Especial | O impacto da pandemia na saúde mental da população [parte 2]

Por Nathan Vieira | 11 de Outubro de 2020 às 12h00
Robina Weermeijer /Unsplash

No fim de semana deste sábado (10), em que foi comemorado o Dia Mundial da Saúde Mental, trazemos uma ampla análise diante de todo o impacto psicológico causado pelo coronavírus, dividida em duas partes com quatro capítulos cada. Enquanto a primeira parte desse especial esteve focada nas causas, a segunda levanta as consequências e os efeitos de longo prazo dessa reviravolta que o coronavírus causou na vida da população.

Além de todos os impactos óbvios da doença em questão, entre os possíveis efeitos da COVID-19 está o aparecimento e, até mesmo, a piora de distúrbios psiquiátricos. E um dos grandes problemas é que a saúde mental não é levada tão a sério quanto a saúde física, preocupando definitivamente os especialistas da área.

Capítulo 5: sintomas neurológicos da COVID-19

Especialistas fazem alerta para sintomas neurológicos da COVID-19 (Imagem: Robina Weermeijer/Unsplash)

Não é só a questão da saúde mental da população que tem preocupado os especialistas. Acontece que a COVID-19 tem sido analisada por muitos profissionais da área da saúde, e desencadeado cada vez mais descobertas. Ultimamente, foi apontado que muitos pacientes que sofrem de COVID-19 apresentam sintomas neurológicos, desde aumento no risco de ter um acidente vascular cerebral (AVC) até consequências mais duradouras para o cérebro, como síndrome da fadiga crônica.

Em maio, os pesquisadores da USP e da Universidade da Região de Joinville (Univille) revisaram artigos publicados recentemente em revistas científicas com a intenção de averiguar prevalência de sintomas neurológicos em pacientes com COVID-19. Eles perceberam que uma série de casos relatados pelos chineses mostra que a prevalência de complicações no sistema nervoso central e no sistema nervoso periférico é muito superior em relação ao que se acreditava no ano passado.

Em paralelo, um artigo para o veículo The Conversation menciona que muitos dos sintomas atribuídos a uma infecção se devem, na verdade, às respostas protetoras do sistema imunológico. Na prática, a febre torna o corpo menos hospitaleiro a vírus e aumenta a eficiência do sistema imunológico. Além de mudar o comportamento e regular as respostas fisiológicas durante a doença, o sistema imunológico também desempenha uma série de outras funções.

O artigo aponta que as células neuroimunes que ficam nas conexões (sinapses) entre as células cerebrais (neurônios), que fornecem energia e quantidades mínimas de sinais inflamatórios, são essenciais para a formação da memória, mas isso também fornece uma maneira de doenças como COVID-19 causarem sintomas neurológicos e problemas de longa duração no cérebro.

Esse artigo acrescenta que tanto o cérebro quanto o sistema imunológico evoluíram especificamente para mudar como consequência da experiência, a fim de neutralizar o perigo e maximizar a sobrevivência, e que no cérebro, as mudanças nas conexões entre os neurônios nos permitem armazenar memórias e mudar rapidamente o comportamento para escapar de ameaças ou buscar comida ou oportunidades sociais. Mudanças duradouras no cérebro após a doença também estão intimamente ligadas ao aumento do risco de declínio cognitivo relacionado à idade e doença de Alzheimer.

Já em julho, uma equipe de pesquisadores do Instituto de Neurologia da University College London (UCL) publicou uma nova pesquisa, na qual alertam a respeito de distúrbios cerebrais graves desencadeados pelo coronavírus, capazes de afetar até mesmo aqueles que mostram apenas sintomas leves. Para isso, examinaram 43 pacientes com COVID-19 que tiveram distúrbios cerebrais, como derrames ou como uma incidência notavelmente alta de encefalomielite disseminada aguda (ADEM), um distúrbio neurológico raro caracterizado por inflamação generalizada no cérebro. Desses 43 pacientes, oito sofreram derrames, enquanto outros oito tiveram danos nos nervos periféricos.

Na mesma época, pesquisadores norte-americanos desenvolveram um estudo referente ao efeito da COVID-19 no sistema nervoso, alertando sobre problemas neurológicos em pacientes com a doença em questão, incluindo derrame, convulsões, confusão, tontura, paralisia e/ou coma.

Capítulo 6: consequências psiquiátricas

Psiquiatras destacam consequências mentais trazidas pela pandemia (Imagem: Anthony Tran/Unsplash)

Frente ao caos que o mundo inteiro está submetido por conta da COVID-19, a saúde mental das pessoas também se encontra em risco. Para entender melhor o impacto do ponto de vista psiquiátrico, a equipe do Canaltech conversou com Dr. Luiz Scocca, psiquiatra pelo Hospital das Clínicas da USP e membro da Associação Americana de Psiquiatria (APA) e Dr. Henrique Bottura, psiquiatra diretor clínico do Instituto de Psiquiatria Paulista, colaborador do ambulatório de impulsividade do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Segundo Dr. Henrique Bottura, os transtornos psiquiátricos mais comuns derivados da COVID-19 são chamados transtornos adaptativos, que são manifestações depressivas e ansiosas secundárias a situações difíceis que a gente vive. "É evidente que, com o tempo, vai ficar mais claro se existe algum transtorno de base por trás disso ou se isso evolui mesmo para um quadro depressivo, mas o que a gente tem mais visto são esses quadros de pessoas com dificuldade de adaptar-se às mudanças", explica.

O psiquiatra também menciona que presenciou muito quadro de estresse pós-traumático depois de o paciente ter tido a doença. "Para algumas pessoas é muito pesado, pois correm risco de vida, e quando se recuperam, têm aquele medo de passar por isso novamente e têm sonhos vívidos, sentimentos somáticos, característicos de medo e ansiedade, preocupação", observa.

Giulia, de 24 anos, que teve COVID-19 e já se recuperou, conta como a doença a impactou emocionalmente. "Demorou para cair a ficha. Só caiu a ficha mesmo quando minha mãe pediu para os meus irmãos não voltarem para casa, quando tivemos que ficar de olho na minha avó vinte e quatro horas por dia para ver se ela não tinha nenhum tipo de sintoma, quando eu estava na mesma casa que a minha mãe e não podia conviver com ela. Foi quando começou a bater o desespero. Foi uma coisa que me deixou bem em choque. No meu tempo de COVID-19, senti muita indisposição, dormia dia e noite, noite e dia. Quando não estava dormindo, eu estava ansiosa", relata.

Dr. Luiz Scocca analisa que a grande maioria da população necessita de interação social, então houve um grande sofrimento nessa área. O especialista faz um alerta: "As pessoas estão o dia inteiro na frente dos computadores. O home office é bom, mas é preciso de um pouco de relacionamento interpessoal, então a situação piora bastante".

O psiquiatra acrescenta que muita gente, por causa do medo, não tem visto a família. "O medo fica o tempo todo perseguindo a pessoa. É medo de transmitir a doença pessoas que ama, medo de pegar a doença. A pessoa não pode ver os pais, não pode ver o namorado... Há quem quebre a quarentena e aí fica preocupado, então tudo isso tem acontecido no dia a dia por conta da pandemia".

Apesar de tudo, na psiquiatria, ainda não estão tratando as doenças derivadas do isolamento, da pandemia e de suas consequências como um novo CID (código internacional de doença). Isso porque, segundo Luiz Scocca, é um código muito difícil de ser feito. Para se ter uma ideia, da criação do CID 10 para a criação do CID 11, o intervalo foi de simplesmente 30 anos.

Quanto a isso, por sua vez, Dr. Henrique Bottura percebe derivações dos CIDs habituais que se encaixam com manifestações que vem dessa nova fase, dessa nova vivência. "Muitos psiquiatras notam o aumento da procura de pacientes com quadros ansiosos, depressivos. O isolamento muitas vezes desorganizou a vida social das pessoas", aponta.

Capítulo 7: fadiga da pandemia

Fadiga da pandemia preocupa especialistas e ameaça consequências à população (Imagem: Cottonbro / Pexels)

Em meio a intermináveis preocupações em torno da situação atual do mundo, uma delas foi apontada recentemente na Europa, e se chama fadiga da pandemia, que se instalou no continente, onde o surto está aumentando novamente em alguns países que foram aclamados no início por reprimir surtos massivos.

Segundo Dr. Thomas Tsai, cirurgião e pesquisador de políticas de saúde da Universidade de Harvard, e o ressurgimento na França e na Espanha é semelhante ao que ocorreu nos Estados Unidos no início deste ano, após o feriado do Memorial Day, quando muitos estados buscaram reabrir negócios e atividades. Pelo que o pesquisador afirmou na época, a fadiga da pandemia se trata de quando as pessoas e funcionários do governo desejam que a pandemia acabe e diminuem as restrições que mantêm o vírus sob controle. "Se não estivermos garantindo ativamente que estamos controlando a pandemia, ela não vai simplesmente desaparecer", observou, na ocasião.

Frente a isso, o médico Hans Henri Kluge, diretor regional da OMS para a Europa, alegou que o cansaço é esperado nesta fase da crise. "Desde que o vírus chegou ao continente europeu, há oito meses, os cidadãos fizeram enormes sacrifícios para conter a COVID-19. O custo foi altíssimo, algo que esgotou todos nós, independentemente de onde vivemos ou do que façamos. Nessas circunstâncias, é fácil e natural sentir-se apático e desmotivado, sentir cansaço. Acredito que seja possível revigorar os esforços para enfrentar os desafios em evolução da COVID-19", apresentou.

Dr. Henrique Bottura explica que o primeiro ponto que temos que observar é que é esperado que, conforme a gente vai assimilando a nova realidade, vai tendo um relaxamento nos cuidados. "No primeiro momento, a gente não saía de casa, e o critério de assepsia era muito mais rígido. É natural que frente a uma percepção mais real da magnitude do problema, exista uma adaptação dos indivíduos a isso", explica. "Então essa fadiga pode ser muito prejudicial, principalmente nessa fase que a gente começa a sair mais, a se expor mais. Então eu diria que o alerta e a informação sobre a importância da gente ir mantendo os cuidados à medida que vai ganhando mais informações de como se transmite, dos riscos reais, é fundamental", o especialista acrescenta.

Enquanto isso, Dr. Luiz Scocca conta que presencia essa fadiga diariamente com seus pacientes. "As consequências disso a gente observou em alguns países europeus e nos Estados Unidos, quando muitos estabelecimentos tentaram em abrir e retomar o funcionamento e os índices de prevalência da COVID-19, que tinham diminuído, voltaram aumentar. Nós temos experiências de outras pandemias e sabemos que os transtornos mentais são sempre a etapa final, e a que mais demora passar. Em qualquer grande catástrofe ou tragédia para humanidade você vai ver isso", expõe o psiquiatra.

Capítulo 8: e depois da pandemia?

As consequências da pandemia podem perdurar (Imagem: Anna Shvets / Pexels)

Eis uma coisa que ninguém sabe ao certo: como estarão as coisas depois que a pandemia passar? Para o Dr. Yuri Busin — psicólogo, mestre e doutor em neurociência do comportamento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e diretor do Centro de Atenção à Saúde Mental — Equilíbrio (CASME), haverá consequências em longo prazo. "Algumas coisas vão realmente permanecer, como os quadros de ansiedade, depressão, fobia, dificuldade de sair de casa. Pode sim haver questões no longo prazo, mas todas com tratamento, e hoje é possível fazer o tratamento de forma online, algo que facilitou muito o acesso à psicoterapia", afirma o especialista.

Para Dr. Henrique Bottura, a importância de cuidar da saúde mental transcende a pandemia. "Apesar de a gente dar pouco foco para isso, é um elemento importante até que a pandemia está trazendo, essa clareza de que é importante cuidar da saúde mental. Eu diria que na pandemia, especificamente, como a gente está numa fase de transição e instabilidade, é fundamental que a gente tenha cuidado com todos os aspectos que envolvem saúde mental, já que são nessas fases que surgem os quadros psiquiátricos. É muito importante que, nessa pandemia, as pessoas cuidem de sua saúde mental organizando rotina, sono, atividades, alimentação e evoluindo na relação familiar", afirma.

Questionado sobre o que deve ser parâmetro para procurar ajuda, Dr. Henrique menciona o nível de sofrimento emocional. "O quanto está gerando desconforto emocional e impactando na funcionalidade, ou seja, na capacidade de estudar, trabalhar, produzir, interagir. Esses são os termômetros que devem nos guiar para a busca de uma ajuda. Quando o sofrimento emocional é intenso, duradouro e persistente, eu recomendo que se procure um psicólogo ou um psiquiatra", orienta.

Se você for alguém que precisa de ajuda e orientação, o CVV tem atendimento gratuito por telefone no número 188 e pelo site. Uma alternativa para situações de emergência é recorrer aos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), presentes em todos os municípios e com atendimento público associado ao Sistema Único de Saúde (SUS). E não deixe de considerar, também, a psicoterapia.

Fonte: Com informações de The Conversation, Jornal da USP, The Guardian, Eureka Alert, CNBC

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