Google e Facebook se manisfestam contra app de reconhecimento facial; entenda

Por Diego Sousa | 07 de Fevereiro de 2020 às 11h25
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Parece que uma pequena startup americana está dando dor de cabeça às grandes empresas de tecnologia e redes sociais do mundo. Após o Twitter, em janeiro, ter se manifestado contra as práticas da Clearview AI, Google, Facebook, Vinno e LinkedIn enviaram cartas de cessar e desistir à empresa com o objetivo de impedir que sua poderosa ferramenta de reconhecimento facial extraia fotos e dados de suas plataformas.


Segurança ou violação de privacidade?

Person of Interest é uma série onde os protagonistas utilizam um programa de reconhecimento que determina os indivíduos que em breve estarão envolvidos em crimes violentos (Foto: Reprodução)

Um programa de reconhecimento facial que identifica os indivíduos que em breve estarão envolvidos em crimes violentos. Essa é a premissa da série fictícia Person of Interest (2011-2016), da CBS, que abriu, na época, uma série de discussões sobre as aplicações de um dispositivo tão poderoso nas mãos de alguém. Em posse das autoridades, seria a possibilidade de rastrear criminosos para ajudar na resolução de crimes. Mas também há a questão da privacidade, aliás, quem estaria disposto a permitir que suas informações sejam compartilhadas com todo mundo na Internet? Esse é o princípio básico por trás da solução da Clearview AI, um software de reconhecimento facial, que pode identificar uma pessoa comparando sua imagem em um imenso banco de dados, com mais de três bilhões de imagens, da Internet.

Por exemplo: Se você tira uma foto de uma pessoa, é possível ver suas fotos públicas, links de onde essas fotos aparecem, quando foram tiradas e outras informações - os resultados são 99,6% precisos, segundo seu criador, Hoan Ton-That, em entrevista à CBS News. A Clearview AI diz que esse extenso banco de imagens vem de dados extraídos de redes sociais como Facebook, Twitter e LinkedIn, plataformas, como YouTube, e milhões de outros sites. À princípio, a empresa afirma que o serviço de reconhecimento avançado está sendo utilizado no combate ao crime, fornecendo-o para mais 600 departamentos policiais. Apesar de existir há algum tempo, o trabalho da empresa ganhou repercussão após uma reportagem do The New York Times, publicada em janeiro.

"Você deve se lembrar que isso só é usado para investigações após o fato. Este não é um sistema de vigilância 24 horas por dia, 7 dias por semana", disse o CEO da Clearview AI, Hoan Ton-That.

Hoan Ton-That, CEO da Clearview (Foto: Reprodução)

A CBS News apurou que o Departamento de Polícia de Chicago, um dos maiores dos Estados Unidos, paga cerca de US$ 50 milhões por um contrato de dois anos com a empresa. Segundo informado, o departamento explica que apenas 30 membros podem usar a tecnologia de reconhecimento facial e não a utiliza para durante o dia.

"Nós [o departamento] usamos a ferramenta de reconhecimento facial para classificar seu banco de dados de fotos e informações de fontes públicas no decorrer de uma investigação desencadeada por um incidente ou crime", explica.

Em fevereiro de 2019, a Polícia Estadual de Indiana começou a testar o software. Segundo informações do The New York Times, eles resolveram um caso dentro de 20 minutos após o uso do aplicativo. Como relata a apuração, dois homens entraram em uma briga em um parque, que acabou quando um atirou no estômago do outro. Um pessoa registrou tudo pelo seu telefone, que a polícia conseguiu ver o rosto do atirador através do aplicativo. A Polícia Estadual de Indiana se tornou o primeiro cliente pagador do programa, de acordo com a empresa.

“Não sou contra a tecnologia de reconhecimento facial. Acho que, quando usado corretamente, pode ajudar-nos a resolver casos criminais mais rapidamente. Pode ajudar-nos a apreender abusadores de crianças, terroristas domésticos. O que me opõe é a coleta em larga escala de informações biométricas e o uso delas sem as devidas salvaguardas pelas autoridades policiais", disse Gurbir Grewal, procurador-geral de Nova Jersey, que ordenou, recentemente, que as agências estaduais parassem de usar o sistema de reconhecimento até que aprendam mais sobre ela.


Resposta das empresas

As cartas que as empresas enviaram à companhia, entretanto, não concordam com as práticas utilizadas pelo software em obter tais informações. Em entrevista à CBS News, Alex Joseph, porta-voz do YouTube, disse que os termos da plataforma proíbem explicitamente a coleta de dados que podem ser usados para identificar uma pessoa. Ele continua:

“Ela [Clearview AI] admitiu publicamente fazer essa coleta, por isso a enviamos uma carta de cessar e desistência”, completa.

Já o Twitter foi mais rigoroso em sua resposta. Segundo a rede social, “a empresa deverá parar de extrair conteúdo do Twitter e excluir todos os dados já coletados na plataforma”.

"Defender e respeitar as vozes das pessoas que usam nosso serviço é um dos nossos principais valores no Twitter, e continuamos comprometidos em proteger sua privacidade", disse um porta-voz do Twitter em comunicado à CBS News.

A CBS News apurou que o Facebook enviou diversas cartas à Clearview AI para esclarecer suas políticas e solicitou informações detalhadas de como seu software funciona. Foi exigido também a interrupção da extração de dados dos usuários do Facebook. Apesar da resposta, o CEO Ton-That comentou, em entrevista ao The New York Times, que seu programa utiliza apenas imagens publicamente disponíveis na plataforma. Ou seja, “basta uma alteração nas configurações de privacidade da rede social para que os mecanismos de pesquisa não possam mais se vincular ao seu perfil”, disse.

LinkedIn e Venno também se manifestaram. Basicamente, as duas plataformas não permitem a coleta de informações dos usuários e estão tomando medidas para protegê-los.


Resposta da Clearview AI

Em entrevista à CBS News, Ton-That, CEO da companhia, deu algumas declarações a respeito do seu programa de reconhecimento facial.

"A maneira como construímos nosso sistema é pegar apenas as informações publicamente disponíveis e indexá-las dessa maneira", disse ele. Para o CEO, seu programa é, essencialmente, um mecanismo de busca de fotos, como o Google. “O Google pode extrair informações de todos os sites diferentes. “Então, se é público e está lá fora, e pode estar dentro do mecanismo de pesquisa deles, também pode estar dentro do nosso".

A comparação, entretanto, segundo o porta-voz do YouTube, é imprecisa. Diferente de coletar dados de imagens de milhares de pessoas sem o consentimento deles, a maioria dos sites deseja ser incluída na Pesquisa do Google, e a empresa dá aos desenvolvedores total controle sobre quais informações do site estão incluídas nos resultados. Ou seja, eles podem optar por não participar.


Futuro

(Foto: Reprodução)

Ainda que a previsão de policiais e investidores da Clearview AI seja a de que o software de reconhecimento facial acabará disponível para o público, Ton-That comenta que a tecnologia continuará ajudando as autoridades enquanto ele estiver no comando.

O site The New York Times finaliza com uma reflexão:

“Mesmo que o Clearview não disponibilize seu aplicativo ao público, uma empresa de cópias pode. Procurar alguém por uma foto poderá se tornar tão fácil quanto pesquisar um nome no Google. Estranhos seriam capazes de ouvir conversas, tirar fotos de pessoas e conhecer segredos pessoais. Alguém andando na rua seria imediatamente identificável - e seu endereço residencial estaria a apenas alguns cliques de distância. Anunciaria o fim do anonimato público”.

E você, o que acha disso tudo? É contra ou a favor desse software de reconhecimento facial? Deixe nos comentários.

Fonte: The New York Times, CBS News

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