Infectologista tira as principais dúvidas sobre a vacina de Oxford/AstraZeneca

Por Nathan Vieira | 19 de Fevereiro de 2021 às 16h00
Maksim Goncharenok/ Pexels

Passamos 2020 torcendo para que a vacina chegasse o quanto antes. O ano de 2021 já chegou, e com ele, também a vacinação contra a COVID-19. Vários países passaram a imunizar os grupos prioritários (profissionais da saúde e idosos), o que inclui o Brasil. Considerando que aqui no país há uma notável parceria entre o Instituto Butantan e a Sinovac para produzir a CoronaVac, buscamos um especialista para tirar todas as dúvidas sobre o imunizante. No entanto, não só de CoronaVac vive a situação da vacina no Brasil: a Fiocruz se une à Universidade de Oxford e à biofarmacêutica AstraZeneca para a produção de uma outra vacina em solo nacional, mesmo que por ora os insumos sejam importados. E dessa vez, é sobre ela que vamos esclarecer alguns pontos.

A vacina da Oxford contra a COVID-19 foi batizada de AZD1222, ou Covishield. A fase 2 dos testes mostrou que voluntários com idade maior que 56, alguns deles com mais de 70, produziram a mesma quantidade de anticorpos que os participantes mais jovens. Além disso, a vacina apresentou ainda menos efeitos colaterais nos idosos. Já a última fase de testes, que teve início em setembro do ano passado, aconteceu em vários países além do Brasil, como Japão, Índia, África do Sul, Estados Unidos e Reino Unido. A farmacêutica recrutou aproximadamente 30 mil voluntários, que  receberam duas doses ativas ou de placebo, com intervalo de quatro semanas. 

No início do mês, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou que o Brasil receberá 10,6 milhões de doses da vacina ainda no primeiro semestre de 2021, através da aliança intitulada Covax Facility, que tem a premissa de ajudar países em desenvolvimento a ter acesso a vacinas contra a COVID-19.

Foi em 6 de fevereiro que a Fiocruz recebeu o primeiro carregamento do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA), desenvolvido em Xangai, para iniciar a produção nacional das doses do imunizante de Oxford. Este primeiro lote contém cerca de 90 litros de IFA, armazenados a uma temperatura de -55 ºC. No total, a matéria-prima permitirá a fabricação de 2,8 milhões de doses. Além desse carregamento de matéria-prima, a Fiocruz aguarda outras duas remessas ainda para fevereiro.

A estimativa é que sejam entregues, até o final de março, 15 milhões de doses da vacina para o Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde. Até julho, o número de doses deve chegar a 100,4 milhões. Isso porque entre fevereiro e o início de março, a fábrica da Fiocruz trabalhará com uma única linha de produção, com capacidade para o envase de 700 mil doses por dia. No final do próximo mês, uma segunda linha de produção entrará em operação.

Vale ter em mente também que a partir do mês de abril, a produção nacional da vacina de Oxford começará a ser reorganizada, considerando que a Fiocruz dará início ao processo de incorporação tecnológica para a produção nacional do insumo. Todo o processo deve ser concluído em julho e será implementado em agosto. Em outras palavras, a partir desse momento, as vacinas da Fiocruz serão 100% brasileiras e não dependerão mais do recebimento de lotes importados de IFA.

A vacina da Oxford contra a COVID-19 foi batizada de AZD1222; 15 milhões de doses serão entregues ao PNI, do Ministério da Saúde (Imagem: Torstensimon/Pixabay)

Considerando toda essa expectativa de que parte da população brasileira receba o imunizante da AstraZeneca, o Canaltech contatou o Dr. Bernardo Almeida, médico infectologista e Chief Medical Officer do laboratório de análises clínicas Hilab, justamente para tirar todas as dúvidas sobre essa vacina.

CANALTECH: Do que é feita a vacina da AstraZeneca, exatamente? Como ela funciona?

Bernardo Almeida: É uma vacina que utiliza um vírus inativado, o adenovírus, como vetor de parte do material genético do SARS-CoV-2, que produz a proteína que gera a resposta imune. 

CT: Quais as contraindicações da vacina da AstraZeneca?

BA: A única contra-indicação absoluta é ter história de alergia grave a um dos componentes da vacina. Há outras situações que devem ser avaliadas caso a caso, como gestação, amamentação e imunossupressão. 

CT: Os componentes da vacina causam algum problema para quem é alérgico?

BA: Somente alergias graves, como anafilaxia. [Pessoas com] Outros tipos de alergias leves podem receber a vacina normalmente.

CT: Quais as recomendações para quem já possui uma doença pré-existente?

BA: Deve manter a doença bem controlada e ficar atento sobre qual será a posição na fila de priorização da vacinação.

CT: Quais são as condições que fazem com que a pessoa não possa tomar a vacina? Nesse caso, as pessoas tomando a vacina estariam ajudando essas pessoas de alguma maneira?

BA: História de alergia grave a um dos componentes da vacina é a única contra-indicação absoluta. Porém, há outras condições que devem ser discutidas individualmente, como no caso de gestação, amamentação e imunossupressão. Quanto maior a proporção de pessoas vacinadas, maior será a dificuldade do vírus em circular. Desta forma, mesmo uma pessoa não vacinada ficará protegida. 

CT: Tomei a vacina da AstraZeneca. Devo usar máscara? Devo evitar aglomeração? Por quanto tempo?

BA: Como o efeito populacional da vacina é gradativo e depende de um alto número de pessoas imunes, ficaremos ainda um bom tempo dependendo das demais ações de prevenção, como distanciamento, uso de máscaras, adaptação dos ambientes, evitar interações desnecessárias, evitar aglomerações e evitar ambientes fechados e mal ventilados. O tempo dependerá de fatores como a velocidade da vacinação e tempo de duração da imunidade gerada pela vacina. 

Canaltech tira com médico infectologista as principais dúvidas sobre a vacina de Oxford/AstraZeneca, que está sendo produzida no Brasil pela Fiocruz  (Imagem: cuz.gallery/Rawpixel)

CT: Por que a vacina exige duas doses?

BA: A segunda dose é capaz de amplificar a resposta imune, aumentando a eficácia da vacinação. Além disso, provavelmente aumenta o prazo de imunidade ao longo do tempo. 

CT: Como será a segunda dose da vacina?

BA: Se for seguido o protocolo utilizado nos estudos clínicos, poderá ser realizada entre 14 e 21 dias após a primeira. Discute-se a possibilidade de prorrogar a segunda dose, prezando pelo benefício de uma dose única para uma proporção maior da população em um primeiro momento. Essa conduta tem sido utilizada em outros países com outras vacinas. 

CT: O que acontece se a pessoa tomar apenas a primeira dose?

BA: Uma dose confere uma proteção inicial, porém menor que a encontrada nos estudos clínicos. A segunda dose deve ser prorrogada somente sob orientação do Programa Nacional de Imunização, caso considere essa estratégia benéfica para a saúde pública. 

CT: A vacina da AstraZeneca tem quanto de eficácia? Como eles sabem a taxa de eficácia de uma vacina?

BA: A eficácia da vacina foi de 70,4%. Isso significa que uma pessoa vacinada possui 70,4% menos chances de contrair doença causada pelo vírus SARS-CoV-2, comparado a uma pessoa que não recebe a vacina. Por exemplo, considerando que uma cidade de 1 milhão de habitantes terá 100 mil casos de COVID-19, caso toda a população seja imunizada, a vacina irá prevenir 70 mil desses casos. 

CT: A vacina da AstraZeneca impede a transmissão da COVID-19 ou a pessoa vacinada ainda pode transmitir?

BA: Apesar de eficácia comprovada na redução de doença, ainda não há dados sobre a eficácia na redução da transmissibilidade. Esses dados serão gerados durante a fase 4 dos estudos clínicos, que estão em andamento. 

CT: Gestantes podem ser vacinadas?

BA: Podem. Porém, essa decisão deve ser compartilhada entre o médico e a gestante, já que esse grupo não foi testado nos estudos clínicos. Outras vacinas inativadas são usadas de rotina durante a gravidez, como o exemplo da vacina para coqueluche. 

Especialista esclarece  ao Canaltech questões em torno de quem pode tomar a vacina e como funciona a segunda dose (Imagem: Fernando Zhiminaicela/Pixabay)

CT: Quanto tempo levará para toda população ser vacinada? 

BA: Dependerá da velocidade de produção e capacidade logística dos gestores públicos. Espera-se que seja o mais rápido possível.

CT: Quais os cuidados que ainda devemos ter enquanto ainda estamos em campanha de vacinação?

BA: Os mesmos que nos possibilitam diminuir a transmissibilidade e prevenir o colapso do sistema de saúde até o momento. Ou seja, isolamento dos casos suspeitos e confirmados, distanciamento de 1 a 2 metros entre as pessoas, uso de máscaras, evitar interações desnecessárias, evitar aglomerações e evitar ambientes fechados e não ventilados continuam sendo os pilares do controle da transmissibilidade até que seja atingida a imunidade coletiva. 

CT: Como será o cuidado com a doença pós-vacinação mundial?

BA: Com grande parte da população imune, os cuidados poderão ser amenizados e gradativamente a vida voltará à normalidade.

Segundo a Secretária de Estado da Saúde, a primeira etapa de vacinação estadual contra a COVID-19 deve priorizar profissionais da saúde, pessoas com 60 anos ou mais e grupos indígenas e quilombolas. Para saber sobre eficácia não só da vacina desenvolvida pela Oxford e pela AstraZeneca, como também de outras vacinas, acesse nossa matéria especial, onde esclarecemos questões em torno do que é taxa de eficácia e como ela é calculada, por exemplo.

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.