Russos finalmente apresentam pesquisas de vacina contra COVID-19

Por Fidel Forato | 04 de Setembro de 2020 às 16h37
Karolina Grabowska/Pexels

Há algumas semanas, o governo russo anunciou ter desenvolvido a primeira vacina eficaz contra o novo coronavírus (SARS-CoV-2), mas não apresentou nenhuma evidência sobre a ação do imunizante na época. Nesta sexta-feira (4), os pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa Gamaleia finalmente publicaram o primeiro estudo clínico da Sputnik V contra a COVID-19 e sua fórmula carrega dois adenovírus modificados geneticamente.

Segundo o artigo publicado na revista científica The Lancet, a vacina russa contra a COVID-19 não teve efeitos adversos e ainda induziu a resposta imune do organismo contra o coronavírus. Isso nas etapas 1 e 2 dos estudos clínicos, o que significa que a última etapa de pesquisa ainda será realizada, enquanto vacinações em massa da população russa estarão acontecendo.

Pesquisadores russos divulgam resultados iniciais de vacina contra a COVID-19 (Imagem: HeungSoon/Pixabay)

De acordo com o diretor do Fundo de Investimento Direto Russo (RDIF), Kiril Dmitriev, a Rússia irá liberar a tecnologia para que esse imunizante seja produzido em outros países no mês de novembro. No Brasil, o estado do Paraná firmou acordo também para pesquisa e testes, dentro de estudos clínicos, com a vacina russa, no entanto, nenhum pedido de registro foi feito para a liberação junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Resultados da fase 1 e 2 dos testes

Geralmente, as fases 1 e 2 dos testes de um imunizante procuram verificar a eficácia e a segurança em pequenos grupos de pessoas. Em linhas mais simples, os testes de fase 1 costumam contar com dezenas de voluntários, enquanto os de fase 2, centenas. Por fim, os de fase 3 incluem milhares de participantes.

Segundo os resultados das duas primeiras fases dos estudos clínicos, a vacina Sputnik V não desencadeou efeitos adversos até 42 dias após a imunização. Além disso, todos os participantes desenvolveram anticorpos contra o coronavírus em até 21 dias. Foi o que demonstrou o teste realizado em 76 pessoas com idades entre 20 e 30 anos.

Como essas etapas não contaram com um grupo controle — todos os participantes receberam a vacina, sem ninguém receber um placebo —, ainda não é possível estabelecer relações sobre a capacidade de proteção da vacina, o que será feito na fase 3. De acordo com os pesquisadores do Instituto Gamaleya, a resposta imunológica desencadeada pela vacina foi maior que a observada em pacientes infectados e que se recuperaram da COVID-19.

Um ponto positivo, entre os resultados, é que vacina pode estimular a produção de células T — um linfócito específico do sistema imunológico — em até 28 dias. A partir da produção das células T contra o coronavírus, é possível sugerir que essa vacina desencadeie uma resposta imune forte e de longo prazo.

Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, Renato Kfouri, esse é um resultado importante, mas que ainda precisa ser confirmado na fase 3. "É um estudo aguardado, publicado em uma revista séria. Hoje a vacina pode ser categorizada como realmente uma candidata, mas isso ainda depende de estudo de fase três onde estão 7 outras vacinas", comentou Kfouri para o G1.

Por fim, os pesquisadores russos têm como meta, na fase 3, verificar a eficácia do imunizante em cerca de 40 mil voluntários russos.

Como funciona a vacina russa?

Para estimular a imunização contra o coronavírus, a vacina russa trabalha com dois vetores de adenovírus. Isso significa que o imunizante carrega em sua composição dois tipos de vírus que, naturalmente, afetam humanos e causam o resfriado comum. Entretanto, esses agentes infecciosos foram enfraquecidos, de forma que não causem nenhuma reação séria no corpo do paciente.

Um deles é o adenovírus humano recombinante tipo 26 (rAd26-S), já o outro é o adenovírus humano recombinante tipo 5 (rAd5-S). Ambos foram modificados geneticamente e carregam a proteína S do coronavírus. Em forma de espinhos (os chamados spikes), a proteína S permite que o vírus infecte as células humanas

Através dessa técnica de incluir dois vírus diferentes para despertar a imunização é como se fossem duas vacinas em uma única. Essa tecnologia russa foi a mesma utilizada em outro imunizante do país, só que contra o ebola.

Fonte: The Lancet via G1  

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