Cabos submarinos | Como funciona a tecnologia que conecta pessoas e continentes

Por Thaís Augusto | 26 de Fevereiro de 2019 às 10h04

Um mundo conectado por cabos. A descrição é uma dica para decifrar a tecnologia que permite a uma mensagem atravessar milhares de quilômetros até disparar uma notificação no celular do seu amigo no Japão. Mais uma pista: o equipamento tem o diâmetro da palma de uma mão e está enterrada no fundo do oceano.

Atualmente, os cabos submarinos são responsáveis por 99% das comunicações transoceânicas (entre locais separados por um oceano) feitas em todo o mundo. Com fibra ótica, os cabos conseguem transmitir dados como voz, imagens e mensagens.

Mapa mostra a extensão de cabos submarinos pelo mundo. Imagem: Reprodução / TeleGeography

No Brasil, existem seis cabos submarinos em funcionamento. Eles estão enterrados a até 1.000 metros de profundidade no oceano com um revestimento metálico de duto. Isso evita danos por ataques de tubarões ou barcos de pesca. Em regiões mais fundas, onde o risco é menor, os cabos são mais finos.

A instalação é realizada por um navio. Antes, entretanto, um instrumento acoplado à embarcação criava fendas na terra ao fundo do oceano, onde o cabo será depositado. O processo é demorado: só enrolar o cabo para colocá-lo no navio pode demorar três semanas.

Os cabos submarinos têm uma série de vantagens em relação aos satélites: chuvas fortes e tufões não conseguem afetar o seu sinal e o tráfego de dados é até 1.000 vezes maior do que o do satélite.

Isso significa que a fibra ótica consegue trasmitir o equivalente ao que cabe em 102 DVDs em um segundo. Já os satélites não conseguem nem enviar o conteúdo de um DVD no mesmo período de tempo – e ainda exigem que o sinal percorra uma distância maior para conectar dois locais. Fora isso, os satélites também apresentam problemas de latência, que é o tempo que uma informação demora para chegar ao seu destino.

O cabo submarino percorre uma distância de 9.000 km entre Tóquio e Los Angeles. A mesma viagem realizada por um satélite soma 72.000 km. Imagem: Reprodução / NEC

Mais conexão

O Brasil anunciou em abril de 2018 a construção de um cabo submarino para conectar diretamente o país com a Europa. O EllaLink será inaugurado neste ano com 9.400 quilômetros de extensão. O cabo sairá de Santos (SP), com parada em Fortaleza (CE) até cruzar o Atlântico e chegar em Sines, no sul de Portugal.

Além de Fortaleza, estão previstas outras três paradas no caminho: na ilha de Cabo Verde, nas Ilhas Canárias e na Ilha da Madeira. O custo da estrutura ultrapassa R$ 670 milhões. O projeto é financiado pela Telebras e pela espanhola Isla Link.

O EllaLink será o segundo a conectar o Brasil à Europa. A diferença é que o seu antecessor, o Atlantis-2, tem baixa capacidade de transmissão de dados e já está velhinho: ele foi inaugurado em 2000.

Os outros seis cabos em funcionamento ligam o Brasil aos Estados Unidos. A Google foi responsável por ativar o mais recente deles, em 2018. O MONET conecta as cidades de Santos, Fortaleza e Boca Ráton, na Flórida.

Além do MONET, mais dois cabos da Google já estão no fundo do mar. Com 2 mil quilômetros, o TANNAT será complementar ao primeiro e vai ligar Praia Grande à cidade de Maldonado, no Uruguai. Neste caso, o cabo foi construído em parceria com a Antel, do Uruguai, e deve fornecer capacidade de transmissão de até 90 terabytes por segundo.

O segundo e menor é o JÚNIOR, cujo objetivo é conectar a Praia Grande (SP) à cidade do Rio de Janeiro (RJ), num total de 390 quilômetros. Também integrado ao MONET, a proposta é que ele tenha oito pares de fibras ópticas para melhorar a velocidade de conexão entre dois dos estados mais populosos do Brasil.

Vida marinha

Os animais do fundo do mar acabam interagindo com os cabos submarinos. Por isso, os equipamentos recebem um reforço de proteção em águas mais rasas.

Em 2014, por exemplo, tubarões atacaram cabos subaquáticas da Google. A construção afetada interligava Estados Unidos e Japão. Mas a tecnologia pode afetar o ecossistema destes animais?

Com a pergunta em mente, pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, passaram a estudar as comunidades marinhas que vivem em torno de cabos submarinos. Em 2016, eles descobriram que os campos eletromagnéticos emitidos pela tecnologia têm pouco efeito no ecossistema.

"O medo é que você tenha todos esses cabos de energia no fundo do mar, e que os organismos marinhos os detectem de alguma forma e isso altere seu comportamento", disse o professor da UC-Santa Barbara e coautor do estudo, Milton Love. "Nós realmente não vimos nenhuma diferença marcante entre os que vivem próximos à um cabo energizado e os demais", observou Love.

Estimativas apontam que os cabos submarinos exigem mais de 50 reparos por ano – eles são quebrados por diversos motivos que incluem ataques de tubarões, terremotos e a pressão da água na profundidade. Apesar de tantos incidentes, a maior ameaça – cerca de 60% dos cortes de cabos subaquáticos – é proveniente de âncoras de navios e redes de pesca.

Outros incidentes foram registrados ao longo dos anos, e nem envolviam a vida marinha: em 2006, um terremoto cortou um cabo e interrompeu o acesso à Internet em Taiwan. No ano seguinte, 100 toneladas de cabos submarinos que conectavam Tailândia, Vietnã e Hong Kong foram roubados. Os ladrões tentaram vendê-los como sucata e a região ficou sem internet por vários meses.

Se sobreviverem a tantos acontecimentos, os cabos submarinos têm vida útil de até 25 anos.

Como surgiram

O primeiro cabo submarino surgiu em 1858 após a criação do telégrafo, um aparelho de transmissão e recepção de mensagens a distância por meio de sinais.

O cabo foi construído pela Cyrus West Field e demorou quatro anos para ficar pronto. Ele ligava a Inglaterra aos Estados Unidos. A primeira mensagem foi da rainha Vitória, da Grã-Bretanha, para o presidente americano James Buchanan. O texto curto incluía a frase Glory to God in the highest, and on Earth, peace, good will to men ("Glória a Deus nas alturas, e paz na terra entre os homens a quem ele quer bem").

A mensagem foi emitida às 10h50 do dia 16 de agosto de 1858 e só chegou às 4h30 do dia 17. Pode parecer um longo tempo, mas foi muito mais rápido do que um navio. Os dados cruzaram o oceano pelo cabo protegido por uma mistura de cânhamo alcatroado (uma espécie de tecido produzido com a folha da planta Cannabis) com borracha indiana.

Estrutura atual dos cabos submarinos. O cabo à esquerda é usado em águas profundas. O outro tem proteção reforçada contra ataques de tubarão, por exemplo. Imagem: Reprodução / NEC

A trasmissão era limitada e permitia que apenas duas palavras fossem transmitidas por minuto. O cabo foi desativado depois de um mês de funcionamento pela sobrecarga de energia usada para transmitir mensagens.

Entre 1866 e 1868 outro cabo transatlântico foi construído pelos ingleses. A partir dos anos 1870, a rede foi expandida para o Oriente, onde estava localizada uma colônia britânica na Índia e os cabos submarinos usados pelos telégrafos começaram a se espalhar pelo mundo.

Nos anos 1940, com a Segunda Guerra Mundial, os cabos submarinos foram convertidos para serem usados para telefonia. O domínio já não era dos britânicos, mas das empresas americanas. Só nos anos 1980 surgiria a tecnologia da fibra ótica.

Mas os cabos submarinos não servem só para a transmissão de mensagens. Em 2013, por exemplo, Edward Snowden revelou que a agência de vigilância dos Estados Unidos monitora os cabos de todo o mundo. Snowden foi administrador de sistemas da NSA e tornou públicos detalhes de vários programas que constituem o sistema de vigilância americana.

A construção do cabo MONET, que conecta Brasil e Europa, foi projetado para não passar pelos Estados Unidos, impossibilitando intervenções do país.

A Antártica é o único continente sem conexão com cabos submarinos: as temperaturas baixíssimas e a movimentação das plataformas de gelo dificultam a sua instalação.

Fonte: NEC, Newsweek, The Guardian, Pacific Standard e Submarine Cable Map

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