Novo coronavírus foi encontrado no esgoto de outros países antes da China

Por Fidel Forato | 13 de Julho de 2020 às 20h00
Marcos Gomes/ Flickr

Grupos de pesquisa de outros países, como no Brasil e na Espanha, identificaram a presença do novo coronavírus (SARS-CoV-2) em amostras de esgoto coletadas semanas ou até mesmo meses antes do primeiro caso registrado, oficialmente, na cidade chinesa de Wuhan, região tida como o primeiro epicentro da pandemia da COVID-19. Essa série de recentes descobertas pode, após mais pesquisas, revelar que o coronavírus estaria circulando pelo mundo bem antes do que aponta a cronologia oficial da doença.

Entre as novas evidências, o estudo mais promissor foi liderado pela Universidade de Barcelona, na Espanha, onde os relatórios encontraram a presença do vírus em amostras congeladas tanto no dia 15 de janeiro de 2020 (41 dias antes da primeira notificação oficial entre os espanhóis) quanto no dia 12 de março de 2019 (nove meses antes do primeiro caso confirmado na China).

Análises de esgoto apontam para a presença do novo coronavírus muito antes do primeiro surto na China (Foto: reprodução/ Pixabay)

O que significa?

As descobertas levantam uma questão fundamental para o problema: como o coronavírus, capaz de contaminar mais de 12,5 milhões de pessoas em todo o mundo e levar pelo menos 550 mil a óbito, poderia ter circulado por tanto tempo sem causar uma explosão de casos?

Para explorar possibilidades para essa resposta, a BBC cita algumas hipóteses viáveis, como a de que pacientes teriam recebido diagnósticos errados ou incompletos de outras doenças respiratórias no lugar da COVID-19. Nesse aspecto, a infecção respiratória teria sido confundida com outras doenças por médicos do mundo todo. Outra aposta é que o vírus não tenha se espalhado com força suficiente a originar um surto inicial, como o que a China enfrentou em janeiro.

Outro ponto importante é verificar o grau de confiabilidade dessas análises. Isso porque uma eventual contaminação das amostras ou um resultado falso positivo poderia colocar em xeque essas pesquisas. Por exemplo, a elevada similaridade genética do coronavírus com outros vírus respiratórios ou ainda possíveis falhas no kit de teste poderiam levar a esse equívoco.

No entanto, o epidemiologista ligado ao Centro de Medicina Baseada em Evidências da Universidade de Oxford, Tom Jefferson, defende que há uma crescente de evidências que apontam para o fato do coronavírus ter se espalhado pelo mundo antes de explodir na Ásia. "Talvez estejamos vendo um vírus dormente que foi ativado por condições ambientais", teoriza Jefferson.

Pesquisadores ainda investigam as origens do novo coronavírus (Imagem: reprodução/ Pixabay)

Segundo o virologista Fernando Spilki, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, mais estudos sobre o tema são necessários para qualquer conclusão sobre a incidência desse agente infeccioso meses antes da origem oficialmente conhecida da pandemia, em dezembro, na China. "Todos estes resultados têm de ser avaliados com cautela. A própria característica do SARS-CoV-2 de induzir casos de bastante gravidade e letalidade relativamente alta na população torna improvável que este vírus circule em uma região sem evidência de casos clínicos", afirma o infectologista.

Descoberta brasileira

Quanto à descoberta brasileira de vestígios do coronavírus em esgotos, uma equipe de cientistas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) analisou seis amostras congeladas que foram coletadas em Florianópolis, entre 30 de outubro de 2019 a 4 de março de 2020. No artigo, que ainda não revisado por outros cientistas, a equipe identifica que o coronavírus foi detectado a partir do dia 27 de novembro do ano passado.

No entanto, o estado de Santa Catarina só vai registrar, oficialmente, os dois primeiros casos no dia 12 de março, em Florianópolis, ou seja, alguns meses depois. De acordo com a bióloga Gislaine Fongaro, líder da pesquisa e professora da UFSC, os primeiros resultados despertaram ceticismo no grupo. Por isso, novas pesquisas precisam repetir todos os testes com diversos marcadores virais, o que evitaria que outros vírus fossem confundidos na hora da detecção, por exemplo.

Em investigação

Ainda não foi confirmado como e nem quando o novo coronavírus começou a contaminar humanos. O que há é um consenso entre os especialistas de que o primeiro surto foi registrado na cidade chinesa de Wuhan, em um mercado que vendia animais selvagens. Mesmo assim, não se sabe se o vírus surgiu ali ou só se proliferou, a partir dos frequentadores do local.

"Se você me perguntar qual é a maior possibilidade, digo que o vírus veio de mercados que vendem animais selvagens", explica a microbiologista da Universidade de Hong Kong, Yuen Kwok-yung, para a BBC, sobre os primeiros casos da COVID-19 em dezembro. No entanto, nem esse caso é considerado como um consenso na China.

Em janeiro, médicos de Wuhan publicaram, na revista científica The Lancet, um artigo detalhando que o primeiro caso conhecido de coronavírus em um ser humano tinha ocorrido semanas antes do que foi oficialmente notificado. Segundo esses pesquisadores, o caso número um foi o de um idoso que não frequentou o mercado em questão, mas morava na mesma cidade. Ou seja, a cronologia e as origens da atual pandemia ainda estão em aberto.

Fonte: BBC

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