O que foi a Revolta da Vacina e o que ela tem a ver com o que acontece hoje

Por Fidel Forato | 15 de Outubro de 2020 às 17h00
Cottonbro/Pexels

Para enfrentar a pandemia da COVID-19, muitos governos e cientistas apostam no desenvolvimento de uma vacina segura e eficaz contra o novo coronavírus (SAR-CoV-2). Na história brasileira, o país também já precisou recorrer, em outros momentos, a campanhas de vacinação em massa para controlar doenças epidêmicas, como a varíola, em 1904. Por uma série de conflitos e falta de diálogo, a vacinação contra a doença acabou por desencadear a Revolta da Vacina, na cidade do Rio de Janeiro.  

Antes de explorar os acontecimentos que levaram até a Revolta da Vacina, é importante entender o que vem a ser a varíola, uma doença que já é considerada como erradicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde os anos 1980, mas foi responsável pela morte de milhões de pessoas em todo o mundo.

A Revolta da Vacina teve como principais motivos a vacinação contra a varíola (Imagem: Reprodução/ Wellcome Library London/ Wikipédia)

O que é varíola?

A varíola é causada pelo vírus Orthopoxvirus variolae, podendo se desenvolver em dois tipos, sendo um deles o mais fatal. Em geral, os sintomas iniciais da doença não parecem sérios e são similares aos de uma gripe. Isso porque incluem febre, dor de cabeça, mal-estar e dores musculares, por exemplo.

O problema começa a surgir depois, quando o vírus está se espalhando pelo corpo através do sistema linfático. Nesse momento, surgem manchas avermelhadas por toda parte do corpo do paciente. Por sua vez, essas manchas evoluem para pústulas e bolhas, como bexigas, repletas de pus por todo o corpo. Nem mesmo a mucosa nasal e da boca estão livres dessas formações que podem deixar marcas permanentes no corpo.

Para conter a varíola, governo impôs vacinação obrigatória (Imagem: Reprodução/ JA Philip/ Wikipédia)

A origem desse vírus segue indeterminada, mas relatos históricos contam que a infecção acompanhou a população mundial durante muitos séculos, desde antes da era cristã, a partir de relatos da Ásia e da África sobre esse vírus mortal. Por esse motivo, a bexiga e soluções para essa enfermidade foram muito discutidas ao longo da história. 

No Brasil, a primeira vacina foi trazida, em 1804, pelo Marquês de Barbacena. Durante todo o século XIX, o governo se esforçou, em alguma medida, para ampliar o uso da vacina contra a varíola, de origem animal, mas sem avanços significativos no controle nacional da doença.  

Afinal, o que foi a Revolta da Vacina?

No combate à varíola, a vacinação era considerada obrigatória para crianças, em 1837, e para adultos, em 1846, no país. Só que as resoluções nunca foram cumpridas, já que produção do imunizante não era feita em escala industrial e, por isso, não estavam disponíveis para todos.

Até que, em 1904, o médico sanitarista Oswaldo Cruz — em sua homenagem, hoje, há o instituto de mesmo nome, que é popularmente conhecido como Fiocruz — incentivou o governo do Rio de janeiro a enviar um projeto ao Congresso que fizesse cumprir a obrigatoriedade da vacinação. Em 31 de outubro, o Congresso aprovava, enfim, uma lei tornando obrigatória a vacinação contra a varíola. De 10 a 16 de novembro daquele ano, aconteceu na cidade uma revolta popular contra medidas que visavam erradicar a doença viral.

"Sobretudo a população pobre dos arredores da capital reagia à vacinação obrigatória contra a varíola, operação liderada pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz. A manifestação era resultado da má informação, mas também da mistura apressada de tantas levas populacionais — com histórias, costumes e aprendizados distintos. A incompreensão de parte a parte provocou uma verdadeira explosão, com direito a quebra de meios de transporte, depredação de edifícios e ataque a agentes higienistas", explicam as historiadoras Lilia Schwarcz e Heloisa Starling, no livro Brasil: uma biografia.

Na Revolta da Vacina, a cidade do Rio de Janeiro entrou em colapso por causa da vacinação obrigatória (Imagem: Reprodução/ Wikipédia)

Na época, as camadas mais populares se recusavam a receber o imunizante — e ainda circulava um boato de que quem se vacinasse ficaria com feições bovinas. Como parte da campanha, casas foram invadidas para a vacinação obrigatória. Outra polêmica era a necessidade de as mulheres terem que mostrar o braço para as autoridades de saúde na hora da vacinação.

Inclusive, na instabilidade política causada pela revolta, houve a tentativa de um golpe de Estado para depor o presidente Rodrigues Alves. Diante das ameaças, "o governo reagiu com violência: decretou estado de sítio, suspendeu direitos constitucionais, prendeu os líderes dos movimentos sociais e os deportou para o atual estado do Acre", afirmam as historiadoras. No total, foram trinta o número de mortos durante a rebelião e 110 registros de feridos. E cidade viveu em colapso pelo tempo em que a medida vigorou. Entretanto, as autoridades precisaram retroceder com a medida da maneira com a qual foi imposta.

Uma curiosidade é que o sanitarista Oswaldo Cruz foi muito importante para que o Brasil conseguisse enfrentar outras duas doenças epidêmicas, além da varíola, que foram a peste bubônica e a febre amarela. Para controlar a peste, causada por uma bactéria e muito transmitida por pulgas contaminadas, o médico chegou a oferecer 300 reis por ratos e, assim, reduziu de forma efetiva a proliferação da doença em portos, como o do Rio de Janeiro. 

Revolta da Vacina e a COVID-19

Mesmo que o Brasil de 1904 e o de 2020 tenham semelhanças, o país não enfrenta um cenário parecido entre as epidemias. Isso porque, diferente da varíola, ainda não contamos com uma vacina eficaz e segura contra a COVID-19. No momento, laboratórios e farmacêuticas trabalham na terceira e última etapa no desenvolvimento de um imunizante eficaz contra o coronavírus. Como ainda se fala de aprovação, é impensável ter uma vacina contra a COVID-19 disponível para toda a população brasileira, o que inviabiliza a obrigatoriedade.   

Por outro lado, hoje, algumas vacinas já são obrigatórias para parte da população brasileira, com base na legislação nacional. No entanto, não se usa força policial e nem o risco de prisões para se impor decretos que visam proteger a saúde pública. Há outros meios para se promover a vacinação, principalmente, a partir do diálogo.

Fonte: Com informações: TV Senado, Rede D'Or São Luiz e Fiocruz (1) e (2)

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