Receita de álcool em gel caseiro pode ajudar a proliferar o coronavírus; entenda

Por Nathan Vieira | 23 de Março de 2020 às 18h05

Em meio à pandemia causada pelo novo coronavírus (COVID-19), muitos estão fazendo o possível para se proteger. Nesse contexto, boa parte da população está buscando se prevenir com álcool em gel. Por incrível que pareça, esse item está conseguindo gerar bastante polêmica. Isso porque, com a alta demanda, é um produto já mostra escassez nas prateleiras, e frente a isso, muitos estão procurando alternativas que chegam até a fórmulas caseiras na internet.

No entanto, é preciso compreender que produzir álcool em gel em casa pode simplesmente ser perigoso e, de quebra, ainda causar o efeito contrário (ou seja, proliferar ainda mais o vírus), dependendo da substância utilizada. Para compreender isso, a equipe do Canaltech conversou com o químico Victor Vieira, que trouxe à tona as principais razões pelas quais você não deve tentar fazer receitas de álcool em gel na sua casa. 

Primeiramente, Victor aponta que manipular ou processar um produto químico sem o devido preparo, sem ter estudado a área, sem ter o devido conhecimento ou uma estrutura de segurança para caso algum acidente aconteça, principalmente quando se trata de um produto altamente inflamável, é não apenas perigoso, como também fora da lei: "Mesmo se uma empresa for produzir um álcool em gel, ela precisa ter pelo menos um químico responsável, e uma série de documentações e licenças para poder fazer esse tipo de processo".

O álcool em gel é um produto industrial, e você não deve tentar produzir na sua casa, sem supervisão de um químico ou as licenças necessárias

Os perigos do álcool em gel caseiro

De acordo com Victor, há uma infinidade de acidentes possíveis. Dentre os mais comuns, o químico destaca o caso de um material pegar fogo, uma reação química ou uma reação alérgica na pele. "Depende do produto que as pessoas têm acesso para fazer esse tipo de fórmula. Uma receita utilizando produto de limpeza, por exemplo, pode dar algum tipo de reação na pele, como uma alergia".

O infectologista Marcos Cyrillo também faz um alerta: "Se você fizer álcool em gel, pode ter doenças de pele, porque isso é um preparado industrial, com fórmulas testadas, feitas por químicos. Não se deve fazer o álcool em gel em casa. De jeito nenhum. Além de ele ser um produto inflamável, pode gerar graves consequências".

Por sua vez, Victor ainda ressalta a importância de comprar um álcool em gel devidamente rotulado, produzido em um laboratório ou uma indústria farmacêutica: "Você tem a garantia de que eles estão usando os produtos apropriados, que foram realizados testes dermatológicos e que não vão causar alergia. Você também tem a garantia de que é um produto seguro, que foi desenvolvido para essa finalidade, e que o consumidor fica praticamente isento de problemas relacionados a isso".

O químico explica que a fórmula do álcool em gel não é nenhum segredo, tanto que pode ser lida em qualquer rótulo. No entanto, a maior parte das substâncias necessárias para a produção não é encontrada em qualquer lugar. "Você não consegue comprar esses ingredientes no mercado. Até para comprá-los, é preciso ter uma licença".

Efeito contrário

O álcool em gel produzido com a substância errada pode colaborar para a proliferação do vírus, ao invés de ajudar a eliminá-lo

Como se ainda não fosse suficiente, há mais uma razão para não fazer a receita de álcool em gel caseiro: dependendo da substância utilizada, ele pode ter um efeito contrário. Isso significa que ao invés de eliminar os vírus, você ajudá-los a se proliferar ainda mais.

"Ao produzir o álcool em gel em casa, pode ser que você utilize itens ou ingredientes que potencializem a proliferação do vírus. Se você utilizar gelatina, por exemplo, ela acaba se tornando um ponto de refúgio para o vírus. É como se estivesse indo pelo caminho contrário, porque usar um alimento, um carboidrato, ajuda o vírus. Seja qualquer microorganismo: se você adiciona um nutriente, ele vai se dar bem", explica o químico.

Victor acrescenta que os vírus, em geral, são protegidos por uma camada fina de lipídios (gordura), e o álcool consegue dissolver essa capa e eliminar grande parte deles. É por isso que lavar a mão com água e sabão ou detergente é tão eficaz quanto passar álcool em gel. Porque o detergente e o sabão são surfactantes (substâncias que diminuem a tensão superficial ou influenciam a superfície de contato entre dois líquidos). "É a mesma ação de você remover gordura da louça. Ele vai remover essa capa de gordura, expôr o vírus e eliminá-lo", afirma. 

Mas e aí, o que fazer se o álcool em gel acabou? Espia só: a realidade é que ele não é a sua única opção. "Ele não é a alternativa principal. A água e o sabão são tão eficazes quanto para eliminar o vírus da superfície da pele. O álcool em gel seria uma opção, por exemplo, para quando você está na rua e não tem um lugar em que você possa higienizar a mão", conclui o químico.  

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