Físicos descobrem ponto fraco do coronavírus e planejam "combate atômico"

Por Fidel Forato | 20 de Agosto de 2020 às 10h30
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Com mais de 20 milhões de pessoas contaminadas pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2), cientistas e pesquisadores de todo o mundo buscam formas de controlar a pandemia da COVID-19. Por mais que a maioria das pesquisas se concentre na biologia e na ação de medicamentos e de vacinas contra a infecção, um grupo de físicos propõe uma abordagem atômica e inédita a essa doença.

Um grupo de pesquisadores da Northwestern University, nos Estados Unidos, liderado pela física mexicana Mónica Olvera, analisou as diferenças entre o coronavírus responsável pela síndrome respiratória aguda grave (SARS), em 2003, e o responsável pela COVID-19. A partir disso, foi possível entender, de forma mais detalhada, como uma célula humana é infectada e de que forma o eletromagnetismo auxilia nesse processo.

Pensando de forma atômica, físicos investigam como combater o novo coronavírus (Imagem: Gerd Altmann/Pixabay )

"Estamos bloqueando o vírus", explica a física Olvera sobre a forma que conseguiram, inicialmente, reduzir a conexão entre o coronavírus e os receptores humanos em 30%. "Antes do vírus entrar (nas moléculas do corpo), podemos atacá-lo para que ele não tenha mais tanta energia de atração, que não seja capaz de infectar. E, se entrar, que fique bloqueado ali", comenta a cientista sobre a pesquisa, que utiliza física quântica.

Dessa forma, a ideia é projetar um composto químico, em um prazo de três meses, que consiga triplicar a eficácia desse bloqueio, auxiliando o corpo a se proteger do coronavírus. "É outra forma de cura. Não são anticorpos [como os das vacinas], aos quais os vírus podem ser tornar resistentes. São muitos os casos em que os vírus se tornam resistentes aos anticorpos", adianta a pesquisadora.

Entretanto, o grupo de físicos precisará entender como esse composto, provavelmente um polímero, funcionará após ser metabolizado pelo corpo, já que as pesquisas foram feitas apenas em laboratório.

Como isso é possível?

Depois de entrar no organismo, o novo coronavírus invade as células humanas a partir das proteínas S, presentes em sua membrana. Essa proteína reage com uma enzima específica das nossas células, a AC2, e permite a entrada do agente infeccioso. Mesmo que seja fundamental para a infecção, a recente pesquisa descobriu que essa proteína também pode ser o “calcanhar de Aquiles” nas interações eletrostáticas do vírus que o ligam às células humanas.

“Não encontrei a cura, encontrei um método científico que dá um direcionamento. O que fizemos foi encontrar outra forma de violar, de reduzir a atração entre a proteína S [do novo coronavírus] e o receptor humano onde o vírus se agarra”, comenta a física.

Com ajuda de simulações computacionais, os pesquisadores descobriram que o ponto de clivagem polibásico do vírus — local por onde ocorrem as reações entre as partes — é carregado positivamente e localizado a 10 nanômetros de onde a proteína S se conecta. Esse local permite uma forte ligação entre a proteína do vírus e as células humanas, já que estas últimas apresentam uma carga negativa. "Percebemos que se modificássemos as cargas do novo coronavírus, a atração com o receptor diminuía muito", completa Olvera.

Aplicação médica da descoberta

"Queremos criar algo que não seja biológico, que não crie resistência. Evitar que o vírus encontre outras formas de progredir. Acreditamos que pode ser uma forma de enfraquecer o vírus, diferente do que está sendo feito", explica a física sobre as formas de como se aplicar esse novo conhecimento, que inclusive poderá ser efeito através de aerossóis.

Agora, a equipe de cientistas trabalha no projeto de uma molécula carregada negativamente que se ligaria ao local de clivagem positivo, ou seja, ocuparia o espaço antes do novo coronavírus. Dessa forma, o vírus não conseguiria se ligar a essas células humanas. "Nosso trabalho indica que o bloqueio deste local de clivagem pode atuar como um tratamento profilático viável que diminui a capacidade do vírus de infectar humanos", completa a pesquisadora.

Leia o artigo completo, disponível em ACS Publications, aqui.

Fonte: ACSBBC, Infobae e Phys    

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