Por que a percepção do tempo mudou na pandemia? Cientistas explicam!

Por Natalie Rosa | 29 de Agosto de 2020 às 14h00
Reprodução: Icons8_team/Pixabay

Por mais que o tempo não mude, a sensação de que ele está passando mais rápido ou mais devagar está presente em diferentes casos, como na pandemia da COVID-19. Neste momento em que vivemos, a vontade é que o tempo passe rápido para que já estejamos vacinados e prontos para seguir a vida como era antes — mas a sensação acaba sendo contrária para muita gente.

A questão emocional pode, facilmente, interferir na percepção de como o tempo está passando e é exatamente esse o foco dos estudos de Philip Gable, professor de psicologia da Universidade de Delaware. O pesquisador conta que muito dos estudos mostram que o estado emocional negativo pode trazer a sensação de que o tempo está passando mais devagar, enquanto o positivo mostra o contrário.

Para entender melhor como tudo isso acontece, a equipe de Gable criou um aplicativo para smartphone que documenta emoções, percepções e o comportamento dos norte-americanos durante a pandemia da COVID-19, todos os meses. Com os resultados obtidos, é possível rastrear o "relógio biológico" e explorar como essa sensação acontece.

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Por que coisas boas passam rápido e coisas ruins demoram?

Gable conta que a emoção e a motivação estão interligadas, e que a emoção obriga as pessoas a agirem de certa forma. Além disso, existem dois tipos de motivação: a de abordagem e a de evasão. O time de pesquisadores, então, mostrou como a motivação de abordagem causa o sentimento de aceleração do tempo, enquanto a de evasão provoca a desaceleração.

"Quanto mais motivação sentimos em ambas as direções, mais declarada será a mudança em nossa percepção de tempo", conta Gable. "Isso acontece por um motivo. Quando estamos motivados a fazer algo, nós temos um objetivo em mente, seja finalizar um quebra-cabeças ou escapar de um carro que acendeu a luz vermelha", explica o pesquisador.

Sendo assim, a aceleração ou desaceleração do tempo ajuda a pessoa a atingir os objetivos, e quando o sentimento é de que o tempo está passando mais rápido, mais fácil parece ser conquistar esse objetivo por um longo período de tempo. Já quando a motivação de evasão é ativada, o tempo fica mais lento para prevenir que a pessoa demore muito em situações que podem ser prejudiciais. Segundo Gable, quando o tempo parece estar demorando muito para passar em períodos de medo, por exemplo, mais rápido a pessoa agirá para se livrar do perigo.

Devagar na pandemia

No início da pandemia da COVID-19, muitas pessoas estiveram na situação de abordagem de evasão. "Havia essa ameaça na qual queríamos evitar, mas como não podíamos ver ficamos tentando evitar uma série de situações potencialmente perigosas", explica o pesquisador.

Um mês depois do início da pandemia, em abril, a equipe de cientistas perguntou a mil norte-americanos como eles sentiram que o tempo passou durante todo o mês de março. Cerca de metade dos participantes relatou sentir que o tempo passou mais devagar, um quarto afirmou que o tempo passou mais rápido que o normal e um quarto disse não ter sentido nenhuma mudança na passagem do tempo.

Então, aqueles que relataram ter ficado mais nervosos e estressados foram os que disseram que o tempo passou mais devagar, e os que se sentiram felizes acharam que o tempo passou mais rápido. O estudo mostrou ainda que as pessoas que sentiram uma lentidão no tempo foram aquelas que praticaram o distanciamento social com mais regularidade, mostrando que o sentimento foi como um efeito colateral de ansiedade.

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A pesquisa também fez os mesmos questionamentos aos participantes em relação ao mês de abril, com os resultados mostrando que cerca de 10% daqueles que sentiram o tempo arrastando em março depois tiveram a sensação de ver o tempo passar com rapidez. Além disso, mais pessoas estavam se sentindo calmas, relaxadas e com mais sentimentos positivos enquanto achavam que o tempo estava "voando".

"Então é possível que a melhora no humor das pessoas e a mudança na percepção do tempo possa ter motivado a sua vontade de cumprir com o distanciamento social", aponta o cientista, revelando que, mesmo assim, ainda havia uma boa parcela ainda sentindo que o tempo estava passando muito devagar.

Por fim, Gable disse que o sentimento de que o tempo está passando muito devagar é algo que pode ser controlado com a prática de exercícios, criação de rotinas e lazer.

Fonte: The Conversation

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