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Mosquitos da dengue com bactéria podem resolver surtos no mundo todo

Por| Editado por Luciana Zaramela | 18 de Janeiro de 2024 às 11h11

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Wikilmages/Pixabay
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A dengue é um problema de saúde cada vez mais global, e o número de casos não aumenta apenas no Brasil. Na verdade, até países que não registravam casos deste tipo de arbovírus passaram a enfrentar essa ameaça, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Para especialistas, uma das soluções é infectar os mosquitos (os vetores) com uma bactéria conhecida como Wolbachia, o que vai reduzir a chance de transmissão da doença para humanos.

Para evitar novos surtos e mortes, o World Mosquito Program (WMP) infecta os mosquitos transmissores, como o Aedes aegypti, com uma bactéria e os liberam aos milhões no meio ambiente. 

Os insetos infectados se reproduzem com parceiros “selvagens”, transmitindo a Wolbachia para os descendentes. Ao longo das gerações, os insetos terão uma capacidade menor de transmitir a dengue aos humanos. Em testes bem-sucedidos ao redor do mundo, bilhões de mosquitos já foram infectados pela bactéria. 

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O mais interessante é que a estratégia não ajuda a controlar apenas a dengue. “Os mosquitos com a Wolbachia têm uma capacidade reduzida de transmitir [inúmeros] vírus às pessoas, diminuindo o risco de surtos de dengue, zika, chikungunya e febre amarela”, afirma o WMP, em nota.

Dengue e aquecimento global

A explicação por trás do aumento de casos da dengue no mundo está relacionada com o aquecimento global e a intensificação dos eventos climáticos extremos — como ondas de calor, inundações, tempestades severas e secas duradouras. 

De forma simples, um planeta mais quente proporciona condições favoráveis para a reprodução dos mosquitos da dengue. As chuvas torrenciais também produzem novos criadouros. Vale destacar que 2023 foi o ano mais quente da história recente.

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Como resultado, a doença se intensifica onde é comum e se espalha para outros países. É isso o que está acontecendo, já que o aumento de casos de 2023 não foi observado apenas nos países endêmicos, como o Brasil, mas chegou até ao continente europeu. Por lá, a infecção não é estabelecida.

Seca também aumenta criadouros do mosquito

Só que a crise climática também aumenta o risco de doenças transmitidas por mosquitos de formas menos óbvias, lembra Katie Anders, epidemiologista e diretora de avaliação de impacto do WMP.

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“Quando as famílias armazenam água em resposta à seca, isso pode aumentar os criadouros locais de mosquitos e o risco de doenças”, explica Anders. Além disso, “as mudanças no uso da terra também podem impulsionar a migração para as cidades, aumentando a população em risco de surtos de dengue e outras doenças transmitidas por mosquitos”, acrescenta.

Diante dessas possibilidades, a previsão da London School of Hygiene & Tropical Medicine (LSHTM) é que, em 2080, mais de oito mil milhões de pessoas estarão em situação de risco para a infecção da malária e da dengue. Para evitar essa previsão, é preciso investir em novas soluções, como a bactéria Wolbachia.

Como a bactéria Wolbachia funciona?

Diferente de outras estratégias disponíveis, o uso da bactéria Wolbachia não provoca nenhum tipo de modificação genética. Este patógeno ocorre naturalmente e mais de 50% dos insetos já vivem com ele.

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Porém, analisando a bactéria, os cientistas descobriram que ela dificulta o processo de infecção por outros agentes infecciosos no inseto. Por exemplo, o mosquito com a Wolbachia tem menos chances de contrair o vírus da dengue. Por isso, a transmissão dessas doenças tende a cair em áreas onde a estratégia é adotada.

Se o mesmo A. aegypti for infectado pelos dois patógenos, ocorrerá uma batalha interna por suprimentos, como o colesterol, substância associada com a sobrevivência dos dois agentes. Isso impede que o vírus da dengue se prolifere tão bem e, novamente, reduz as chances de transmissão para humanos.  

Testes da estratégia

Segundo o WMP, a estratégia já foi ou ainda é testada em 14 países, o que envolveu a liberação de bilhões de mosquitos da dengue infectados. Inclusive, entre os anos de 2017 a 2019, o método foi avaliado em uma região no Rio de Janeiro, com parceria entre a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)

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Neste estudo, foram liberados cerca de 67 milhões de mosquitos. Em consequência, foi possível observar uma redução de até 77% dos casos de dengue e 60% de chikungunya nos locais que receberam os A. aegypti com Wolbachia.

Cabe mencionar que os mosquitos com a bactéria já são usados no Brasil, fora dos testes. Para este ano, o Ministério da Saúde anunciou uma ampliação no programa e deve liberar os insetos em 11 cidades, o que deve contribuir com a redução nos casos de dengue.

Fonte: WMP e OMS