Com a pandemia, aumenta a pornografia: faz mal passar horas em sites pornô?

Por Nathan Vieira | 19 de Maio de 2020 às 14h57
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As pessoas usam pornografia por vários motivos, mas o mais comum é bastante óbvio: o prazer. Entretanto, pesquisadores norte-americanos descobriram que existem várias outras razões pelas quais as pessoas podem escolher consumir conteúdo pornográfico, como níveis mais altos de sofrimento psicológico. Além disso, quem se sente sozinho ou deprimido geralmente relata maior desejo de procurar pornografia. Com a atual pandemia da COVID-19 — que tem feito muita gente ficar em casa —, o consumo desse conteúdo adulto só fez aumentar. 

O maior site de pornografia do mundo, o Pornhub, registrou grandes aumentos no tráfego — por exemplo, vendo um salto de 18% sobre os números normais depois de liberar seu conteúdo premium por 30 dias para pessoas que concordam em ficar em casa e lavar as mãos com frequência. Em muitas regiões, esses picos de uso ocorreram imediatamente após a implementação das medidas de distanciamento social.

De acordo pesquisadores, como Joshua B. Grubbs, professor assistente de psicologia na Bowling Green State University, nos EUA, muitas pessoas relatam usar pornografia para lidar com sentimentos de estresse, ansiedade ou emoções negativas. Em resumo, as pessoas geralmente recorrem a esse tipo de conteúdo quando estão se sentindo mal, porque a pornografia (e a masturbação) provavelmente oferecem um alívio temporário desses sentimentos. Os especialistas também sabem que as pessoas usam mais pornografia quando estão entediadas.

Mas assistir a conteúdos eróticos agora seria um problema a longo prazo? A disseminação do coronavírus e as medidas de distanciamento social destinadas a ajudar a contê-lo levaram a aumentos no isolamento social, solidão e estresse — assim, o aumento do uso de pornografia faz sentido. Muitos ativistas anti-pornografia já expressaram sérias preocupações com esses aumentos no consumo do conteúdo, com muitos grupos fornecendo recursos para combater isso.

Os cientistas norte-americanos são céticos em relação a alegações gerais de que esse "boom" momentâneo se traduzirá em resultados negativos generalizados, como dependência ou disfunção sexual. Como a maioria dos aspectos da atual crise de coronavírus, provavelmente ainda não existem dados suficientes para os pesquisadores fazerem previsões definitivas, mas estudos anteriores fornecem algumas ideias. De um modo geral, a maioria dos consumidores não relata nenhum problema em suas vidas como resultado do uso de pornografia. Entre as pessoas que usam pornografia com frequência (mesmo todos os dias), uma grande porcentagem não apresenta problema algum em decorrência disso.

Isolamento social

De acordo com o Dr. Eduardo Perin, psiquiatra e especialista em Sexualidade pelo Instituto Paulista de Sexualidade (InPaSex), a masturbação em si, com ou sem conteúdo pornográfico, é muito importante. Segundo ele, é por meio dela que conhecemos nosso corpo, o que desejamos, como gostamos de ser tocados.

"A pornografia funciona como um espelho do que o sujeito deseja fazer sexualmente. Nossos neurônios espelho praticamente atuam no lugar do ator pornô. Por isso ela se torna tão atraente. Durante essa pandemia, precisamos utilizar nossa criatividade para não cair na monotonia. Para algumas pessoas, masturbar-se utilizando pornografia pode ser um jeito de passar o tempo. Mas isso não deve ocorrer o dia todo: deve-se alternar com atividades físicas, livros, filmes, séries", alerta o especialista.

O Canaltech também conversou com o psicólogo Michel Petrella Silva, a cargo de compreensão de como a pornografia reflete em nosso comportamento. "Quando nascemos, somos pura libido. Freud aponta que a criança circula a libido em todo seu corpo e se masturba, tira prazer disso, como forma de estabilizar uma angústia e uma falta natural de sua existência (quando ela é naturalmente desmamada, por exemplo). Nossos pais também castram comportamentos. Temos que represar e reprimir essa libido. A libido que sobra, é investida nas relações sexuais. Mas existe ainda uma parcela da libido que não vai nem pro social, nem para o sexo que fazemos. Fica presa em fantasias", inicia o psicólogo, que cita Freud para fazer a sua análise.

Michel ressalta que a pornografia pode ser saudável ou não, vai de pessoa pra pessoa. "Se em algum momento esse modo de solucionar o conflito der errado, pode se tornar um sintoma, gerando frustrações, dependências, repetições incômodas. Resumindo: o que faz uma pessoa procurar pornografia é o mesmo que faz ela procurar qualquer atividade sexual (ou não): sua fantasia inconsciente e seus correlatos conscientes", explica.

"Qualquer prática sexual pode ser benéfica ou maléfica, dependendo da pessoa. A questão não é a pornografia. Vamos dizer, a gente trabalha com o que tem — e que ótimo! Assim sobrevivemos. A questão, então, é a Indústria pornográfica mainstream, que divulga cenas, conteúdos e fantasias homogêneas baseadas no machismo estrutural".

Sobre a dependência da pornografia, o psicólogo ainda aponta que o efeito é observável: "Tire a pornografia e você verá que em algum tempo ela deslocará a compulsão para outra coisa, ou retorna mais tarde para isso que foi tirado. [É válido] Compreender o sentido desse uso, as origens, e então poder escolher o que fazer com essa dinâmica... que não depende de objetos. Casos de intenso sofrimento podem alcançar a alçada da psiquiatria e necessitar uma avaliação médica, coisa que um bom profissional da psicologia está preparado para encaminhar. Nesse caso, o tratamento médico é um auxílio para os efeitos terapêuticos da psicoterapia e vice-versa".

Pornografia e efeitos colaterais 

Algumas pesquisas, no entanto, encontram dados preocupantes sobre o uso de pornografia. Por exemplo, para os homens, esse consumo costuma estar associado a níveis mais baixos de satisfação sexual, mas as evidências atuais não desvendam se os homens usam mais pornografia quando lidam com insatisfação sexual ou se os homens que usam pornografia justamente são levados cada vez mais à insatisfação sexual.

Estudos relacionados ao uso de pornografia e saúde mental apontam, ainda, que as horas gastas com pornografia não causam necessariamente depressão, ansiedade, estresse ou raiva ao longo do tempo. Embora existam casos de pessoas que afirmam que a pornografia as levou a experimentar disfunção erétil, estudos em larga escala descobriram repetidamente que o mero uso de pornografia não prevê disfunção erétil ao longo do tempo.

Pornografia online: tem limite?

Grubbs aponta evidências de que algumas pessoas que usam pornografia também relatam ter problemas de saúde mental ou problemas sexuais em suas vidas; até agora, porém, a evidência que liga essas coisas não parece ser causal. Em suma, assistir pornografia online não parece estar causando problemas generalizados, e provavelmente está oferecendo às pessoas uma distração do tédio e do estresse dos eventos atuais.

De acordo com o professor, inclusive, quando as pessoas tiverem mais uma vez permissão para passar com segurança tempo com amigos, estranhos e possíveis parceiros sexuais, é de se esperar que o consumo de conteúdo erótico na internet retorne aos níveis anteriores à COVID-19. Para a maioria dos usuários, a pornografia é provavelmente apenas outra distração, mantendo as pessoas ocupadas, com segurança e socialmente distanciadas. Combinada com o fato de muitas pessoas isolarem-se sozinhas, a pornografia pode proporcionar uma saída sexual de baixo risco que não faz com que as pessoas arrisquem sua própria segurança ou a segurança dos outros.

Por outro lado, o Dr. Eduardo Perin aponta que a pessoa pode se tornar dependente de pornografia, e muitas vezes da masturbação concomitante. "O ideal é que a exposição à pornografia ocorra no máximo por 1 hora por dia. A pornografia e, mais ainda, a masturbação têm um papel fundamental para que o indivíduo possa se conhecer, saber do que gosta, da forma que gosta. Mas não se deve exagerar: o ideal é utilizar esse recurso por no máximo uma hora por dia, sem que isso atrapalhe seu trabalho, ou sua relação conjugal".

Fonte: Popular Science

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