Coronavírus no esgoto? Sim, tem coronavírus no esgoto (e isso pode ser bom)

Por Fidel Forato | 08 de Maio de 2020 às 18h26
Marcos Gomes/ Flickr

Uma das formas mais eficientes de conter a disseminação do novo coronavírus (SARS-CoV-2) é rastrear onde estão as pessoas com a COVID-19, inclusive os grupos assintomáticos — aqueles que não têm sintomas, mas podem transmitir a doença. Para isso, costumam ser necessários testes, em massa, realizados na população e, assim, pode-se pensar políticas públicas, como isolamento social ou lockdown.

Frente à pandemia da COVID-19, muitos países não contam com testes suficientes para rastrear a verdadeira dimensão da infecção. Pensando nisso, pesquisadores franceses começam a buscar respostas onde a maioria das pessoas prefere nem chegar perto: nos bueiros. Eles são uma fonte muito rica de evidências, já que dejetos humanos de pacientes com o coronavírus, como urina e fezes, têm uma carga viral significativa (e podem até contaminar novas pessoas). Pesquisas como essa também começam a chegar no Brasil.

Pesquisadores exploram esgostos de Paris em busca de evidências do novo coronavírus (Foto: Frederick Florin/ Getty Images)

Esgotos de Paris 

Ao coletar amostras de esgoto de Paris, por mais de um mês, os pesquisadores da empresa pública Eau de Paris, que tratam o esgoto e distribuem água para a capital francesa, detectaram uma oscilação nas concentrações do novo coronavírus nas águas com os dejetos humanos. A região onde o isolamento social está mais rígido, principalmente para impedir a propagação da doença, apresentou maiores concentrações do SARS-CoV-2.

Segundo os pesquisadores, esse é o primeiro estudo a demonstrar a relação entre o aumento acentuado nas concentrações virais no esgoto e, em sequência, a explosão de casos da COVID-19 nos hospitais. Isso aponta para o potencial dessa análise como uma ferramenta barata e não invasiva para alertar contra possíveis surtos da epidemia.

"Essa visibilidade também nos ajudará a prever uma segunda onda de surtos", explica Sébastien Wurtzer, virologista da Eau de Paris. A publicação, ainda em etapa de revisão, está disponível na plataforma medRxiv.

Como é feita a medição?

Como apontado pelos pesquisadores, os esgotos podem oferecer dados sobre o surtos quase em tempo real, já que coletam diariamente as fezes e urina de moradores que podem conter coronavírus. É importante entender que o que os auxiliou na detecção da epidemia foi a oscilação nas taxas do coronavírus, já que todas as amostras de águas residuais, coletadas entre 5 de março e 7 de abril, testaram positivo.

No estudo das amostras, foram feitos testes de PCR (reação em cadeia da polimerase), os mesmos usados no Brasil, para identificar fragmentos de RNA do SARS-CoV-2. A partir disso, descobriram que maiores concentrações desse vírus nas águas residuais correspondiam a um maior número de pessoas infectadas (que "contribuem" para o aumento da carga viral no sistema de esgoto).

O grupo também observou "altas concentrações" de RNA viral dias antes de 10 de março, o primeiro dia em que Paris registrou várias mortes por COVID-19. Além disso, as concentrações seguiram aumentando alguns dias antes de uma aceleração em casos clínicos e mortes em Paris.

"Temos uma curva muito clara que precede a curva em número de casos clínicos e, agora, com confinamento, vemos um achatamento dessa curva", explica Laurent Moulin, co-autor do estudo e microbiologista também na Eau de Paris. É estimado que leve de 12h até três dias para que o esgoto dos banheiros parisienses cheguem às estações de tratamento e seja possível fazer as análises.

No Brasil

A análise dos esgotos para identificar o coronavírus também já começou a ser feita no Brasil. Em estudo, a ANA (Agência Nacional de Águas), em parceria com a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e a Secretaria de Saúde do Estado de Minas, já detectou a presença do novo vírus nas bacias do Ribeirão Arrudas e no Ribeirão da Onça, nas cidades de Belo Horizonte e Contagem.

Além disso, outro estudo brasileiro elaborado pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), divulgado no final de abril, também alerta para a presença do patógeno nos esgotos de Niterói, no estado do Rio de Janeiro. Só que, por enquanto, os índices do vírus não foram comparados aos números de infectados brasileiros, como aconteceu na França.

Enquanto essas tecnologias vão se aperfeiçoando, é alta a expectativa para que se tornem bons medidores da COVID-19 na população. Nesse cenário, os dados que podem ser identificados, a partir dos esgotos, devem auxiliar na definição de medidas públicas mais assertivas, principalmente, embasadas com informações reais da epidemia.

Funcionaria no mundo todo?

O monitoramento dos esgotos pode ser uma arma eficaz para a medição de surto epidêmicos, atualmente, difíceis de serem rastreados devido à falta de testes para a COVID-19. “Na maioria dos países, os testes individuais são escassos e os números de surtos são baseados na modelagem computacional”, explica Zhugen Yang, engenheiro biomédico do Instituto de Ciências da Água da Universidade de Cranfield, no Reino Unido.

Por isso mesmo, pesquisadores britânicos também estudam e estão desenvolvendo testes baratos para detectar a presença do SARS-CoV-2 em esgotos. "A amostragem de esgoto fornece uma imagem bastante barata e baseada em evidências da carga viral real em uma comunidade", complementa Yang, um dos responsáveis pelo projeto.

A partir de modelos de computador, que incorporam dados sobre quantas partículas virais os indivíduos devem eliminar do vírus e como elas se diluem no esgoto, já é possível converter as concentrações virais detectadas, em estimativas de números absolutos de infecções na área de captação de um sistema de esgoto. É um sistema complexo, mas eficiente, acreditam os pesquisadores da Universidade de Cranfield.

Em Israel, o monitoramento do esgoto já foi testado para detecção precoce de um surto de poliomielite, isso antes mesmo que qualquer caso clínico aparecesse nos hospitais, segundo um estudo local de 2018, o que pode ser uma importante fonte de informação e de experiências para as novas pesquisas.

Fonte: Science Mag e Uol

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