Medicina do Futuro: fizemos o teste genético da Proprium, que mira em cannabis

Medicina do Futuro: fizemos o teste genético da Proprium, que mira em cannabis

Por Luciana Zaramela | 11 de Maio de 2021 às 13h30
Cidadania

O Brasil está com um catálogo diversificado de testes genéticos ao dispor dos internautas, uma vez que várias empresas estão oferecendo serviços de genômica pessoal com praticidade digna de nem precisar sair de casa, seja para colher o material, seja para receber seus resultados. Para dar continuidade à série Medicina do Futuro, o capítulo de hoje trata do teste genético da Proprium, que examina o DNA de seus clientes em busca de respostas relacionadas a aptidão física, nutrição, doenças e sistema endocanabinoide.

Batemos um papo com Fabrício Pamplona, CEO, diretor científico da Proprium e especialista em farmacologia canabinoide, para entendermos melhor a abordagem da empresa e sua trajetória em exames de DNA.

"A Proprium é uma spin-off de uma empresa de cannabis. Ela nasceu como um braço de diagnóstico que ganhou corpo. Mas, de verdade, ela parte de um conceito de que a medicina do futuro deve ser preventiva, e a genética é uma baita ferramenta para a gente antecipar os direcionamentos que nossa biologia dará ao nosso organismo", conta Pamplona sobre a origem da companhia. "Entender a si mesmo, entender a sua biologia, saber qual é o plano que está traçado para você e conseguir atuar proativamente", completa sobre a missão da Proprium.

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Medicina personalizada

Com tônica forte na jornada do autoconhecimento, o propósito da Proprium é ser é uma empresa disruptiva que mescla tecnologia e medicina para permitir que pacientes e médicos tenham ferramentas de diagnóstico que permitam a medicina personalizada. Ainda jovem, a Proprium estreou no mercado em 2020, mas com operações dentro e fora do Brasil, com escritórios também em Portugal e nos Estados Unidos.

O Canaltech realizou dois dos quatro testes oferecidos pela companhia: o MyMed Code, que é o farmacogenético, e o MyCannabis Code, voltado ao sistema endocanabinoide — e que é o diferencial inovador da startup. Além desses dois, a Proprium oferece testes de nutrigenética (MyNutri Code) e fitness (MyFitness Code), em um portfólio que promete crescer ainda em 2021.

Como é feito o teste

Todos os testes que o Canaltech realizou, de diferentes empresas, têm o mesmo modus operandi, do lado do usuário: a companhia envia um kit com um ou dois cotonetes, para que o cliente faça a coleta do material biológico (saliva) em casa e envie, por logística reversa ou Correios, de volta para a empresa. A partir daí, o tubo contendo o material é enviado a um laboratório parceiro e os resultados saem dentro de 30 a 45 dias.

A coleta, aliás, é bem simples: basta pegar o cotonete e esfregá-lo na parte interna das bochechas, coletando saliva da mucosa oral. As células impregnadas no cotonete contam com nosso material genético, e é a partir daí que o exame será feito. Com base em muita tecnologia, os filamentos de DNA são separados das células e o laboratório mapeia os genes de acordo com a área de interesse de cada teste.

É esta a caixinha que chega pelos Correios, com o kit de coleta e manual de instruções (Imagem: Luciana Zaramela/Canaltech)

Nossa experiência com a Proprium foi a mais rápida de todas as empresas que testamos, visto que em menos de 30 dias já tínhamos os resultados em mãos — mesmo com a amostra tendo cruzado o Atlântico para ser analisada em Portugal, pelas mãos do laboratório Heart Biogenetics. O laudo é feito por especialistas da Proprium e enviado ao cliente em forma de PDF.

A seguir, vamos detalhar os dois testes realizados pelo Canaltech: MyMedCode e MyCannabisCode.

MyMedCode

Para avaliar a resposta do organismo aos fármacos, o MyMedCode tem, por objetivo, mostrar ao usuário quais seriam as melhores opções de remédios para que os tratamentos sejam efetivos. Por isso, a escolha do teste genético é determinante, já que mapeia o organismo para descobrir como é a relação entre cada pessoa e cada medicamento. A ideia, também, é evitar sofrimento com efeitos colaterais e reações adversas, bem como ajudar a escolher uma droga mais assertiva para uma doença específica.

Os resultados funcionam como uma ferramenta de trabalho para o médico ou profissional de saúde, já que ajudam a orientar a definição de uma terapêutica personalizada, focando no aumento da eficácia do tratamento.

Genes analisados no MyMedCode (Imagem: Reprodução/Proprium)

Nosso laudo do MyMedCode chegou rápido, com 29 dias. Os resultados vêm em um arquivo PDF, e são extremamente detalhados. O teste analisa nosso DNA com o objetivo de avaliar 88 variantes em 32 genes, associadas à resposta e/ou ao risco de efeitos adversos de mais de 100 fármacos com impacto em diferentes áreas terapêuticas como psiquiatria, gestão da dor, oncologia, diabetes e cardiovascular.

A verdadeira farmacopeia brasileira, destrinchada e relacionada ao código genético do paciente: assim é o exame da Proprium que mira em fármacos e metabolismo no organismo de cada pessoa (Imagem: Luciana Zaramela/Canaltech)

Genes analisados no MyMedCode

Dentro do PDF há um QR code que leva a uma página do laboratório Heart Genetics para que você insira, em uma lista, os fármacos que você toma e indique se houve algum efeito colateral ou reações adversas, criando um histórico pessoal para consultas rápidas. As informações são cruzadas com os genes avaliados e exibidas na tela.

Resultados

O arquivo com os resultados já começa com um resumo dos fármacos que, baseados na genética de cada um, são indicados, ou requerem cautela, ou ainda requerem muita cautela ou substituição por outro medicamento.

As cinco partes tratadas pelo MyMedCode e como interpretá-las (Imagem: Reprodução/Proprium)

Os resultados são subdivididos por áreas, sendo que em cada uma delas há um grupo de remédios. Abaixo, nosso resumo em gestão da dor:

Em verde: fármacos bem tolerados, com base na amostra; em amarelo: fármacos que exigem cautela. Na seção de gestão da dor, nenhum dos fármacos analisados foi contraindicado (Imagem: Reprodução/Proprium)

Para cada item, de cada seção, a Proprium traz informações detalhadas. Por exemplo: nós já sabíamos de uma certa intolerância ao tramadol antes de realizar os testes, e os resultados indicam que, após análise do gene CYP2D6, foi observado um fenótipo de metabolismo reduzido para a droga. "O DPWG recomenda o monitoramento da eficácia e, em caso de falha terapêutica, considerar o aumento de dose ou a substituição por fármaco não metabolizado por CYP2D6", um gene da família do citocromo P450.

Mas, e em casos em que um fármaco é colocado, no laudo, como não indicado? Vamos pegar como exemplo a amitriptilina, um antidepressivo tricíclico muito comum no mercado. Nos nossos resultados, a resposta a esse fármaco foi de um metabolismo rápido pelo gene CYP2C19, porém reduzido no gene CYP2D6. Com base em recomendações do CPIC (Clinical Pharmacogenetics Implementation Consortium), é indicado que seja considerado outro medicamento como alternativa, desde que não seja metabolizado pelo CYP2C19. E caso o médico entenda que, em uma eventual prescrição, o uso de amitriptilina seja mais benéfico que contraindicado, a recomendação com base no nosso painel genético é de monitoramento terapêutico para possíveis ajustes de dosagem.

O que esse exemplo mostra é que, se, por acaso, for necessário consultar um psiquiatra para tratar de uma eventual depressão, o melhor é levar o laudo genético para que o médico possa se orientar da melhor maneira possível na escolha do tratamento, sabendo que, para determinados fármacos, o paciente pode ter um metabolismo indesejado, o que culminaria em diminuição ou aumento do efeito esperado, ou ainda em reações adversas e/ou efeitos colaterais.

Todas as seções do teste mostram as bases científicas sobre as quais a startup se apoia, com referências bibliográficas de artigos de pesquisas publicados em revistas científicas, como este update do consórcio que avalia a farmacogenética da codeína em relação ao citocromo P450.

Outro exemplo interessante é o do estradiol, um hormônio presente nas pílulas anticoncepcionais. Nos nossos testes, descobrimos que há risco aumentado de trombose venosa ou arterial com o uso do medicamento. A melhor saída, caso seja necessário fazer uso de anticoncepcional, é consultar um ginecologista para escolher um remédio com efeito semelhante, porém que traga um princípio ativo bem tolerado na sua formulação.

Pílulas anticoncepcionais podem causar trombose em algumas pacientes — e o exame farmacogenético revelou predisposição a desenvolver trombos, em consequência da ingestão do estradiol, comumente utilizado em combinação com outros hormônios nas pílulas (Imagem: Reproductive Health Supplies Coalition/Unsplash)

Já em relação a fármacos bem metabolizados, o laudo traz na lista uma série de remédios avaliados em relação ao nosso perfil farmacogenético. Um deles é a famosa Aspirina (ácido acetilsalicílico), também metabolizada pelo gene CYP2C19. Nossos resultados mostram que há um metabolismo ultrarrápido desse medicamento, e que, portanto, ele é indicado como antiagregante plaquetário.

Luz de alerta quanto ao estradiol, uma das surpresas do teste; no entanto, a Aspirina passou com sinal verde (Imagem: Reprodução/Proprium)

Em suma, apesar de a Proprium não nos ter oferecido, nos testes, um painel online com a divisão de todos os itens para consulta de maneira interativa, o laudo gerado pelo laboratório é de incrível riqueza de detalhes — inclusive técnicos, caso a ideia seja mostrar tudo para um especialista. Todos os genes avaliados, a metodologia utilizada e a resposta de cada genótipo e fenótipo é descrita para cada droga, com nível de evidência e até mesmo marcadores descritos. Para quem entende de biomedicina, é uma mão na roda. E para quem não entende, ainda assim é possível compreender muito bem os resultados.

E como interpretar?

Para entender os resultados, é preciso ler com atenção as explicações para cada símbolo. Tudo está bem dividido e esclarecido no documento, antes mesmo das páginas de resultados. Cada medicamento analisado em relação aos genes do paciente traz níveis de evidência baseados em classificações da PharmGKB, diretrizes de consórcios e até mesmo nas bulas dos medicamentos.

A classificação de evidência da PharmGKB, por exemplo, tem até 4 níveis. Essas evidências são descritas com base em cada variante do gene considerado chave para ativar o metabolismo de determinada substância.

Esquema ilustrativo dos níveis de evidência estabelecidos pelo PharmGKB, relativos a associações gene-fármaco. CPIC é a abreviação de Clinical Pharmacogenetics Implementation Consortium (Imagem: Reprodução/Proprium)

Estes são os fármacos analisados:

PSIQUIATRIA

  • Amissulprida Amitriptilina Anfetamina Aripiprazol Atomoxetina Brexpiprazol Brivaracetam Carbamazepina Citalopram Clobazam Clomipramina Clozapina Desipramina Diazepam Donepezila Doxepina Escitalopram Fenitoína Fluoxetina Fluvoxamina Galantamina Haloperidol Iloperidona Imipramina Mirtazapina Nortriptilina Olanzapina Oxcarbazepina Paliperidona Paroxetina Perfenazina Pimozida Quetiapina Risperidona Sertralina Tetrabenazina Trimipramina Venlafaxina Vortioxetina Ziprasidona

GESTÃO DA DOR

  • Carisoprodol Celecoxibe Codeína Diclofenaco Fentanila Flurbiprofeno Ibuprofeno Lornoxicam Meloxicam Metadona Morfina Naloxona Oxicodona Piroxicam Remifentanila Sufentanila Tenoxicam Tramadol

ONCOLOGIA

  • Cabazitaxel Capecitabina Carboplatina Ciclofosfamida Cisplatina Epirrubicina Erlotiniba Fluorouracil Gefitinibe Irinotecano Mercaptopurina Metotrexato Ondansetrona Oxaliplatina Sunitinibe Tamoxifeno Tegafur Tioguanina Tropisetrona

DIABETES

  • Clorpropamida Glibenclamida Gliclazida Glimepirida Glipizida Gliquidona Metformina Rosiglitazona Tolazamida Tolbutamida

CARDIOVASCULAR

  • Acenocumarol Ácido acetilsalicílico Atorvastatina Clopidogrel Digoxina Estradiol Femprocumona Flecainida Losartana Metoprolol Pitavastatina Pravastatina Propafenona Rivaroxabana Rosuvastatina Sinvastatina Varfarina

E então, compensa?

O teste é muito, muito detalhado. Há informações técnicas para profissionais especializados, bem como explicações sobre cada resultado, de forma bem didática. Pela riqueza de detalhes e pela ampla gama de medicamentos analisados, concluímos que o teste famacogenético da Proprium é bastante relevante, principalmente para pacientes em tratamento ou que descobriram patologias recentes e precisam ser assertivos na escolha da medicação.

No nosso caso, por exemplo, tivemos várias surpresas. Descobrimos que certos fármacos são contraindicados pelo risco de efeitos colaterais, como trombose venosa ou arterial, risco aumentado de ganho de peso, risco de discinesia tardia e até mesmo de falha terapêutica em alguns casos. De posse de um material como esse, o paciente se conhece melhor e o médico consegue enxergar caminhos mais certeiros para o sucesso do tratamento dentro das áreas avaliadas. Recomendado!

MyCannabisCode

Conhecer seu corpo e como ele funciona é uma das premissas da Proprium, e a principal inovação da companhia foi ter incluído em seus exames de genômica pessoal um teste completamente voltado ao sistema endocanabinoide, isto é, voltado para que um paciente entenda como seu corpo reage a derivados da cannabis — ou, popularmente, maconha.

Antes de falarmos do teste em si, é necessário pincelar alguns tópicos importantes sobre cannabis e saúde. A erva, que há milênios vem sendo usada de diversas formas para fins terapêuticos, também pode ser usada para fins medicinais, prescrita por médicos e com posologia regrada. Segundo a Proprium, todos os organismos de animais têm um sistema de produção de canabinoides, responsável pelo controle da homeostase, que nada mais é que o equilíbrio das funções orgânicas. É o sistema endocanabinoide que coloca nossa fisiologia dentro dos padrões "ideais" de funcionamento.

"Se a gente puder identificar dentro de um arsenal terapêutico qual substância se adequa melhor à biologia do paciente, ótimo! Felizmente, a genética já está pronta para fazer isso", revela Pamplona, sobre sua ideia de criar o MyCannabisCode.

O teste não faz apologia ao uso recreativo da cannabis, proibido no Brasil. Todas as informações são relativas a remédios prescritos por médicos e o metabolismo das substâncias derivadas da planta no organismo do paciente. Para saber sobre as deliberações da Anvisa quanto aos fitofármacos derivados da planta, clique aqui.

Extratos de cannabis, como CBD (canabidiol), têm efeitos diversos assim que são metabolizados no nosso organismo. É possível conseguir efeitos anti-inflamatórios, reguladores do sono, reguladores da temperatura corporal, analgésicos e até neuroprotetores. Se um indivíduo tiver alguma deficiência no sistema endocanabinoide, ele pode restabelecer o equilíbrio do organismo através de tratamentos com prescrição de canabinoides e acompanhamento médico. E é aí que o MyCannabisCode entra: se você e/ou seu médico já pensaram em alternativas envolvendo fitofármacos derivados da planta, conhecer como seu corpo reage aos canabinoides é um primeiro passo muito importante.

Com base na sua genética, o teste da Proprium avalia diversos polimorfismos, sendo 29 genes de interesse, para descobrir como os canabinoides agem no seu organismo. O resultado vem em forma de um painel bastante completo, com 55 variantes discriminadas com detalhes. Como o teste é uma inovação da empresa, o algoritmo utilizado nos exames também foi desenvolvido pela Proprium após muita pesquisa científica sobre farmacologia de canabinoides, da qual participaram (e participam) médicos, geneticistas, farmacologistas e biólogos computacionais.

Sistema endocanabinoide

Para conhecer melhor seu organismo e o que ele revela sobre você em relação aos fitofármacos derivados de cannabis, primeiro é importante saber o que é o sistema endocanabinoide. Trata-se de uma rede de receptores espalhados pelo nosso corpo, especialmente voltados à produção de substâncias que também são encontradas na cannabis — ou seja, os canabinoides. Mesmo que um paciente nunca tenha tido contato algum com a planta, ele tem (e fabrica) substâncias presentes nela de forma endógena, nos sistemas nervoso e imunológico, e que são essenciais para um funcionamento harmonioso da fisiologia.

Nós temos receptores CB1 e CB2 espalhados pelo corpo, assim como todos os animais. Pele, músculos, ossos, órgãos, glândulas, terminações nervosas, sistema reprodutor, digestório, reprodutivo… há receptores em tudo. Ao ingerir um medicamento derivado da cannabis, o paciente ativa esses receptores e, dependendo da prescrição e da orientação do seu médico, consegue deixar o seu sistema endocanabinoide equilibrado, a ponto de conseguir excelentes resultados.

É o caso de pacientes com fibromialgia, por exemplo, que relatam diminuição significativa nas dores que sentem pelo corpo após serem tratados com óleo de CBD, ou de pacientes com doenças neurodegenerativas que precisam de doses diárias do composto para seguir em frente sem sentir tanto o peso dos sintomas.

O teste genético baseado em farmacologia canabinoide resume os principais receptores do organismo e mostra como cada pessoa reage aos derivados da planta, sejam eles ingeridos, sejam inalados. "Um paciente com dor crônica ou paciente oncológico, por exemplo, sentem muitas dores com as quais não conseguem conviver. A imensa maioria faz uso de opioides, e muitas pessoas entram na rotina de tomar opioides diariamente e acabam desenvolvendo dependência", exemplifica. "Por isso, a cannabis acaba sendo uma alternativa para esses pacientes", defende Pamplona ao comparar a terapia com derivados da planta e medicação com analgésicos potentes, como os derivados da morfina (e até ela própria).

Canabinoides x Fitocanabinoides

Além de saber o que é um endocanabinoide (substâncias que nós produzimos), para entender o teste, você também vai precisar saber a diferença entre canabinoides e fitocanabinoides. Canabinoide é um termo genérico que serve para descrever substâncias, sejam elas naturais, sejam artificiais, capazes de ativar os receptores canabinoides do tipo 1 ou 2 (CB1 ou CB2), presentes no nosso organismo. Já os fitocanabinoides são compostos encontrados exclusivamente em plantas do gênero Cannabis. Há, ainda, canabinoides sintéticos, produzidos em laboratório e sem qualquer origem natural.

Considerando apenas os fitocanabinoides, já existem mais de 100 compostos identificados na literatura. Os mais comuns para a medicina estão apresentados na imagem abaixo.

Esquema ilustrativo dos tipos de fitocanabinoides mais comuns. Os fitocanabinoides existentes em plantas do gênero Cannabis encontram-se destacados em verde. Os compostos obtidos através de processos de aquecimento e/ou envelhecimento das plantas encontram-se em vermelho e em amarelo, respectivamente (Imagem: Reprodução/Proprium) 

Considerando apenas os fitocanabinoides, o delta-9 tetrahidrocanabinol (∆9-THC) e o canabidiol (CBD) são os mais estudados pela comunidade científica. O ∆9-THC (popularmente chamado apenas de THC) e os seus derivados destacam-se por proporcionar um efeito psicoativo nos seres humanos. O canabinol (CBN) e o delta-8 tetrahidrocanabinol (∆8-THC) são menos potentes por serem produtos da oxidação do ∆9-THC. Todos os outros fitocanabinoides não apresentam propriedades psicoativas.

Tanto o ∆9-THC quanto o CBD têm sido aplicados com sucesso na prática clínica. Em contexto terapêutico, estas substâncias podem ser apresentadas e administradas isoladamente, combinadas em diferentes proporções, ou em composições mais complexas, como os extratos obtidos da Cannabis.

Resultados

Assim como aconteceu com o MyMedCode, nossos resultados com o MyCannabisCode também foram surpreendentes, já que a Proprium prioriza bastante a ciência em seus laudos. Apesar de parecer um pouco técnico no início, basta sentar para ler os resultados com calma: tudo é bem explicado, referenciado e com bastante embasamento técnico e científico. Se você faz uso terapêutico de canabinoides ou pretende iniciar um tratamento com acompanhamento de seu médico, o teste é uma mão na roda, tanto para você, quanto para ele.

O teste avalia 55 variantes em 29 genes associados aos fitocanabinoides, identificando o perfil genético do paciente e trazendo, de maneira clara, os possíveis impactos dos compostos da planta. Esses genes são:

Genes analisados durante o teste MyCannabisCode (Imagem: Reprodução/Proprium)

Por método de extração e análise de filamentos de DNA da amostra coletada (de saliva), os equipamentos, que utilizam microchip de DNA para fazer a leitura, identificam os polimorfismos, que são posteriormente submetidos a análise por espectrometria de massa. A companhia afirma que os ensaios têm precisão maior que 99%.

No laudo, cada indicador considera a susceptibilidade do paciente aos principais efeitos colaterais presentes na cannabis. O algoritmo da Proprium leva em consideração diversos fatores genéticos para traçar potenciais efeitos adversos, como risco reduzido, risco intermediário e risco aumentado a desenvolvê-los.

Estas informações são apenas de cunho genético. O padrão de uso (tipo de produto, dose administrada e frequência de uso) são determinantes na ocorrência ou não dos efeitos listados no documento.

Nossos resultados revelaram um metabolismo para o canabinóide THC (tetrahidrocanabinol, substância psicoativa da planta) mais lento do que o normal, e mais rápido do que o normal para o CBD (canabidiol, substância não psicoativa, porém neuromoduladora). Isso significa que é possível ter efeitos da cannabis por mais tempo ou de maneira mais intensa que o normal, dependendo da concentração de cada substância dentro de uma cápsula ou óleo derivado de cannabis.

Gráfico dos resultados do MyCannabisCode em relação ao metabolismo das substâncias (Imagem: Reprodução/Proprium)

Segundo a recomendação personalizada de produtos, seção presente nos resultados do MyCannabisCode, com base no perfil genético da amostra enviada ao laboratório, a Proprium considera o seguinte: "você deve optar por produtos contendo teores baixíssimos ou mesmo inexistentes de THC. Não há qualquer restrição para o consumo de produtos contendo majoritariamente ou exclusivamente CBD. O médico prescritor vai lhe recomendar o produto mais indicado para o seu uso, dentre as categorias listadas abaixo. Em qualquer circunstância, sugerimos que inicie com doses menores e vá aumentando, conforme for adequado e recomendado pelo seu médico."

THC

Com base nesse resultado, ainda nas primeiras páginas do laudo, já descobrimos que fazer uso de medicação com THC na sua composição é contraindicado do ponto de vista genético, mas fitofármacos compostos essencialmente de CBD estão liberados para tratamento, desde que a dosagem seja prescrita por um médico. Isso inclui os óleos com 20 mg/ml de CBD, flores com cerca de 10-15% de CBD, e cápsulas com 20 mg de CBD (ou mais), sem teor detectável de THC.

Com base na genética, nossos resultados mostram que há um metabolismo parcialmente reduzido para o ∆9-THC, um metabolismo normal para o 11-OH ∆9-THC e um metabolismo parcialmente reduzido para o 11-COOH ∆9-THC. Isso significa que é possível sentir os efeitos do THC de maneira mais intensa. Assim, as recomendações para remédios contendo THC são as seguintes:

Nos resultados, o teste traz recomendações quanto a doses diárias de THC em fitofármacos (Imagem: Reprodução/Proprium)

CBD

Já para o CBD, segundo a amostra coletada e enviada, os resultados mostram um metabolismo aumentado tanto para o CBD propriamente dito quanto para o 7-OH CBD. Nesse caso, os efeitos terapêuticos podem ser sentidos de modo mais brando, o que quer dizer que utilizar doses maiores dos produtos contendo unicamente essa substância em sua composição é recomendado.

Efeitos adversos e impactos no dia a dia

O laudo do MyCannabisCode, além de detalhar a resposta do organismo ao THC e ao CBD, também traz os possíveis efeitos adversos que podem ocorrer, tudo com base na genética. Impactos no cotidiano, alterações comportamentais, função cognitiva e até dependência são relatadas separadamente, com resultados que indicam predisposição genética ou não a cada um desses fatores.

Os resultados do teste indicam que a cannabis pode, sim, interferir negativamente no dia a dia caso não seja utilizada com cautela. A imagem abaixo, por exemplo, indica quais os principais efeitos colaterais da medicação à base de cannabis no organismo do qual foi coletada a amostra aqui no Canaltech:

Alguns dos efeitos colaterais da cannabis, que podem ou não ser sentidos no dia a dia — tudo vai depender dos genes (Imagem: Reprodução/Proprium)

Além desses efeitos adversos, o teste traz insights interessantes:

Não foram identificadas variantes genéticas com impacto no cotidiano. Este resultado indica uma baixa predisposição para um impacto negativo da cannabis na vida cotidiana.

Nosso perfil genético indica que existe uma predisposição elevada para sofrer alterações psicológicas e de comportamento como consequência da utilização de cannabis. A Proprium recomenda que a questão seja discutida com o médico, que vai determinar o custo-benefício da terapêutica à base de cannabis. Inclusive, a recomendação do teste com base nos nossos resultados é ter especial atenção ao desenvolvimento de sintomas como a ansiedade, perda de motivação ou outras alterações de ordem psicológica e comportamental.

Outro insight interessante com base no nosso perfil genético indica que há uma predisposição intermediária para desenvolver problemas cognitivos, como consequência da utilização de cannabis. Nesse aspecto, vale lembrar que a utilização inadequada de fitocanabinoides, particularmente de ∆9-THC, está relacionada com a redução da função cognitiva. E tudo isso está descrito nos resultados do MyCannabisCode.

Óleos derivados de cannabis são uma forma eficiente de tratar vários tipos de patologias. Eles podem conter tanto CBD quanto THC, e quem vai definir a fórmula ideal para tratamento é o médico (Imagem: Twenty20photos/Envato)

Evidências científicas demonstram que a utilização crônica e excessiva de cannabis é uma característica hereditária, ou seja, influenciada pela genética. Os resultados mostram um perfil genético associado a uma predisposição elevada para a dependência de cannabis, ou seja... é muito importante que aumentos de dose e/ou da frequência de exposição sejam discutidos com um profissional de saúde. A Proprium chama a atenção para o uso indiscriminado de derivados da planta, já que pode resultar em efeitos indesejados e, em último lugar, no desenvolvimento de dependência.

Ao fim do laudo, assim como no MyMedCode, a Proprium traz uma tabela com todas as variantes genéticas analisadas pelo algoritmo e seus resultados em bases nitrogenadas.

Vale a pena?

Se você pensa em fazer acompanhamento médico com terapêutica baseada em fitocanabinoides, realizar o teste genético da cannabis pode ser uma ferramenta riquíssima tanto para você, quanto para seu médico. É importante se conhecer e saber como funciona seu metabolismo em relação aos canabinoides, pois nem sempre a terapia alternativa pode ser a melhor indicação. E se for, quem vai dizer isso é seu próprio DNA!

Dada a profundidade dos resultados e de como o exame é detalhado, o teste de canabinoides da Proprium é, sim, bastante interessante e inovador, atuando como auxílio para médicos e pacientes que buscam na cannabis a atenuação ou mesmo resolução de sintomas de uma ampla gama de transtornos, distúrbios e doenças. O teste é vitalício, ou seja, vale como documentação de genômica pessoal por toda a vida.

"Eu não tenho a mínima dúvida de que o CBD vai ser a primeira escolha para epilepsia. Os canabinoides, talvez até o THC, ainda serão a primeira escolha para fibromialgia. Acho que para o autismo vai acontecer também, mas ainda faltam mais estudos controlados — embora o que médicos e famílias relatam [de pacientes autistas usando CBD] chegue a ser emocionante", acredita o cofundador da Proprium.

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