Uso inadequado de antibióticos contra a COVID pode contribuir com superbactérias

Por Fidel Forato | 21 de Outubro de 2020 às 07h40
Pixabay

Independentemente da doença, o uso de medicamentos de forma inadequada pode selecionar e melhorar geneticamente um agente infeccioso, a partir de suas mutações. Esse processo pode, por exemplo, "criar" superbactérias, quando elas se tornam mais fortes e resistentes aos medicamentos comuns, como alguns antibióticos. É nesse cenário que pesquisadores alertam sobre o uso desenfreado de antibióticos no tratamento da COVID-19, quando prescritos sem necessidade.

Sobre o uso desnecessário de antibióticos, em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou que a chamada resistência microbiana —  que ocorre quando doenças são resistentes aos antibióticos — poderá estar associada a 10 milhões de mortes anuais no cenário mais dramático para 2050. Com a pandemia da COVID-19, esse panorama poderá ser acelerado. Outros fatores, além do uso, também contribuem com essa situação.

Uso excessivo de antibióticos na pandemia da COVID-19 pode levar o desenvolvimento de bactérias mais resistentes (Imagem: Reprodução/ Christina Victoria/ Unsplash)

Atualmente, cerca de 700 mil pessoas morrem por ano devido a essa resistência microbiana. Mesmo doenças consideradas comuns, como pneumonia e infecção urinária, já são dificultadas pela resistência do tratamento em alguns casos. 

COVID-19 e antibióticos

Mesmo sem eficácia direta para combater a COVID-19 e sem se verificar infecções bacterianas, antibióticos ainda são amplamente usados na pandemia do novo coronavírus (SARS-CoV2). "Já tínhamos o problema da resistência microbiana antes. Em virtude da COVID-19, muitos antibióticos foram receitados. Em um futuro não muito distante vamos ter um problema mais sério do que já teríamos", afirma Victor Augustus Marin, professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e pesquisador na área de ciências biológicas, para a BBC.

"Vamos ver efeitos daqui a seis meses, daqui a um ou dois anos, quando pacientes com outras doenças chegarem ao hospital. O médico vai prescrever um antibiótico que pode não funcionar naquele paciente, ou vai aumentar a resistência [de micro-organismos presentes no grupo da pessoa)]", reflete Marin, que também é responsável pelo Laboratório de Controle Microbiológico de Alimentos da Escola de Nutrição (Lacomen) da universidade.

Antibióticos contra vírus?

Pode parecer estranho antibióticos serem citados como tratamento para um vírus, mas, no caso da COVID-19, eles não impactam diretamente o coronavírus. "Os antibióticos não funcionam contra vírus, eles funcionam apenas em infecções bacterianas. A Covid-19 é causada por um vírus, portanto os antibióticos não funcionam", explica a Fiocruz. 

No caso da COVID-19, os antibióticos são prescritos, em alguns casos, de forma preventiva. Isso porque muitos pacientes podem apresentar uma eventual infecção concomitante por alguma bactéria, ou seja, uma coinfecção. No entanto, essa segunda doença pode passar despercebida, já que não é o foco do tratamento.

O que os especialistas defendem é que os profissionais de saúde só devem receitar antibióticos após a confirmação de uma infecção por bactérias ou fungos, de preferência por exame de cultura bacteriana. Em outras palavras, é o uso quando necessário. 

De acordo com um estudo envolvendo 38 hospitais em Michigan, nos Estados Unidos, 56,6% de 1.705 pacientes hospitalizados por causa da COVID-19 receberam antibióticos como terapia "empírica", ou seja, quando não se sabe qual bactéria ou fungo está causando infecção. Desse total, apenas 3,5% tiveram uma coinfecção bacteriana confirmada por exames.

Por outro lado, a situação é também delicada. Afinal, pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), quando apresentam um quadro grave da COVID-19 e têm um grau de deficiência do sistema imunológico, podem ter uma infecção bacteriana fatal.

OMS desaconselha antibióticos contra o coronavírus

Preocupada com os possíveis cenários, a OMS publicou, em maio, um guia para tratamento da COVID-19, em que recomendava não utilização dos antibióticos no tratamento em casos suspeitos ou leves de infecção por coronavírus. Em casos moderados, a organização oriente que o uso só deve ser feito após indícios de uma infecção bacteriana.

"O uso generalizado de antibióticos deve ser desencorajado, uma vez que sua aplicação pode levar a taxas maiores de resistência bacteriana, o que vai impactar o volume de doenças e mortes durante a pandemia de COVID-19 e além", afirma o documento da OMS.
 

Fonte: G1 e Fiocruz   

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