USP desenvolve teste que detecta coronavírus pela saliva

Por Nathan Vieira | 04 de Setembro de 2020 às 07h30
fernando zhiminaicela/Pixabay

Em meio à pandemia, muitas instituições estão dedicadas a entender mais sobre a COVID-19 e como lidar com ela da melhor forma possível. Isso tem se refletido no desenvolvimento de candidatas a vacina e de pesquisas sobre medicamentos e testes. Com isso em mente, pesquisadores do Centro de Estudos do Genoma Humano e de Células-Tronco (CEGH-CEL) passaram a desenvolver um teste que detecta o coronavírus pela saliva.

O teste já se encontra na fase final, e a ideia é custar bem menos que  o teste de RT-PCR, realizado hoje por laboratórios no Brasil a um custo que varia entre R$ 350 e R$ 400. Basicamente, o objetivo é aumentar a disponibilidade e a rapidez e diminuir os custos para realização de testes moleculares por meio de simplificações dos processos.

Nos Estados Unidos, esse mesmo tipo de exame já foi aprovado, e chegou a ser testado em jogadores de basquete e funcionários da National Basketball Association (NBA). Apelidado de SalivaDirect, o teste foi desenvolvido por pesquisadores da Escola de Saúde Pública de Yale para auxiliar no diagnóstico de pacientes da COVID-19 assintomáticos, custando cerca de US$ 10 (Aproximadamente R$ 55). No Brasil, o laboratório de genômica Mendelics criou e já comercializa um teste similar, e pesquisadores da Universidade Federal de Goiás estão desenvolvendo um kit de diagnóstico na mesma linha.

Os novos testes são baseados em uma técnica molecular semelhante ao método RT-PCR, que utiliza como amostras para realização dos testes secreções do fundo da garganta e do nariz. Em ambas as técnicas são induzidas reações para a realização de uma fase de transcrição reversa (RT), na qual o RNA do vírus é transformado em DNA, e uma fase de amplificação, em que regiões específicas do vírus são replicadas milhões de vezes para que o patógeno possa ser identificado.

Novo exame será alternativo e poderá custar um quarto do valor do teste de RT-PCR (Imagem: Divulgação/USP)

No entanto, o RT-LAMP não requer a extração do RNA do vírus para ser detectado, o que é feito no RT-PCR por meio de reagentes importados, que são caros e frequentemente escassos no mercado. Vale observar também que o RT-LAMP dispensa o uso de aparelhos laboratoriais complexos (como o termociclador em tempo real, utilizado para amplificar e detectar o RNA por meio da exposição do material a diferentes temperaturas).

Pelo RT-LAMP, a eliminação da etapa de extração do RNA – a mais demorada e complexa – permite não só reduzir o tempo, mas também o custo do teste. A eliminação da etapa de extração do RNA pelo teste de RT-LAMP é possível pelo rompimento do capsídeo do vírus por aquecimento e adição de uma solução desenvolvida pelo grupo, que estabiliza o vírus para os processos de conversão do RNA viral em DNA e para a amplificação do material genético do vírus, a fim de facilitar a detecção dele em saliva.

O processo ocorre em temperatura constante, em um método chamado amplificação isotérmica mediada por loop (LAMP, na sigla em inglês). As enzimas necessárias para a realização desse processo são importadas e representam o maior custo para a aplicação do teste.

Assim, o objetivo é avançar na etapa de padronização do teste, por meio da utilização de soluções químicas que permitam manter o RNA do vírus estável por um longo tempo, de modo que não sofra a ação de enzimas presentes na saliva. O teste tem apresentado especificidade para detecção do novo coronavírus de 100%, equivalente ao de testes convencionais, e os responsáveis pela pesquisa almejam aumentar a sensibilidade de modo que seja capaz de detectar o vírus em um número muito baixo de cópias na saliva.

Fonte: Agência FAPESP

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