Medo de contrair COVID-19 traz sérias consequências à saúde mental

Por Nathan Vieira | Editado por Luciana Zaramela | 27 de Março de 2021 às 18h00
microgen/envato

Em outubro de 2020, fizemos um especial sobre o impacto da pandemia na saúde mental da população (parte 1; parte 2), e em meio às consequências de curto e longo prazo, destacamos as preocupações e o medo tomando conta da população. Recentemente, estudos realizados em várias partes diferentes do mundo se concentram em alertar justamente para o medo de contrair a COVID-19, e como isso está afetando as pessoas em geral.

No início do mês de março o Dr. Joseph Alpert, da Escola de Medicina da Universidade do Arizona (EUA), publicou um relato na revista científica The American Journal of Medicine, observando que os pacientes internados por insuficiência cardíaca ou doença pulmonar crônica tinham diferenças notáveis em relação aos pacientes atendidos ao longo das últimas décadas: estavam consideravelmente mais doentes e mais perto de morrer do que no passado.

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Dr. Alpert percebeu que os pacientes evitavam o hospital o máximo possível por causa do medo de adquirir uma infecção letal por COVID-19, e pelo mesmo motivo, muitos pacientes hospitalizados recusaram a fisioterapia pós-alta ou a transferência para tratamento psiquiátrico.

Alguns estudos vêm ressaltando as principais consequências negativas desencadeadas pelo medo irracional de contrair a COVID-19 (Imagem: McKinsey/Rawpixel)

Os pacientes frequentemente declararam que era mais seguro ficar em casa do que ir ao hospital. "Eu disse repetidamente aos pacientes que eles estavam mais seguros conosco do que fazendo compras no mercado, onde eles não sabiam se a pessoa ao lado estava ou não com COVID-19. Parecia que o medo havia superado o pensamento racional", apontou o médico em seu relato. "A medicina precisa educar o público sobre as condições de segurança em hospitais e clínicas. Se você estiver doente, não hesite em ligar para a emergência ou pedir a alguém para levá-lo ao pronto-socorro mais próximo", concluiu.

Em paralelo, a pesquisa MentalCovid, feita pela Universidade Federal do Rio Grande (Furg) do Rio Grande do Sul e pela Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc) de Santa Catarina, apontou que a saúde mental da população tem sido prejudicada pelo medo de contrair a COVID-19. A análise, que teve início em setembro de 2020, consiste em cinco estudos simultâneos. Por enquanto, apenas os primeiros resultados de dois estudos foram divulgados.

Os pesquisadores apontam que o pior quadro de saúde mental não está associado à infecção causada pelo coronavírus, considerando que não houve nenhuma diferença nos escores de depressão e estresse nas pessoas que contraíram a doença, quando comparadas aos que ainda não tiveram. Juntamente com o medo e a preocupação, há a busca excessiva por informações (que os especialistas chamam de infodemia) e o distanciamento social.

A pesquisa contemplou 2.170 indivíduos entrevistados, com 18 anos ou mais, em mais de mil domicílios. “Para as pessoas mais afetadas pela pandemia, observou-se maiores níveis de depressão, estresse, tristeza e ideação suicida”, aponta o relatório de divulgação da pesquisa.

O medo da COVID-19

Em conversa com psiquiatra, Canaltech busca compreender até que ponto o medo da COVID-19 gera cuidados e não prejuízos à saúde mental (Imagem: Anthony Tran/Unsplash)

Com esses estudos em mente, questiona-se: será que já se instala uma fobia de COVID-19? Quem nos esclarece isso é o Dr. Marco Abud, psiquiatra e fundador do Canal Saúde da Mente. O especialista explica, inicialmente, que a presença de ameaças à nossa saúde tanto física, familiar e econômica faz com que o nosso sistema de alerta natural que todo ser humano tem no cérebro seja disparado. Ele aponta que o sistema de alerta é muito útil para o ser humano, pois faz com que frente a um perigo ele reaja de uma forma mais eficiente, seja atacando esse perigo para afastá-lo, resolvê-lo ou então evitando-o de todas as formas.

Dito isso, o psiquiatra observa que é comum que diante do estado atual da sociedade e do mundo, as pessoas estejam naturalmente mais ansiosas, considerando que existem mais ameaças. "Até um certo nível esse tipo de ansiedade melhora o nosso raciocínio, o tempo de reação frente a algo ruim que aconteça e faz com que a pessoa tenha uma energia maior para enfrentar, evitar ou proteger tanto nós meses quanto à nossa família", reflete Abud.

"De qualquer forma, temos que estar atentos porque ao mesmo tempo que essa ansiedade protege, a partir de um determinado ponto, quando ela fica muito intensa ou quando não consegue ser desligada, pode fazer com que ela comece a roubar a energia e aprisionar e não proteger", acrescenta o especialista.

Assim, o psiquiatra conclui que o ser humano está mais sujeito a sentir mais ansiedade nesse momento, mas em algumas pessoas específicas, por características genéticas, história de vida, características relacionadas a comportamentos aprendidos, pode entrar em um ciclo em que esse medo (que pode ser relacionado tanto a contrair COVID-19 como a ter consequências financeiras, ou ainda à incerteza) comece a acontecer a todo momento, atrapalhando a pessoa a fazer outras coisas no dia a dia. "Neste momento, a ansiedade se torna patológica e provavelmente isso seria um diagnóstico de transtorno de ansiedade", aponta.

Dr. Abud esclarece que o medo em relação à COVID-19, que seria uma ansiedade tóxica e patológica, estaria entrando em um transtorno de ansiedade. "Esses quadros, uma vez que eles se instalam, autoalimentam — ou seja, entram em um ciclo de ansiedade, em que alguns pensamentos sobre a doença alimentam sintomas físicos e esses sintomas físicos alimentam mais pensamentos, e os pensamentos e sintomas físicos fazem com que a pessoa se envolva em comportamentos de evitação ou de hiper checagem, que retroalimenta tudo isso. Mesmo depois que o gatilho inicial foi embora, esse ciclo permanece", avalia. 

Como lidar com o medo?

Especialista traz dicas de como se atentar às reações excessivas à possibilidade de contrair COVID-19 e recomenda buscar tratamento se for o caso (Imagem: rottonara / Pixabay)

Mas esse medo é bom, por proporcionar mais cuidados? Para o especialista, alguns sinais servem para acender um alerta de que essa preocupação está sendo mais prejudicial do que cuidadosa. "A preocupação é útil à medida que ela ajuda a gente a tomar atitudes para resolver o problema. Se nós estamos nos preocupando com algo sobre o qual nada podemos fazer naquele momento, esta é uma preocupação que não está sendo muito útil, só está gastando energia", indica. 

Os sintomas que indicariam um medo excessivo de contrair a doença são os seguintes: se a pessoa está trabalhando e a mente dela é invadida por preocupações relacionadas à COVID-19, ou se ela está em um momento de relaxamento e a mente dela é bombardeada de forma involuntária constantemente por este tipo de pensamento. O outro sinal para ficar alerta seria se a pessoa continua procurando informações sobre a doença, fazendo exames, indo a médicos e ligando para os médicos apesar de já ter recebido os resultados e avaliações de que ela não está doente. "O medo tem que ser um passageiro na nossa mente, ele não tem que ser o motorista das nossas ações", afirma o psiquiatra. 

Um outro dado é quando esse tipo de medo faz com que a pessoa evite fazer atividades importantes. "Quando esse medo está fazendo com que ela evite alguns comportamentos importantes, é um sinal de alerta muito claro, de que vale a pena a pessoa dar uma olhada nisso de uma forma mais atenta e procurar uma avaliação e um tratamento, porque todos os quadros que acometem a nossa mente indicam uma disfunção de algum circuito cerebral e são altamente tratáveis. A ideia é que a gente consiga reorganizar o circuito cerebral que está alterado nesses momentos", observa o Dr. Abud.    

O especialista ressalta a importância de ter uma ansiedade aumentada nesse momento de pandemia, já que isso ajuda o corpo a ficar mais reativo para responder melhor a esses perigos. No entanto, é preciso ficar atento para que isso não seja excessivo. O médico sugere atenção até na forma como nós buscamos informações na internet. "Dependendo da palavra que digitamos, aumenta a chance de encontrar blogs, sites que confirmem aquilo que estávamos procurando e não encontramos sites confiáveis que neguem a informação procurada", diz.

Ao invés de procurarmos exatamente o que está nos preocupando, o médico indica que quando se faz uma pesquisa mais abrangente, encontra-se mais sites que colocam esses sintomas de forma mais ponderada, o que diminuirá a ansiedade e ajudará a tomar atitudes mais embasadas. Outra indicação do psiquiatra é se atentar às fontes. "As informações referentes à saúde, por exemplo, devem partir de profissionais especializados de cada área. Essas dicas podem ajudar a evitar que as pessoas sejam bombardeadas por notícias mais nocivas do que úteis na vida", aponta. 

"Se você perceber que esses sinais de alerta estejam acontecendo com você ou alguém próximo, é importante procurar um tratamento, que pode envolver medicações ou não, e terapias que podem ajudar a pessoa a sair desses pensamentos, a desafiar esses pensamentos e desgrudar desse tipo de comportamento", recomenda, por fim, o psiquiatra. 

Fonte: Com informações de The American Journal of MedicineEurekAlert!, Universidade Federal do Rio Grande 

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