O mundo não está pronto para lidar com a próxima pandemia, alertam cientistas
Por Fidel Forato • Editado por Luciana Zaramela |

Independente de todos os aprendizados com a covid-19, uma equipe internacional de cientistas alerta que o mundo não está organizado e nem preparado para lidar com uma nova pandemia. Associado com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o grupo alerta para o perigo de doenças emergentes desde a divulgação do seu primeiro relatório, em maio de 2021.
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Publicado na revista científica The Lancet, o relatório sobre os desafios do mundo em se unir em prol do combate de futuras ameaças pandêmicas conta com a participação de Helen Clark, a ex-primeira-ministra da Nova Zelândia. Hoje, o cenário não é promissor para a humanidade.
"Essa crise da covid-19 enfraqueceu a capacidade dos países em resistir a choques globais. Estima-se que os impactos combinados da pandemia, a invasão russa da Ucrânia e o aumento da inflação em muitos países levem até 95 milhões de pessoas a mais à pobreza em 2022, em comparação com as projeções pré-pandemia", detalham os autores. Nessa realidade, o combate a possíveis vírus emergentes pode ser ainda mais comprometido.
Por outro lado, "há razões para otimismo, mas o mundo continua perigosamente despreparado para a próxima ameaça de pandemia", contam os pesquisadores. Entre os exemplos, está o desenvolvimento de vacinas contra a covid-19 em tempo recorde.
Por que o mundo não escuta os cientistas?
Há exatos 12 meses, o mesmo grupo de especialistas apresentou um relatório na assembleia anual da OMS, onde apontou que a dificuldade em coordenar esforços coletivos contra a covid-19 e inúmeras decisões sem embasamento poderiam elevar a pandemia para uma escala catastrófica.
Na época, os cientistas relatam que foi pedida "a implementação urgente de um pacote transformador de intervenções para acabar com a emergência da covid-19 e torná-la a última pandemia de tal devastação".
Entre as propostas, estava o incentivo a novas pesquisas e o financiamento dessas atividades, a criação de lideranças e o desenvolvimento de novas estratégias de vigilância epidemiológica. Além disso, era necessário tornar mais igualitário o acesso às inovações, como as vacinas.
Apesar do alerta, quase nada foi posto em prática e, um ano depois, mais 2,8 milhões de pessoas morreram oficialmente em decorrência da doença. Além disso, "as estimativas baseadas no excesso de mortes por covid-19 estão na faixa de 14 a 21 milhões desde o surgimento do SARS-CoV-2", explicam.
Risco da próxima pandemia
Atualmente, o consenso dos autores do relatório é que "a inação estabelece as bases para outra pandemia". Dentro deste contexto, é necessário lembrar que "conter ameaças pandêmicas é uma escolha. Por meio de processos fragmentados e lentos, o mundo está optando por arriscar uma repetição dos eventos que resultaram na situação atual".
"A principal questão continua sendo a falta de liderança política sustentada, de alto nível, que traga a coerência e a urgência necessárias aos processos de reforma fragmentados", contam. Outra questão é a necessidade de ampliar a capacidade de atuação da OMS, permitindo que ela possa identificar ameaçar emergentes de forma mais rápida. Somente esses esforços conseguirão proteger o futuro da humanidade.
Fonte: The Lancet