Para que serve a vacina BCG, uma das candidatas à imunização contra COVID-19

Por Fidel Forato | 17 de Setembro de 2020 às 17h10
CDC/Unsplash

Nas últimas semanas, uma conhecida vacina do Calendário Nacional de Vacinação brasileiro tem sido objeto de estudos e de muita discussão nas redes sociais por causa de sua suposta relação com o novo coronavírus (SARS-CoV2). Responsável por prevenir formas graves de tuberculose, a vacina BCG também poderia reduzir os casos da COVID-19. Pelo menos é o que apostam novas pesquisas, ainda, em andamento.

Em busca de provas dessa possível conexão entre a COVID-19 e a vacina BCG, inúmeros institutos e organizações estão financiando pesquisas na área, incluindo a Fundação Bill & Melinda Gates. Afinal, enquanto não há uma vacina especificamente desenvolvida contra o coronavírus, se existir algum benefício desse imunizante (contra a tuberculose) para conter a atual pandemia, será algo bastante valioso para a saúde pública.

Para que serve a vacina BCG?

Este imunizante é composto pelo bacilo de Calmette-Guérin (BCG), que é obtido a partir do enfraquecimento (atenuação) de uma das bactérias responsáveis por causar a tuberculose e, quando o organismo entra em contato com a fórmula, ele deve produzir anticorpos contra o agente infeccioso, dentro de uma imunização ativa. O procedimento é feito para prevenir casos de tuberculose, mais especificamente suas formas mais graves, como meningite tuberculosa e tuberculose miliar.

Inclusive, a vacina BCG está disponível, de forma gratuita, no Sistema Único de Saúde (SUS) e é também obrigatória para recém-nascidos desde 1976 no Brasil, devendo ser aplicada até os quatro anos. Entretanto, a recomendação do Ministério da Saúde, através do Calendário Nacional de Vacinação, é que a dose única do imunizante seja aplicada logo ao nascer.

Mesmo que a vacina tenha sido desenvolvida contra a tuberculose, é consenso que crianças vacinadas com BCG sofrem menos de outras doenças respiratórias. Entre outras aplicações, este imunizante também é adotado no tratamento de alguns tipos de câncer de bexiga, protege contra asma e algumas doenças autoimunes, como diabetes tipo 1. Agora, a ideia é que se possa ter um efeito semelhante contra o coronavírus, reduzindo o risco de infecção ou limitando a gravidade dos sintomas.

Pesquisas investigam se a vacina BCG pode ser eficiente na proteção contra  a COVID-19 (Imagem: Reprodução/ Gustavo Fring / Pexels)

Vacina BCG protege contra a COVID-19?

No entanto, ainda não há evidências conclusivas de que a vacina BCG proteja contra a COVID-19, apenas estudos em andamento. "Sabemos há décadas que a BCG possui efeitos benéficos inespecíficos", ou seja, pode proteger contra outras doenças, comenta a pesquisadora do Inserm no Instituto Pasteur de Lille, na França, Camille Locht, para a Agence France-Presse.

Por causa da emergência da pandemia do coronavírus, inúmeras estratégias já conhecidas pela ciência estão sendo traçadas para se saber o que pode ser eficiente contra a nova infecção, como este imunizante contra a tuberculose. Mesmo assim, somente, essa suspeita não basta para uma recomendação formal e, por exemplo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomenda a vacinação BCG para a prevenção da COVID-19.

Estudos da vacina contra a COVID-19

No Brasil, profissionais da saúde serão vacinados com vacina BCG para verificar sua eficácia contra a COVID-19 (Imagem: Reprodução/ Tumisu/Pixabay )

Entre os estudos para o uso da BCG contra a COVID-19, há instituições brasileiras envolvidas também. A partir de outubro, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) deve iniciar um teste com 3 mil profissionais da saúde no Mato Grosso do Sul e no Rio de Janeiro com a vacina BCG, usada para prevenir a tuberculose. Em parceria com o Instituto de Pesquisa Infantil Murdoch, da Austrália, o intuito é verificar se o imunizante é, realmente, eficaz contra o coronavírus.

De acordo com uma das coordenadoras da pesquisa, Margareth Dalcolmo, os voluntários serão acompanhados por um ano. “Todos os voluntários passarão por exames para verificar se há ou não a presença do vírus [SARS-CoV-2] no organismo. As pessoas aprovadas para o estud receberão a cepa da BCG dinamarquesa. Vamos acompanhar essas pessoas por até um ano, período em que serão feitas análises interinas de proteção, ou seja, avaliações intermediárias recomendadas em estudos de longa duração”, detalha Dalcomo sobre a pesquisa na terceira e última fase antes da conclusão.

Iniciada na Austrália, os pesquisadores do outro lado do planeta se basearam em estudos que demostravam a eficácia da vacina BCG contra outras infecções respiratórias virais. “É importante ressaltar que ainda não temos a comprovação de que a BCG é eficaz contra a COVID-19, nem por quanto tempo ela mantém o organismo imune contra outras doenças respiratórias. Por isso, as pessoas não devem tomar a vacina acreditando que possa evitar o novo coronavírus”, comenta o pesquisador Julio Croda.

Além da Universidade de Melbourne, a pesquisa conta com apoio da OMS e outros países, como a Espanha e o Reino Unido. Este estudo já foi aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), o que permitirá os testes no Brasil, e será financiado pela Fundação Gates.

Fonte: Agência Brasil, Dasa, Estado de Minas, Ministério da Saúde e R7  

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