Pornografia: cientistas divergem se vício faz mal à saúde física e psicológica

Por Natalie Rosa | 02 de Dezembro de 2020 às 18h40
Dainis Graveris/Unsplash

Uma das facilidades que a internet trouxe para o mundo foi o rápido acesso à pornografia, conteúdo antes visto apenas através do aluguel ou compra de mídias físicas, revistas ou TV por assinatura. Junto com a praticidade, chegou o vício, que divide opiniões de cientistas sobre ser algo prejudicial ou não.

Enquanto alguns cientistas afirmam que o vício em pornografia pode trazer danos físicos e psicológicos à vida de uma pessoa, outros dizem que este comportamento compulsivo, que costuma ser de horas seguidas diárias de acesso e masturbação, é, na verdade, uma forma de combater transtornos como depressão e ansiedade. Esses dois lados acabam entrando em conflito na comunidade científica.

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Imagem: Charles Deluvio/Unsplash

De acordo com Shane Kraus, diretor da divisão do laboratório de vício comportamental da Universidade de Nevada, em Las Vegas, o que se sabe é que a pornografia pode ser um problema complicado para muitas pessoas. "Como classificamos isso? Como tratamos? Ainda estamos trabalhando nesses problemas", diz o especialista, contando ainda se preocupar por existir muita desinformação sobre o assunto, o que pode levar as pessoas a se diagnosticarem erroneamente, afirmando terem um vício que não existe. Por outro lado, também não há dados suficientes para os médicos diagnosticarem o vício, na prática.

Dados

Na Austrália, um estudo sobre o tema verificou que cerca de 4,4% dos homens do país e 1,2% das mulheres se dizem viciados em pornografia, sendo o primeiro estudo que realmente traz dados sobre o vício de forma representativa. Porém, no mundo todo, já existe uma comunidade que reconhece as consequências que o vício em conteúdos pornográficos traz para a vida: o NoFap. O nome faz referência ao termo "fap", usado na internet para falar de masturbação.

Somente no Reddit, já são mais de 725 mil membros participantes que compartilham suas experiências e seus problemas, e no próprio site da organização NoFap existem tópicos de discussões. Segundo estudo realizado em 2019 pelo We Stand Guard, programa de treinamento que evita a exploração e o abuso sexual infantil, a idade em que uma criança ou pré-adolescente começa a assistir a pornografia é 13 anos — a maioria meninos. Além disso, cerca de 80% dos homens e 30% das mulheres assistem pornografia semanalmente. Dados do site pornográfico PornHub já revelaram que 76% do tráfego de suas páginas vem de smartphones, e que os números aumentaram consideravelmente com a pandemia da COVID-19.

Imagem: Charles Deluvio/Unsplash

Ainda em 2012, há mais de oito anos, o assunto foi debatido em um Ted Talk ministrado por Gary Wilson, professor de ciências aposentado, que contou em sua palestra que o uso generalizado da pornografia na internet é um dos experimentos mais rápidos e globais já feitos de forma inconsciente. O professor também comanda o site Your Brain On Porn, usado para divulgar os fundamentos de que a pornografia é um problema grave e uma questão de saúde pública.

Ainda de acordo com as pesquisas de Wilson, o cérebro que passa horas em contato com conteúdos pornográficos, semanalmente e durante muitos anos, acaba atingindo níveis extremamente altos de estimulação, se tornando mais imune aos prazeres do dia a dia e a cada vez receptivo à pornografia. Isso faz com que o costume se torne um ciclo vicioso que provoca a erosão da força de vontade e a criação de um vício.

Outra pesquisa recente, esta realizada em julho deste ano com 5.800 homens por Gunter De Win, professor de urologia da Universidade da Antuérpia, na Bélgica, mostrou que 23% dos entrevistados com menos de 35 anos, relataram sofrer de disfunção erétil, segundo Wilson causada pelo uso excessivo de pornografia, e que os números estão crescendo em homens ainda jovens.

De Win, no entanto, ainda não está convencido de que a pornografia seja o problema principal, uma vez que os dados obtidos em estudos não são tão simples de decifrar. Os homens com mais probabilidade de estar enfrentando disfunção erétil foram aqueles que se autoproclamavam viciados em pornografia, por exemplo, mas também eram aqueles que assistiam menos que os outros.

Sendo assim, os participantes da pesquisa que afirmaram assistir a 60 minutos de conteúdo pornográfico por semana têm mais chances de relatar a disfunção sexual do que aqueles que assistem a 160 minutos semanais e não se preocupam com isso. Homens que dizem não conseguir manter uma ereção em 100% do tempo ou por longos períodos de maratona também podem se autodiagnosticar falsamente como disfuncional. "É totalmente errado dizer que, definitivamente, é a pornografia que está causando isso, mas é correto dizer que há uma certa influência dela. Mas qual é a causa e qual é o efeito? Acho que é muito difícil considerar no momento", diz De Win.

Imagem: jcomp/Freepik

Consequências e tratamento

No movimento NoFap, não estão apenas homens, embora sejam a vasta maioria. Mulheres já relataram nos fóruns que o vício em pornografia destruíram seus sensos de individualidade e de relacionamentos românticos. Entre os membros do grupo também estão aqueles que são contra a prática não por se preocupar com a própria saúde, mas sim por motivos religiosos ou ainda pelos abusos cometidos na indústria da produção de filmes pornográficos.

No NoFap, as pessoas que procuram o movimento são aconselhados a passar por um período de "reinicialização" para desfazer os danos neurológicos que podem ser causados após anos de abuso de conteúdos pornográficos. Esse processo costuma durar 90 dias, mas caso os sintomas não passem, o período pode ser estendido para mais de seis meses. Essas reinicializações consistem em nenhum acesso à pornografia, sem pornografia e sem masturbação, ou sem pornografia, sem masturbação e sem sexo, sendo esta última a opção mais "radical".

O processo não tem comprovação científica, mas segundo os participantes do movimento, funciona. Mesmo assim, como todo o projeto de se desconectar de um vício, há sintomas de abstinência, como ansiedade, insônia, pesadelos e episódios de depressão. "Eu não duvido que algumas pessoas têm problemas em ver muita pornografia. Mas o problema é que há muitos problemas... isso já explica esses comportamentos", conta Nicole Prause, neurocientista e pesquisadora sexual.

Segundo Prause, fundadora do instituto de pesquisa Liberos, da Universidade de Indiana, metade das pessoas que estão sendo tratadas por serem viciadas em sexo possuem um diagnóstico primário de depressão, sendo os vícios, na verdade, mecanismos de enfrentamento. David Ley, terapeuta sexual e psicólogo, diz que os movimentos antipornografia convencem as pessoas que elas tem um problema e acabam se autodiagnosticando.

Enquanto cientistas divergem sobre o quão nociva é a pornografia, é preciso que ambos os grupos entrem em um consenso para que a situação seja estudada de foma mais aprofundada, levando em conta também a questão social na hora de determinar os vícios e comportamentos.

Fonte: CNET

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