comemorar a independência do país.

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Napoleão teria pedido que seu coração fosse retirado após a morte e enviado para sua esposa, como presente, mas essa vontade não foi atendida. A prática de guardar e crer na força de restos mortais foi muito difundida no cristianismo, apesar de não ter nascido com a religião. Supostos ossos de santos são guardados em muitos lugares, como o fêmur de José de Anchieta, em São Paulo, e a língua de Santo Antônio de Pádua, na cidade italiana homônima.

Fonte: BBC