Fuchsia OS: tudo o que sabemos sobre o misterioso sistema operacional do Google

Fuchsia OS: tudo o que sabemos sobre o misterioso sistema operacional do Google

Por Igor Almenara | Editado por Douglas Ciriaco | 19 de Junho de 2021 às 10h00
Google/Divulgação

Por se tratar de uma das maiores empresas do mundo, o que o Google desenvolve nos seus laboratórios chama a atenção. O Fuchsia OS é um desses projetos secretos que há algum tempo aparecem em notícias que atestam evolução discreta e prometem grandes novidades para o futuro.

O Fuchsia (o nome vem da cor fúcsia) é um projeto do Google descoberto em 2016 em um repositório de código da empresa no GitHub. Ele seria um sistema operacional construído do zero, livre do kernel Linux e feito sobre um microkernel chamado Zircon, escrito em linguagem C e destinado a sistemas embarcados.

Mas ele é um espaço para experimentação ou uma grande aposta que tomará o lugar do Kernel Linux do Android ou Chrome OS no futuro? O que as notícias falam sobre ele desde a sua descoberta? Para esclarecer alguns pontos nesse debate, o Canaltech reuniu as principais informações acerca do SO e tenata desenhar o progresso desse misterioso software que parece crescer em segredo.

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A curiosidade move montanhas

Uma das primeiras perguntas levantadas por esse projeto misterioso é: por que Fuchsia OS? Por si só, o nome de batismo não parecia aleatório. Uma das teorias o apontavam como a soma de duas cores: rosa, de pink, em inglês, como era o codinome de um dos protótipos do macOS, da Apple; e roxo, ou purple, como era conhecido o projeto confidencial que deu origem ao iPhone, iniciado em 2004.

A escolha peculiar de cores levanta suspeitas sobre a finalidade da plataforma. De primeira, a internet acreditou que ele seria o sistema do Google para suceder o Android em celulares e tablets. Contudo, o código encontrado no GitHub indicou algo mais do que um simples irmão para o robozinho.

Um sistema operacional para todos governar

A estrutura do Fuchsia OS apresentava sinais de alta escalabilidade, isto é, ele poderia rodar tanto em dispositivos avançados, como celulares e computadores, quanto integrar hardware de carros, relógios e sinais de trânsito. Versatilidade que, hoje, é um dos objetivos do HarmonyOS da Huawei, por exemplo.

Fuchsia OS embarcaria até em smartwatches (Imagem: Reprodução/9to5Google)

Após a primeira aparição, o sistema operacional do Google continuou evoluindo às escuras. Em 2017, o site Ars Technica flagrou melhorias no código e o desenvolvimento de uma interface de usuário chamada Armadillo em um protótipo. Pela primeira vez, o software foi equipado com elementos visuais mais amigáveis.

Na edição do Google I/O daquele mesmo ano, o vice-presidente de engenharia do Android, Dave Burke, comentou que o Fuchsia era um projeto experimental entre vários outros que existiam no Google. Segundo ele, “muitas pessoas inteligentes trabalhavam” no sistema e que, de certa forma, ele diferia do Android.

Em 2018, um dos desenvolvedores da equipe do Fuchsia, Travis Geiselbrecht, contrariou o comentário do executivo por meio de um dos canais abertos da iniciativa. “[O Fuchsia OS] não é um brinquedo, projeto de 20% ou um resto de plataforma para o qual não ligamos mais”, disse o programador. Então, as coisas voltaram a ficar confusas.

Um hiato misterioso

Depois desse período, o software do Google sumiu do mapa. O desenvolvimento parecia ter sido suspenso, porém, em 2020, ele voltou a ser destaque na internet ao ter seu código aberto expandido para permitir a contribuição de desenvolvedores de fora da companhia.

Na publicação de anúncio, a Gigante da Web fez algumas revelações importantes: a primeira, de que o Fuchsia é um projeto de longo prazo com “propósitos gerais”; a segunda, que o software é desenhado para priorizar segurança, capacidade de atualização e desempenho; por fim, que ele é desenvolvido por uma equipe exclusiva.

O repositório de código da plataforma esteve aberto desde 2016, mas o Google deu a ele um site dedicado. De lá, curiosos poderiam acompanhar a evolução do protótipo ao longo dos anos. Além disso, foram abertos meios para captar o feedback da comunidade (por e-mail e por um portal “issue tracker”).

O site é um ambiente destinado a desenvolvedores interessados no projeto (Imagem: Reprodução/Google)

Nesse meio tempo, as principais descobertas sobre o sistema foram feitas por curiosos, seguindo pistas deixadas a cada evolução de código. Entre os achados estão a intenção do Google em implementar suporte nativo para aplicativos Linux e Android no Fuchsia e os preparativos da Samsung para adotá-lo no futuro.

Qual a interface do Fuchsia OS?

A Armadillo, como é conhecida a interface do sistema misterioso, é bem rudimentar. Na prática, pouquíssimas coisas são funcionais e boa parte dos elementos parece experimental. O visual é recheado por cartões, bandejas, ícones de navegação, organização em lista e "aplicativos" divididos em abas.

O visual fez a internet pensar que o Fuchsia OS era, de fato, apenas um ambiente de experimentação de recursos que alimentariam outros projetos, como o Android e o ChromeOS. Pouquíssimos elementos dele eram interativos ou personalizáveis; aplicativos disponíveis não funcionavam ou consistiam apenas de uma demonstração.

Atualmente, o sistema pode ser executado também com o Fuchsia Emulator (FEMU) em distribuições Linux, como bem demonstra o vídeo abaixo, produzido pelo site 9to5Google. O processo de instalação é extremamente complicado e não tem aplicação além de estudo.

A noção de que se tratava de um protótipo mudou em maio de 2021, quando o Google finalmente liberou para o público o Fuchsia OS em versão final — completo, com interface gráfica, apps operando como esperado e tudo no seu devido lugar. No entanto, ele chegou apenas ao Nest Hub original, lançado em 2018.

A estreia do Fuchsia OS

Para surpresa de todos, a primeira aparição da plataforma não foi em um celular, mas na primeira geração da tela inteligente que dá corpo ao Google Assistente. A aparência, por sua vez, não introduziu nenhuma novidade, visto que é baseada no Flutter, um conjunto de ferramentas para desenvolvimento de elementos gráficos também utilizado no Cast OS.

Nest Hub dá corpo e display para o Google Assistente (Imagem: Divulgação/Google)

A mudança quase imperceptível, de certa forma, sugere qual a estratégia da companhia para o projeto: o Google quer experimentar o sistema em cenários limitados, colocando-o como uma troca nada chamativa para testar sua versatilidade em casos de uso específicos.

Se nenhum problema for encontrado, a companhia provavelmente dará sequência aos planos. Além de discreta, a implementação no Nest Hub seria, no geral, simples. Nesses dispositivos, não há demanda por um gerenciamento de recursos avançado para multitarefas ou cargas de atividade intensas como há em celulares e computadores.

O que diz o Google

O portal dedicado ao Fuchsia o descreve como um "novo sistema operacional de código aberto atualmente em desenvolvimento". "Estamos construíndo o Fuchsia desde o Kernel para atender as demandas do crescente ecossistema de dispositivos conectados", explica o Google.

Segundo a página, "o Fuchsia está evoluindo rapidamente, mas os princípios e valores do sistema permaneceram relativamente constantes ao longo do projeto". Novamente, a companhia estabelece que os fundamentos que orientam o desenvolvimento do projeto são segurança e capacidade de atualização. Todavia, inclui dois novos: inclusividade (por ter suporte para uma variedade de linguagens e tempos de execução) e pragmatismo.

O Fuchsia OS tomará o lugar do Android?

De forma breve: é (muito) cedo dizer. Embora seja claro quanto aos passos tomados pelo Fuchsia OS, o Google mantém em segredo seus planos para ele. Até mesmo a estratégia de distribuição por cenários limitados está no campo das especulações.

Para substituir o Android, o Fuchsia precisaria estar em um altíssimo nível de amadurecimento. O sistema do robozinho, que caminha agora para mais uma geração, é extremamente eficiente na tarefa de embarcar em smartphones de diversos tipos e garante aos fabricantes a capacidade de customização, até mesmo de adicionar recursos não nativos sobre ele.

Android 12 mostrou que o sistema do robôzinho não tem sinais de cansaço (Imagem: Divulgação/Google)

Consolidado e em constante evolução, o Android continua sendo uma das soluções mais avançadas do mercado mobile. Para virar a página e mudar para o Fuchsia OS, o Google precisaria antecipar essa decisão em anos, especialmente para que as fabricantes estudem o sistema e implementem sua própria abordagem.

Por outro lado, o robozinho não dá sinais de cansaço. No Android 12, o Google deu passos importantes na evolução da plataforma: estreou o Material You, sua nova linguagem de design, inaugurou ferramentas de privacidade avançadas e continuou imaginando novas maneiras de tornar o celular um aliado.

Nada está escrito em pedra

Lendo essa reunião de informações dá para notar que as descobertas relacionadas ao Fuchsia OS aconteceram ao longo dos anos. Nesse mesmo tempo, a percepção sobre o que seria esse projeto também mudou, transitando entre a forte crença de que se tratava de um protótipo, um ambiente em que o Google testava suas ideias, para um sistema operacional completo — mas não somente para smartphones.

Um bom retrato da evolução desse tema são os materiais e notícias relacionadas ao projeto. Aqui mesmo, no Canaltech, o Fuchsia OS foi visto como um possível substituto para o Android em 2019. A cada novo passo dado pelo Google, o cenário muda significativamente. Por isso, é importante continuar atento às alterações do sistema.

Desde que estreou no Nest Hub, o Fuchsia OS voltou ao silêncio na internet. No entanto, assim como foi sua estreia na tela inteligente, revelações igualmente importantes podem acontecer de uma hora para outra.

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