Entre negócios e gameplay: os próximos passos da BGS

Por Rafael Romer | 10.10.2014 às 15:48
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Dentro da BGS, o tempo do criador e organizador do evento, Marcelo Tavares, é tão disputado quanto o de um candidado à presidência em época de eleição. E não é para menos: hoje a Brasil Game Show é a maior feira de games da América Latina e aproveita o bom momento do mercado de jogos eletrônicos no Brasil, que cresceu 15,2% em 2013 em relação ao ano anterior e já responde por 34% de todo o mercado da região, segundo dados da Super Data.

Mas conseguimos um tempo para bater um papo com Tavares e falar sobre como o evento gigante se posiciona hoje no mercado, com uma expectativa de visitação de 250 mil pessoas até domingo e dobrando de tamanho há pelo menos três edições.

"O primeiro evento gamer que eu fiz foi um game-churrasco, um encontro de colecionadores em 2002, para 100 pessoas. Não deu muito certo, foi cerveja derramando no controle, choveu, carne por cima das coisas, uma ideia que não foi nada boa", contou. "Com o que a gente viu lá atrás, não dá nem para comparar com o que o evento é hoje".

Ao Canaltech, Tavares falou sobre o setor de negócios do evento, rebateu algumas críticas feitas ao preço e tamanho do setor indie, comentou a ausência de grandes publishers no evento deste ano e conversou sobre planos embrionários de criar inciativas regionais para alcançar pessoas que não podem vir hoje à BGS, realizada em São Paulo.

Canaltech: O mercado de games no Brasil já está crescendo bem há alguns anos, isso não é novidade. Mas como você encaixa a BGS nesse contexto de crescimento?

Marcelo Tavares: A gente já tem alguns exemplos de sucesso nos últimos anos, geralmente os jogos que são lançados aqui são os jogos mais vendidos, ganham mais visibilidade na mídia. A BGS consegue levar esses jogos para a TV aberta, coloca o videogame em evidência e deixa de ser algo de nicho, de um segmento só, para ser algo de todo brasileiro, ou de grande parte deles – são 45 milhões de jogadores no Brasil, segundo o Ibope. Acho que todos eles ficam felizes em ver o jogo aparecendo na televisão. De vir para cá e experimentar isso em primeira mão. E a feira apresenta as novidades para o país, é uma vitrine do mercado brasileiro para o restante do mundo. Tem vários executivos de fora que vêm aqui para sentir o mercado e é essa experiência que a gente quer mostrar para eles, que vale a pena.

CT: E como foi a transformação da BGS "mais gamer" para um evento em que se vê muitos negócios?

MT: A feira tem puxado o mercado, às vezes um expositor fala que quer 50 m², e eu falo 'não, você é um cara que merece ter 500 metros na feira, sua empresa é grande e tem muitos fãs'. Nem sempre a gente consegue convencer, mas às vezes sim. É claro que aparecem empresas novas no Brasil a cada ano, e isso é muito bom, oferece a possibilidade à feira de crescer. Mas a gente tem crescido além do que cresce o mercado, a gente faz um esforço muito grande, para crescer em um ritmo mais acelerado e puxar o crescimento desse mercado com a gente. Para trazer as empresas que não estão por aqui, para as que possam se representar cada vez mais de uma forma positiva. Trazer mais novidade em simultaneidade com o que há lá fora. A meta para o ano que vem é dobrar os produtores internacionais.

CT: A gente tem várias novas empresas expondo neste ano, mas algumas grandes deixaram a BGS, como LevelUp! e Riot. A que você atribui isso? O espaço ficou muito caro?

MT: Não houve questão de espaço caro, a gente não teve mudança de preço alguma. Acontece que há uma concorrência de mercado entre veículos de mídia, e quando há concorrentes que não são parceiros, eles infelizmente ficam chateados e acabam noticiando coisas que não são verdadeiras. Tem empresas que foram noticiadas que não estariam aqui e estão, como a própria Click Jogos, ou a Level Up!, que está presente junto com a Razer, entre outras empresas que nem sequer foram citadas, como a Konami, que está voltando para a feira, e a Tank Online, que está pela primeira vez. A gente tem esse ano muito mais ganhos que perdas. O que eu posso dizer é que quem não está aqui, está perdendo. A festa é para todo mundo e é para as empresas que querem fazer o mercado crescer. Quem não quer fazer o mercado crescer e não quer atender bem o seu fã, está com o pensamento completamente errado, porque a Brasil Game Show é a principal feira da América Latina. E aqui, o valor é infinitamente inferior ao que é cobrado em uma E3, por exemplo.

CT: Para o ano que vem vocês preveem empresas novas na feira?

MT: Já tem empresas fechadas. Aqui a gente pega uma pré-emissão de contrato, no salão de vendas, mas a gente só vai divulgar quando estiverem com o contrato efetivamente assinado, o que acontece ainda este mês.

CT: Sobre a área de matchmaking: não é o primeiro ano, mas ela toma um tamanho importante para a BGS. Qual a importância disso para o evento?

MT: A gente contratou uma empresa holandesa que já atua no mercado internacional, que promove essas rodadas de negócios e integração entre empresas brasileiras e estrangeiras, como fabricantes, desenvolvedores, grandes publishers... todo mundo pode se conhecer e interagir. É um sistema que tem tido sucesso pelo número de empresas cadastradas e de reuniões realizadas. Esse ano a expectativa é de quase 1,1 mil reuniões. O que é muito bom, porque ali são reuniões de negócios. Não é bate-papo. E é algo a que a gente quer continuar a dar suporte. É claro, a feira é 95% voltada ao jogador, mas tem que ter aquela parcela dedicada ao negócio. Assim, no ano que vem, teremos mais empresas participando.

CT: Falando em empresas novas, esse é o primeiro ano com uma área indie. Qual é a importância dessa área para o evento?

MT: O que gente precisa alavancar hoje no Brasil é a produção local. Eu acho que a gente precisa criar algumas iniciativas que se mantenham aqui. É importante que o governo ajude... hoje o governo não ajuda em nada, não apoia em nada, não faz nada, mas a gente está tentando fazer a nossa parte. O que a gente lamenta é que no Brasil há quase 200 desenvolvedoras nacionais, mas poucas têm a visão de planejamento, de fazer um business plan, de fazer uma ação de maketing para o seu produto, de incluir uma equipe de desenvolvimento de jogos, mais profissionais que possam ajudar no negócio.

CT: Não foram poucas empresas?

MT: A gente tem cerca de dez empresas, nem todas na área indie, algumas de fora. A Swordtales pegou uma área maior. Até mais, se você contar empresas estrangeiras como a Devolver, que é muito grande hoje. A gente tem chance de fazer algo ainda maior e melhor, e foi um primeiro passo. A gente tentou posicioná-las bem, são pequenas, mas têm estandes do lado dos gigantes.

CT: Algumas empresas reclamaram do preço, R$ 3 mil pelo espaço. Com você avalia isso?

MT: A gente nem pode divulgar, infelizmente é algo triste e lamentável essa postura. Com R$ 3 mil hoje você compra pouca coisa, faz pouca coisa. Eu te digo que na feira a gente está com lucro zero sobre os indies, a gente cobrou o custo de participação do espaço, mas infelizmente tem gente que não entendeu. Nós não somos o governo, não temos como fazer uma ação social nesse aspecto. A gente tenta fazer o que pode enquanto empresa, enquanto representante do mercado, mas a gente não consegue fazer uma ação gratuita. Somos cobrados por montar, adesivar e colocar energia elétrica no estande. São milhares de custos. Se todos os estandes custassem isso, a gente não conseguiria nem alugar o espaço do cimento.

CT: A BGS atingiu hoje um tamanho bem grande, e a expectativa é de 250 mil visitantes até domingo. Com o tamanho que a feira tem agora, você tem planos de quebrá-la em outros eventos?

MT: É difícil quebrar em feiras locais porque até no exterior isso não acontece, você tem uma grande feira na Europa, nos Estados Unidos, na Ásia. As regiões costumam ter uma grande feira porque demandam um esforço, um empenho, um investimento muito grande. Tem que ser um grande momento. Temos projetos, ideias, nada ainda 100% concreto, mas que estão em pauta, de fazer iniciativas diferentes relacionadas ao mercado de games que possam atingir outras regiões também.

CT: Eventos locais?

MT: Sim e não. A gente tem três projetos em estudo e vai se focar em um deles. Eu posso dizer que os três têm potencial para atender a outras regiões. Seja no formato de evento, ou não. Não seria no formato de Brasil Game Show de hoje, mas uma oportunidade de se aproximar dessas pessoas porque a gente sabe que nem todo mundo pode vir para cá.

CT: Mas você já vê pessoas do país todo e da América Latina por aqui.

MT: América Latina inteira, peruano, chileno, colombiano, tem time da Argentina, do Peru [que competirão no campeonato de Dota 2, realizado durante o evento]. Jornalistas internacionais vindo para cá... é bacana que atrai a indústria de fora. São pessoas que vêm para cá e veem que a feira é bacana. A gente vê coisas interessantes, o estande da Microsoft, por exemplo, é uma réplica do que se viu na E3. Até uma coisa que acontece lá nos Estados Unidos e que a gente teve aqui foi essa divisão [entre os estandes das concorrentes Microsoft e Sony], uma de frente para a outra. Isso cria um paredão. Porque ninguém quer se olhar de frente. Lá é igual, é a 'Faixa de Gaza', no bom sentido.

CT: E sobre a presença grande das varejistas aqui? Você tem dois estandes gigantes da Saraiva e das Lojas Americanas. Há muito interesse deles no mercado?

MT: Muito, porque é um evento que está na época dos lançamentos. No início do mês, a galera consome mais. É legal que eles conseguem fazer parcerias com as empresas de jogos aqui, oferecem brindes, autógrafos, fazem desconto, e até conseguem fazer lançamento na feira. Isso é interessantíssimo.

CT: E você tem dados de quanto é movimentado dentro da BGS?

MT: Não temos porque [as empresas] não divulgam esses dados. Aí a gente não trabalha com isso, nada de movimento na feira. Para a gente eles não querem divulgar, é uma cultura ruim, seria bacana divulgar o que está sendo gerado em negócios, em vendas...

CT: Mas que tipos de itens são mais vendidos?

MT: Jogos. Para esse ano, não tem dúvida, é o item número um. Tem umas surpresas... os cadernos, no ano passado, apareceram no topo. Os produtos licenciados, em geral, para ser mais abrangente, chamam muito a atenção. Acho isso bacana e o mercado brasileiro vai crescer muito nessa área. Aqui tá começando, você já vê um chinelo com marca de videogame, ou uma mochila.

CT: Você tem o estande do Cartoon Network, que traz bem esse conceito de experiência com a marca.

MT: Sim, isso eu acho que isso vai crescer. O projeto do estande em si é muito criativo [no estande, o visitante pode jogar um pinball gigante dos personagens da animação Adventure Time]. Com certeza para os próximos anos isso vai aumentar, a área de licenciados em geral vai crescer. Sem falar na gameficação, que é algo que vejo cada vez mais ganhando espaço nessa indústria.

CT: E a área de mobilidade? A gente não vê tanto destaque na BGS.

MT: Sim, a gente tem até desenvolvedores indies que fazem aplicativos nas áreas móveis, empresas que também trabalham com soluções de meios de pagamento. Até publishers grandes como a EA, Ubisoft, Activision, Sony e Microsoft também. E é uma área a que a gente quer procurar dar mais espaço. É que a feira, quer queira, quer não, acaba trazendo um público mais hardcore. E quem joga para mobile, em geral, é o cara que não é tão hardcore. Talvez por isso não vejo a área mobile do mesmo tamanho que ela ocupa no mercado.