Entenda por que o WeChat faz o WhatsApp parecer um messenger do século passado

Por Rui Maciel | 28 de Julho de 2020 às 11h00
Divulgação

Que o WhatsApp é o mensageiro - e aplicativo - mais popular do Brasil, isso é indiscutível. Para se ter uma ideia do poderio do app, uma pesquisa divulgada no começo do ano, apontou que o messenger do Facebook está presente em espantosos 99% dos smartphones no Brasil. Além disso, 93% das pessoas o utilizam diariamente. Já no mundo, o nosso querido "Zap" conta com mais de dois bilhões de usuários.

E tamanha popularidade tem seus méritos. O WhatsApp se destaca, principalmente, pela sua simplicidade. Ele é absurdamente fácil de manusear, com quase todos os seus recursos sendo acessados a um ou dois cliques de distância. Mesmo quem não tem muita familiaridade com Tecnologia consegue dominar suas funções em pouco tempo. Além disso, sua criptografia ponta a ponta é das mais seguras e, considerando a sua gigantesca base de usuários, há poucas chances de ele ser superado por rivais como o Telegram, Hangouts ou o seu "primo" Facebook Messenger.

Mas nem tudo é perfeito no mundo do Zap. Alguns de seus recursos não funcionam tão bem (que o diga as chamadas de voz e vídeo) e ele ainda conta com uma deficiência bem incômoda: novas funcionalidades demoram uma eternidade para serem implementados no mensageiro. Claro que isso não é exatamente um problema se levarmos em conta o tamanho de sua base e a concorrência quase inexistente no Ocidente. Mas é algo bem preocupante se o compararmos com o seu equivalente chinês, o WeChat. Perto dele, o WhatsApp parece um aplicativo de mensagens do século passado.

O verdadeiro conceito de super app

Claro que não cheguei a essa conclusão no achômetro. Na verdade, a ideia para essa matéria surgiu depois que eu tive contato com a versão "full" do WeChat, a partir do smartphone de uma amiga que mora na China e que está de férias no Brasil. Nele, pude analisar todos os recursos que o mensageiro da Tencent oferece, ainda que a maioria deles só funcionasse, na prática, na China. Compreensível.

Mas, mesmo assim, foi fácil perceber que o WeChat domina completamente o conceito de super app - ou seja, aquele aplicativo que traz todos os serviços que você precisa no dia a dia.

E navegando pelo WeChat é razoável concluir que ele É a sua vida. Ele não apenas permite que você se comunique com seus amigos e familiares, no melhor estilo WhatsApp. Ele traz uma gama de serviços integrados que transforma seu smartphone em uma espécie de faz-tudo. A partir dele, você:

  • Acessa serviços públicos (Public Services);
  • Agenda consultas médicas (Health);
  • Transfere dinheiro (WeChat Pay);
  • Aluga bicicletas e chama táxis (Ride Hailing); usa o transporte público e agenda voos (Rail & Flights);
  • Compra ingressos de cinema (Movie Tickets);
  • Pede comida (Food Delivery);
  • Adquire produtos tanto de grandes redes, quanto de comércios locais (Local Businesses);
  • Reserva hoteis (Hotels);
  • Encontra liquidações relâmpagos (Flash Sales);
  • Faz compras compartilhadas com outros amigos (Buy Together);
  • Pesquisa por produtos usados (Used Goods);
  • Descobre casas para alugar ou vender (Housing) no melhor estilo Airbnb e Quinto Andar.

Dúvida? É só dar uma olhada na tela abaixo do app:

Menu de serviços do WeChat: a sua vida dentro de um aplicativo (Imagem: Canaltech)

Tudo em apenas um aplicativo, sem lotar a memória do smartphone com outros apps. Aina que o WeChat tenha 180 MB. Meio pesado...

O WeChat Pay extinguiu o dinheiro na China

No Brasil, o Facebook briga com o Banco Central no Brasil para liberar uma versão "metzo" beta do seu sistema de pagamentos e transferências, o WhatsApp Pay. Mas na China, isso já é algo tão enraizado a partir do WeChat Pay (e do AliPay, do Grupo Alibaba) que o dinheiro em papel é algo praticamente extinto no país - e os cartões de crédito estão seguindo pelo mesmo caminho.

Mas você só tem uma noção do quanto esse conceito é evoluído, quando vê o recurso funcionando na prática. Primeiro, que o WeChat Pay funciona DE VERDADE como uma carteira digital. É comum que os chineses mantenham todo o seu dinheiro - ou boa parte dele - no aplicativo em questão, a ponto de você correr o risco de perder suas economias caso se esqueça da senha para acessar o programa. Mas, de modo geral, você não precisa ter um app bancário.

No mais, o processo de fazer transferências e pagamentos é absurdamente simples e rápido, como você pode ver abaixo:

Passo 1: abra a função da carteira digital e escolha o valor:

Passo 2: escolhido o valor, você define como autorizar a transferência. Pode ser uma senha numérica ou biométrica, como reconhecimento facial:

Passo 3: pronto! Transferência e/ou pagamento feito! A pessoa receberá uma confirmação no mensageiro e apenas após clicar nela (aviso em laranja), a operação é finalizada:

Um vasto universo de e-commerce dentro do WeChat

Para além de pagamentos e concentração de diversos serviços em um único lugar, o conceito de super app no WeChat ganha força quando falamos de e-commerce. O aplicativo é uma plataforma robusta para compra de uma infinidade de produtos, sem que você tenha de sair a caça em diversos sites.

Atualmente, o WeChat traz três canais de e-commerce que permitem compras de todos os tipos. São eles:

WeChat Store

O WeChat Store é o equivalente a um site de comércio eletrônico e focado apenas na rede social dentro do app. Configurar uma loja no WeChat Store permite oferecer aos usuários uma maneira rápida de acessar seus produtos e, claro, comprá-los através do WeChat Pay.

WeChat Store (Imagem: Canaltech)

Outra vantagem importante de uma loja presente na WeChat Store é que você pode usá-la para serviços de atendimento ao cliente. Por exemplo, é possível oferecer assistência e enviar notificações e promoções para aprimorar a retenção de compradores.

WeChat Mini Programs (ou Mini Programas WeChat)

Os WeChat Mini Programs são muito semelhantes ao WeChat Store, mas trazem um funcionamento diferente. Uma loja na WeChat Store tem como objetivo oferecer uma experiência de e-commerce otimizada para WeChat. Já um estabelecimento no Mini Programs é uma "sub-aplicação" executada dentro do ecossistema do WeChat.

Ele permite que empresas terceirizadas desenvolvam mini programas, fornecendo recursos avançados para que os usuários tenham uma experiência completa dentro do próprio app, como se estivesse em um site, com acesso a cupons de desconto, localização e recarga de créditos de serviços de mobilidade e muito mais.

WeChat Mini Programs: "mini e-commerces" dentro do WeChat (Imagem: Canaltech)

A Tesla, por exemplo, usa um mini programa dentro do WeChat para que os usuários localizem estações de carregamento, agendem um test-drive e compartilhem suas experiências sobre guiar um carro da marca; já a Mobike, serviço de compartilhamento de bicicletas permite que os usuários localizem a "magrela" mais próxima, desbloqueie e recarregue os créditos. Até mesmo serviços que, em tese, seriam concorrentes do WeChat marcam presença no Mini Programs, como é o caso da JD.com, segunda maior plataforma de e-commerce da China.

A Tesla tem o seu mini programa dentro do WeChat (Crédito da foto: walkthechat.com)

Além de tudo isso, entre outras vantagens desta modalidade estão a facilidade de uso, o carregamento instantâneo e zero ocupação de memória no smartphone.

Publicidade como nas redes sociais ocidentais

Assim como acontece nas principais redes sociais deste lado de cá do planeta e que são proibidas na China, o WeChat oferece recursos de publicidade e marketing dentro app, capazes de aumentar o reconhecimento da marca e, claro, vender mais.

O WeChat permite a execução de estratégias de publicidade semelhante às redes sociais ocidentais (Imagem: Canaltech)

Para isso, a plataforma permite aos lojistas criar conteúdo direcionado ao seu público-alvo e alcançá-lo com promoções, vendas instantâneas e campanhas de doação. Os e-commerces também podem fazer parcerias com influenciadores locais, executar campanhas de pagamento por clique e muito mais.

WeChat CRM

O WeChat CRM permite que os e-commerces dentro do app fiquem conectados aos seus clientes. Esse recurso permite a coleta de informações sobre potenciais compradores (e clientes habituais), acompanhando o comportamento deles na plataforma. É possível usar o WeChat CRM para oferecer suporte instantâneo na rede social e monitorar quando eles falam sobre a marca ou deixam comentários.

Toda essa informação é essencial para que os e-commerces dentro do app organizem sua estratégia geral de marketing, atendendo às necessidades dos clientes e planejando campanhas publicitárias mais eficazes. Assim como acontece nas redes sociais ocidentais - proibidas de funcionar na China, sempre bom lembrar.

Sim, há um custo para todas essas comodidades

Bom, como não existe almoço grátis nessa vida, é evidente que todas as comodidades trazidas pelo WeChat teriam um preço. E esse valor atende pelo nome... privacidade. Afinal, em se tratando de um app chinês e que opera majoritariamente na China, não foi surpresa nenhuma quando foi descoberto que a Tencent, administradora do aplicativo, anunciou em uma atualização dos termos de privacidade que compartilhava os dados dos usuários com o governo chinês.

Segundo os termos de uso, o WeChat pode "preservar, divulgar e reter suas informações por um longo período de tempo". Com isso, os usuários podem ter expostos nome, e-mail, número de contato e até localização. Tudo isso, claro, para cumprir ordens judiciais e colaborar com "pedidos" do governo (leia-se, liberem esses dados logo). Essa entrega de informações vale também sempre que a Tencent acreditar que alguma lei ou regulação tenha sido quebrada e também caso ela julgue que exista algum risco à segurança de seus usuários, parceiros ou a sua própria.

Bom, como estamos falando da China, então nada disso chega a espantar, sejamos honestos.

Bonus track

Não conseguimos entender para que serve o recurso da tela abaixo, mas ele deve ser, no mínimo, curioso de ser usado. Uma espécie de Tinder com "tempero chinês", talvez? Super app é isso!

E aí, o que você achou do WeChat em relação ao WhatsApp? Você trocaria de serviço?

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