Decisões políticas chinesas podem estar atrapalhando combate ao Coronavírus

Por Rafael Rodrigues da Silva | 28 de Janeiro de 2020 às 19h00
Chung Sung-Jun/Getty

Enquanto o Coronavírus continua assustando cientistas e médicos no mundo todo, as coisas também não estão tão boas no país onde tudo se iniciou: a China. Apesar das autoridades do país terem tomado algumas medidas que podem ser consideradas extremas (como colocar toda uma província em quarentena), muitas pessoas no país estão questionando a forma como a população com sintomas da doença está sendo tratada de modo geral, principalmente sobre a dificuldade de se conseguir a confirmação sobre uma pessoa estar ou não infectada com o vírus.

Segundo diversos relatos tanto na rede social chinesa Weibo quanto revelados diretamente para a imprensa, os hospitais estão se recusando a fazer o teste do Coronavírus em todos os pacientes que chegam a eles com os sintomas da doença. Assim, o que não falta são relatos de pessoas que ficam o dia inteiro no hospital e não conseguem nem ao mesmo saber se estão mesmo infectadas com o vírus ou se o problema é outro. Muitas vezes, essas pessoas são enviadas para outro hospital da região, onde a história de repete.

Isso acontece porque, ainda que a primeira morte relacionada à doença tenha acontecido no dia 10 de janeiro, apenas no dia 20 os hospitais de Wuhan (a cidade onde surgiram os primeiros casos do vírus) receberam um kit para teste rápido da presença do vírus. Até então, era necessário coletar uma amostra de sangue de qualquer um que tivesse suspeita de contaminação e enviar essa amostra para Pequim, demorando cerca de cinco dias para se obter um resultado. Com o uso do kit, é possível ter o mesmo resultado em questão de horas.

Médicos e funcionários de hospital onde pacientes com Coronavírus estão internados impedem parentes de se aproximarem demais das dependências (Imagem: Reuters)

Atualmente, os sete maiores hospitais da cidade já possuem o kit para confirmar a presença do Coronavírus, mas mesmo assim as filas para teste não diminuem. Isso porque, de acordo com o relato de pacientes e profissionais de saúde, há uma ordem para que nem todas as pessoas que chegam com os sintomas sejam testadas, e a equipe médica precisa fazer uma triagem para identificar aqueles que já estão em estado mais crítico (ou seja, que não há mais possibilidade de tratamento) e se recusar a testar essas pessoas para a doença. Assim, é possível que o número oficial de 2.800 pessoas infectadas e 80 mortas seja na verdade muito maior, já que todos que estão tendo o teste recusado, caso acabem morrendo, não irão entrar na estatística de vítimas do Coronavírus.

De acordo com as autoridades chinesas, essa recusa foi implantada porque não há kits de teste suficiente para todos. Além disso, eles afirmam que todas as coletas necessárias para se completar o teste podem demorar um pouco, e por isso é necessário que qualquer pessoa que passe pelo teste seja também internada até que saiam os resultados. Mas, aí, surge outro problema: não há leitos na cidade para todos os possíveis infectados.

De acordo com uma estimativa feita por pesquisadores da Universidade de Lancaster, acredita-se que apenas cerca de 5% das pessoas infectadas pelo Coronavírus em Wuhan foram identificadas como tal. Eles acreditam que, no total,  mais de 11 mil pessoas foram infectadas com a doença — e, segundo dados da autoridade oficial de saúde de Wuhan, existem mais de 30 mil pessoas em observação na cidade, sob suspeita.

Falha de comunicação

Um dos principais problemas apontados durante essa mais recente crise na China é a falta de divulgação de informações sobre a doença, uma opção política que pode estar contribuindo para a epidemia no país.

Durante os dez dias entre o sequenciamento do código genético do vírus e a distribuição do kit para testes nos hospitais de Wuhan, o número de pessoas que estavam em observação médica caiu de 739 para apenas 82, e nesse período nenhum novo caso de infecção foi reportado para os habitantes. Por “coincidência”, esse período de dez dias ocorreu durante a preparação para as festas do Ano Novo Lunar — que foram suspensas pelo governo.

Ao que parece, a recusa por novas informações foi realmente um projeto do governo. Há relatos de diversas pessoas que, durante este período, postaram no Weibo que foram confirmadas como infectadas com o Coronavírus e rapidamente foram contatadas por membros do governo pedindo para que a postagem fosse removida da rede social. Além disso, oito pessoas foram presas por “espalhar boatos” de que o vírus havia se disseminado muito mais do que o que o governo dizia publicamente.

O próprio prefeito de Wuhan, Zhou Xianwang, apareceu na televisão estatal chinesa nesta segunda-feira (27) afirmando que nenhuma das partes envolvidas com a doença está satisfeita com o modo como a informação está sendo divulgada, confirmando que existem ordens “de cima” — tanto do governo provinciano (o equivalente ao nosso governo estadual) quanto do governo federal — para que ele não divulgue todas as informações que possui sobre a proliferação da doença na cidade.

E, ainda que o país esteja recebendo muitos elogios da comunidade científica internacional por conta da velocidade com que conseguiu sequenciar o código genético do vírus e criar novos leitos de hospitais para atender os infectados, a comunicação sobre a doença e a falta de urgência na produção e distribuição dos testes para identificação do vírus são pontos que têm recebido muitas críticas.

De acordo com John Edmunds, professor no centro para a criação de modelos matemáticos da proliferação de doenças infecciosas da Escola de Higiene & Medicina Tropical de Londres, pouquíssimas informações foram divulgadas ao público pelo governo chinês desde o primeiro caso da doença. Ele afirma que não sabe dizer se essa falta de informação é proposital ou por incompetência, mas que ter acesso aos dados epidemiológicos mais básicos poderia ajudar no desenvolvimento de métodos para conter a proliferação do vírus.

Já Mary Gallagher, professora de ciências políticas no Centro de Estudos Chineses da Universidade de Michigan, afirma que a baixa urgência na fabricação e distribuição dos kits de teste mostra que o país não aprendeu a lição com a epidemia de SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave), que em 2002 matou quase 800 pessoas. Para a professora, ainda que a China tenha melhorado em alguns pontos — como, por exemplo, o rápido mapeamento do genoma do vírus — ela parece não ter aprendido nada com os eventos de dezoito anos atrás no quesito de como se deve gerenciar a informação sobre uma epidemia e tratar o medo das pessoas para não criar um pânico infundado. E esse tipo de coisa pode, assim como aconteceu com o SARS, fazer com que a doença tome proporções maiores do que deveriam se fosse tratada com mais transparência.

Fonte: Reuters

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