Crítica | 2ª temporada de Sex Education volta a dar aula e a quebrar tabus

Por Natalie Rosa | 21 de Janeiro de 2020 às 09h47
Divulgação: Netflix

Aos poucos, a sexualidade vem sendo tratada mais como algo natural, o que de fato é, do que como um tabu no mundo do entretenimento. Estamos falando aqui de cenas de sexo consentidas, claro, não das bizarrices vistas em séries medievais, como em Game of Thrones, que continha estupro e incesto para chocar a audiência — e seria estranho se não chocassem, não é mesmo? É pensando exatamente nisso que surgiu a série britânica Sex Education, que chegou à Netflix em 2019 e acabou de ganhar a sua segunda temporada.

A sexualidade começa a aflorar ainda na adolescência e se mistura com outros sentimentos conflitantes que surgem no cérebro desses jovens graças aos benditos hormônios. Na trama, vemos a relação sexual não só como um divertimento para os jovens, mas sim como uma descoberta do próprio corpo e das diferentes formas de sentir prazer. O ato é retratado até mesmo quando deixa de ser prazeroso para causar traumas.

Para entender melhor a importância da abordagem de Sex Education, é preciso analisar a trajetória de cada personagem e a maneira como ela é retratada, o que também faz com que a série seja tão grande.

Atenção: esta matéria contém spoilers de Sex Education!

Jean, terapeuta sexual em Sex Education (Imagem: Divulgação/Netflix)

A evolução dos protagonistas

Na primeira temporada, conhecemos a personagem Jean (Gillian Anderson), uma terapeuta sexual, e o seu filho Otis (Asa Butterfield), que são os protagonistas da trama. Dessa vez, nos novos episódios, a sexóloga experimentou novas emoções e ainda levou mais do seu conhecimento para a escola de Otis, sendo contratada pela instituição após uma suposta epidemia de DST (Doença Sexualmente Transmissível) causar pânico. Mas, comprovando que, para muitos, falar de sexo ainda é um tabu, Sex Education consegue mostrar que o medo de falar sobre o assunto causa histeria devido à falta de informação.

Na escola, vemos Jean sofrendo preconceito do diretor Mr. Groff (Alistair Petrie), que além de não ter vontade de tocar a sua esposa, acha um absurdo que esse tipo de informação seja propagado na escola. Aliás, o diretor do colégio é um personagem que não evolui em absolutamente nada, apenas entra em decadência, inclusive perdendo a sua esposa que, ao fazer amizade com Jean, começa cada vez mais a pensar em si própria. Mas já voltaremos a falar sobre isso.

Otis e Eric (Imagem: Divulgação/Netflix)

Jean ainda descobre, depois de um relacionamento conturbado com o pai de Otis, que é capaz de se apaixonar novamente, contradizendo preconceitos que acreditam ter como certeza que pessoas sexualizadas não podem ter relacionamentos românticos. A personagem vive momentos tão intensos como os dos adolescentes, com os sentimentos à flor da pele, passando por situações de amor, culpa e decepção. Esse desapontamento vem em sua maioria por parte de Otis, aquele rapaz que na primeira temporada não conseguia nem se tocar e que agora acabou se tornando um viciado na prática.

Antes fosse só esse o problema de Otis, que também teve uma fase muito intensa na segunda temporada, envolvendo o seu relacionamento com Ola (Patricia Allison), com quem namorava, Maeve (Emma Mackey), por quem realmente é apaixonado, a mãe Jean e seu namorado Jakob (Mikael Persbrandt). Vemos o jovem parar de se preocupar tanto com o sexo para refletir sobre o seu caráter e as atitudes egoístas que ele tem com as outras pessoas, mostrando que a educação da série não é só sexual, mas também moral. Se é verdade o que dizem, que quando uma pessoa bebe demais ela revela quem realmente é, Otis sentiu isso na pele.

Ola e Otis (Imagem: Divulgação/Netflix)

Mais aceitação e descobertas na sexualidade

Eric (Ncuti Gatwa), que pode ser considerado um protagonista junto com Otis, Jean e Maeve, nesta temporada é uma pessoa mais leve e feliz. Sem a família preocupada sobre sua sexualidade e sem Adam (Connor Swindells) enchendo o seu saco (negativamente), ele acaba tendo a história mais tranquila de toda a temporada. Ele conhece um garoto novo que acabou de chegar na escola vindo da França, o Rahim (Sami Outalbali), que consegue ser muito mais bem resolvido do que Eric e logo já demonstra o seu interesse, até que eles começam a namorar.

Rahim (Imagem: Divulgação/Netflix)

O problema surge quando o caso não resolvido com Adam volta à tona. Relembrando da situação dos dois, Adam fazia muito bullying com Eric por, na verdade, ser como ele e não se aceitar. Eles acabam se beijando na primeira temporada, mas logo depois Adam é enviado a outra escola pelo pai, Mr. Groff. Adam é uma pessoa visivelmente triste, desde a primeira temporada, e apenas nos últimos episódios vemos ele esboçando um sorriso e descobrindo uma amizade verdadeira.

Por ter o pai extremamente controlador, nunca conseguiu expressar a sua sexualidade e isso acaba refletindo em todas as outras questões de sua vida. A repressão da orientação sexual, do afeto e da liberdade de ser o que é e fazer o que sente vontade é retratada em Sex Education, indo além do ato em si e chegando na raiz de vários problemas e questões psicológicas.

Lily e Ola (Imagem: Divulgação/Netflix)

Outra pessoa que acaba aflorando a sua verdadeira sexualidade é Ola, que mesmo após uma desastrosa relação com Otis conseguiu seguir com a sua vida explorando o bissexualismo. Isso acontece quando ela começa a ter sonhos eróticos com a sua melhor amiga, Lily (Tanya Reynolds), que mesmo hesitando no começo, acaba cedendo aos seus sentimentos.

E falando em repressão, o personagem Jackson, papel de Kedar Williams-Stirling, finalmente conquista a sua liberdade no fim da temporada, quando ele consegue deixar claro para as suas mães que não quer seguir a carreira de nadador e que está bastante interessado no teatro, participando de sua primeira peça — uma versão pós-moderna e sexualizada de Romeu e Julieta.

Jackson e suas mães (Imagem: Divulgação/Netflix)

Isso acontece graças a uma nova personagem, Viv (Chineye Ezeudu), com quem acaba desenvolvendo uma grande amizade após ela ser contratada pelas mães de Jackson para ajudar o filho na escola.

Maeve, mais uma vez, mostrando o poder da amizade feminina

Maeve é uma personagem que sofre bastante, mas que permanece forte. Na segunda temporada, a questão do vício em drogas é retratada pela mãe de Maeve, que retorna com uma filha no colo depois de ter abandonado Maeve e o irmão em seu trailer há alguns anos. Motivada a dar uma segunda chance para a mãe, mais uma vez a jovem é decepcionada e precisa se manter firme. Mas um dos momentos mais marcantes da saga da personagem nesta segunda temporada é a sua amizade com Aimee (Aimee Lou Wood), que foi violentada sexualmente dentro de um ônibus a caminho da escola.

Aimee e Maeve (Imagem: Divulgação/Netflix)

A garota acaba ficando traumatizada e com medo de pegar transporte público novamente, e isso é retratado na série em várias fases: primeiro a negação, fingindo que não foi nada e que isso não a afetou; a preocupação, quando começa a entender que aquilo não deveria ter acontecido; e o trauma, que a impede de viver coisas simples do dia a dia, como ir à escola ou pegar na mão de seu namorado.

Depois que suas amigas descobrem que todas elas têm em comum o fato de um dia terem sido assediadas por algum homem, elas decidem ficar ao lado de Aimee e, em uma cena emocionante do último episódio, todas aparecem para pegar o ônibus com a jovem depois de ela ir à pé para a escola por dias. É quando a rivalidade entre Maeve e Ola também vai se amenizando, entendendo a bobeira que era sofrer por Otis.

Aimee e suas amigas (Imagem: Divulgação/Netflix)

Sex Education manteve a fórmula da primeira temporada, focando nos problemas de cada personagem para gerar identificação para a vida real. A trama desconstrói o achismo de que adolescente sofre "por nada", mostrando que é uma época de descobertas e entendimentos em todos os sentidos.

A série ainda mostra a importância da educação sexual na escola, algo que nem sempre é explicado dentro de casa, para prevenir não só doenças sexualmente transmissíveis, como também para ajudar na formação pessoal de cada um, sem se achar uma aberração por ter desejos, por querer se tocar ou descobrir atração sexual por outra pessoa, pois o sentimento de culpa pode trazer consequências graves para um adolescente, que pode passar uma vida inteira se reprimindo.

Conversar, educar e conhecer outras realidades é essencial para uma vida tranquila em todas as áreas, não só na sexualidade. Isso é algo que Sex Education faz com maestria e sem deixar a desejar.

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.